Reflexões sobre a agricultura nos Estados Unidos e no Brasil, por Renato Roscoe

Publicado em 10/09/2013 15:40 e atualizado em 10/09/2013 16:39
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Renato Roscoe, Renato Roscoe é engenheiro agrônomo (UFV, 2005), mestre em ciência do solo (UFLA, 1997) e doutor em environmental sciences (Wageningen University And Research Centre, 2002). Atua como diretor executivo e pesquisador no setor fertilidade do solo na Fundação MS.

Cruzar o cinturão do milho no centro dos Estados Unidos da América traz algumas reflexões sobre nossa agricultura. Onde estamos em relação a eles? Nosso nível tecnológico é menor? Nossa agricultura é menos eficiente? Será que podemos melhorar? Será que podemos aprender algo com eles?

As condições ambientais no coração da produção agrícola dos EUA não são lá um diferencial. O clima não vem a ser assim tão favorável, pois o gelo cobre os campos parte do ano. Somente uma safra por ano. Entretanto as temperaturas amenas e a grande insolação durante a safra (mais horas de luz) favorecem as excelentes produtividades, sobretudo do milho. A produtividade média do cereal está em torno de 200 sacas por hectare (12.000 kg/ha). Os solos, embora de excelente fertilidade, tem problemas de drenagem e são muito susceptíveis à compactação. Nossos solos, corrigidos e em sistema plantio direto, apresentam grande competitividade e não deixam muito a desejar. A possibilidade de duas safras também contribuem para nos colocar mais próximos dos níveis de produção por área dos norte-americanos.

Pragas, doenças, plantas daninhas? Também estamos muito nivelados. Há diferenças nos problemas, mas a intensidade é semelhante. Enquanto fungos e doenças do solo são mais importantes para os agricultores de lá, aqui temos problemas mais intensos de parte aérea. Também encontramos campos infestados de plantas daninhas resistentes ao glifosato aqui e lá, mudam somente as espécies.

Mais tecnologia à disposição? Também poderia ser um fator, mas não pude me convencer a respeito. A revolução biotecnológica avança um pouco mais rápido do que no Brasil, mas somente um pouco. Há mais eventos biotecnológicos em milho, trigo, soja e algodão. Entretanto estão voltados para os problemas específicos dos agricultores norte-americanos. Nosso portfólio de eventos no Brasil está seguindo o mesmo rumo e empresas multinacionais americanas e europeias têm programas de pesquisa específicos para nossos problemas. Talvez a morosidade em nosso processo de registro e liberação dos eventos biotecnológicos nos coloque em pequena desvantagem.

Ainda falando de ciência, tecnologia e inovação, vale ressaltar que o USDA, órgão de pesquisa agropecuária do governo americano, tem orçamento anual de 1,2 bilhão de dólares, o que está muito próximo do orçamento da nossa Embrapa, o qual gira em torno de 1,0 bilhão de dólares anuais. Por outro lado, os investimentos privados em pesquisa por lá, na realidade, nos alimenta com novos produtos por aqui. Esses investimentos estão concentrados em multinacionais de químicos e produtos biotecnológicos, os quais são rapidamente transferidos para o Brasil ou mesmo desenvolvidos exclusivamente para nossa realidade. Somos um mercado bastante atrativo para essas multinacionais.

Seguramente o modelo de produção tem algumas diferenças. Apesar das unidades médias não serem muito grandes, cerca de 1.000 ha por produtor, o nível de mecanização é elevadíssimo. Alto grau de automação, tratores que podem ter mais de 600 cv, implementos enormes. Tudo para se adequar à pequena janela de plantio. Um misto de necessidade, em função do elevado custo e da escassez de mão de obra, e de ambiente favorável ao investimento, com carga tributária inferior, abundância de crédito, juros baixos e ótimas condições para pagamento. Soma-se a isso o risco mais baixo dos investimentos, diante de um eficiente sistema de seguro agrícola. Bom, neste ponto começamos a ver as diferenças.

E o acesso? Escoamento da produção? Aí sim começamos a perder feio. Estradas cuidadosamente pavimentadas até praticamente a porta das propriedades. Quando muito, alguns quilômetros de estrada cascalhada. Impecável! Bem, e a distância até o mercado? Outro ponto muito diferente! Em uma fazenda próxima a Chicago, o produtor de milho enumerou seis opções de mercado a uma distância de 150 km: comércio local para ração animal; usina de bioetanol; terminal portuário no rio Mississipi e exportação pelo Golfo do México; terminal ferroviário seguindo para os estados produtores de gado no oeste; também pelo terminal ferroviário seguindo para a Costa Oeste e exportando para a Ásia; e, finalmente, mercado local de alimentos processados.

Bem, e os subsídios? Historicamente já foram bastante importantes, mas vêm reduzindo seu impacto rapidamente. Hoje está presente principalmente na redução dos custos do seguro e outras pequenas vantagens. Entretanto, comparando com nossa situação, os subsídios em si não são tão relevantes, uma vez que os custos de produção norte-americanos são ligeiramente mais altos.

Em resumo, nesse exercício de comparação, somos bastante competitivos e não deixamos nada a desejar em termos de condições ambientais e nível tecnológico. Da porteira para dentro, somos muito eficientes também. Perdemos em disponibilidade e custo dos financiamentos. Perdemos pela falta de uma estrutura de seguro agrícola generalizada. Tomamos uma surra quando falamos em infraestrutura e logística!

Lá a agricultura é considerada estratégica para a nação! Séculos de prioridade transformaram o rio Mississipi e a rede de ferrovias em um sistema de transporte eficiente e barato. Valorizaram a produção rural, dando suporte com políticas agrícolas sérias e de longo prazo. Enquanto isso, aqui ainda estamos tentando fazer com que o Brasil entenda que a agricultura carrega o seu desenvolvimento e é o setor onde somos competentes e competitivos! É onde somos uma potência mundial e onde temos a oportunidade de crescer! Ou seja, a diferença é que o setor agrícola é e sempre foi prioritário para os norte-americanos. Aí está a verdadeira lição que temos que aprender com eles.

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Fonte: Sato Comunicação

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