O plantio direto acordou o Brasil para a sustentabilidade, por Antonio Roque Dechen

Publicado em 30/09/2013 15:42 e atualizado em 03/10/2013 12:05
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O Paraná é um dos mais importantes e desenvolvidos estados da Federação, com uma população superior a 10 milhões de habitantes e PIB próximo a 220 bilhões de reais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, foi no âmbito da agricultura que o Paraná ofereceu ao país contribuição inigualável, sob a condição de palco privilegiado iniciador da aplicação do Sistema de Plantio Direto (SPD) na palha.

O pioneiro dessa técnica é Herbert Arnold Bartz, que utilizou os fundamentos do plantio direto no município paranaense de Rolândia, localizado no norte do estado, na safra de 1972, trabalhando com uma plantadeira fabricada nos Estados Unidos, a Allis Chalmers.

À revista Plantio Direto, Bartz disse que a chuva torrencial que caiu em uma noite de novembro de 1971 foi o “laboratório” que o levou a entender os desdobramentos perversos da intempérie, que arrastou volumes importantes de terra, erodiu o solo e desapareceu com sementes recém-plantadas e fertilizantes aplicados. “Precisava fazer algo para mudar aquele panorama. Mais uma chuva como aquela e a terra não produziria mais. Seria o fim”, considerou Herbert Bartz.

O Sistema de Plantio Direto é compreendido pelo tripé básico - três ações fundamentais de cultivo – que engloba a cobertura permanente, o mínimo revolvimento do solo e, sempre que possível, a rotação de culturas. Hoje, o cultivo em plantio direto expandiu-se em escala internacional e, somente em nível nacional, contam-se 32 milhões de hectares ante o total de 68 milhões de hectares plantados no país. Em 2012, a agricultura brasileira obteve em seu Valor Bruto de Produção robustos 243 bilhões de reais.

Procedimentos em SPD

Um dos desdobramentos mais relevantes dessa técnica revolucionária, é que, na verdade, o Sistema de Plantio Direto sofisticou muito a agricultura. A permanência da palha após as colheitas, por exemplo, fixa-se como uma proteção que mantém no solo micro-organismos essenciais. Quando ocorre a incidência do sol, ele não atinge diretamente o solo, pois é como se esbarrasse em uma capa protetora. Dessa forma, se a água no solo não evapora, facilita a ação desses micro-organismos que, ao decomporem a camada de resíduos, estimulam a formação de húmus no terreno a ser plantado. Trata-se, obviamente, de importante reforço à permeabilidade do solo e à redução da velocidade dos escorrimentos, evitando, sobretudo, a erosão e subsequente deposição de resíduos em águas lacustres e riachos. Complementarmente, pode-se creditar ao SPD a recuperação de solos degradados, já que a decomposição da cobertura morta protege a terra e municia, como alimento, bactérias, plantas e animais.

Outro fator de grande relevância no plantio direto é facilitar a rotatividade de culturas ao abreviar novas semeaduras. Por meio dessa solução, fecham-se as portas para a continuidade de doenças que aparecem regularmente em monoculturas, quando se utiliza o sistema tradicional de plantio, a exemplo de fungos, lagartas e outras. Como as pragas não são as mesmas - seja no milho, seja na soja, no trigo ou no algodão -, a rotação de culturas no plantio faz com que não haja a permanência do mesmo tipo de praga durante todo o tempo, arrefecendo drasticamente sua capacidade de danificar tal ou qual cultura plantada, além de preservar seu manejo saudável.

Ademais, o Sistema de Plantio Direto possibilita o plantio em linhas retas nos terrenos declivosos ao manter o solo protegido pela camada de resíduos. Hoje, trabalha-se no SPD com semeadoras de última geração, capazes de plantar faixas de 10 ou mais metros de largura e com pulverizadores que alcançam entre 10 e 15 metros de cada lado. Essas máquinas colossais, equipadas com GPS, remontam à Rotacaster 80, inspiradora do protótipo brasileiro criado na década de 1970.

Sustentabilidade

O agrônomo Fernando Penteado Cardoso, fundador da Agrisus, assevera que o SPD reforçou a necessidade de se adotar a pesquisa em caráter permanente. De acordo com Cardoso, “hoje, notamos na maior parte dos produtores rurais uma preocupação muito grande com a continuidade e perpetuidade do seu sistema agrícola, evitando que esteja sujeito à erosão, à perda de fertilidade e a uma decadência próxima. Na mente de todo agricultor está marcado: ‘Tenho que continuar. Minha terra é muito importante, para minha família ou para terceiros’. Pois a terra é emprestada das gerações futuras, daqueles que irão nos suceder. Portanto, temos que entregá-la em boas condições”.

Sob a perspectiva da produção de alimentos em escala global, a adoção de métodos sustentáveis configura-se como primordial. Não se pode mais entender o trabalho agrícola sem o devido tratamento orgânico do solo, dando-lhe a necessária proteção com o fito de que qualidade e produtividade alcancem os melhores resultados e desempenho único.

Um exemplo magnífico de ações sustentáveis perante desafio de grande vulto é o que vem ocorrendo na Hidrelétrica de Itaipu, empreendimento binacional partilhado pelo Brasil e pelo Paraguai, com 14.000 MW (megawatts) de potência instalada. Em toda a extensão do reservatório da usina, de 1.350 km², havia o problema de assoreamento determinado pela erosão do solo nas proximidades da hidrelétrica.

Os responsáveis por Itaipu encontraram no SPD a solução mais adequada para preservar o volume de água no reservatório. Em declaração à Federação do Plantio Direto, o diretor da Itaipu Binacional, Jorge Samek, afirma que “esse sistema é uma ferramenta importante na proteção e no prolongamento da vida útil do reservatório”. Ele assegura que o plantio direto preserva a qualidade da água, “isso porque a quantidade de resíduos que vai para o reservatório é bem menor do que no sistema convencional”. Os Estados Unidos, para tomarmos um exemplo eloquente, mantém a maior produção agrícola do mundo. Enquanto o Brasil produz 184 milhões de toneladas de grãos anuais, os Estados Unidos encontram-se no patamar de 600 milhões de toneladas. Agora, o mais impressionante: lá, o período que pode ser utilizado para o cultivo oscila, no máximo, entre 5 e 6 meses devido ao período de frio. Entre nós, temos o astro-rei disponível praticamente o ano inteiro.

Por isso é que se nota, com certa regularidade, o espanto de agricultores americanos e europeus com as peculiaridades do aproveitamento agrícola do solo neste lado do mundo, visto que, para eles, são quase inconcebíveis as possibilidades disponíveis no plantio nativo. Em seus países e regiões, em certo momento “a luz apaga”. Se não há sol, é bom desistir, não há plantio possível. Para nós, entretanto, fica claro como a luz do dia que estamos muito aquém do que podemos e deveríamos estar produzindo no campo, a exemplo de duas culturas de verão no mesmo ano agrícola.

A adoção do Sistema de Plantio Direto agrega não somente valores conservacionistas, notadamente quanto à qualidade, conservação e biologia do solo, mas, complementarmente, adiciona outros benefícios relevantes à economia agrícola ao otimizar o uso de fertilizantes e diminuir variados custos de produção. No entanto, a contribuição inestimável que o SPD proporciona aos seus adeptos é a conservação perene do seu bem maior, que é o solo onde trabalham. Na contramão ao recomendado zelo no dia a dia desta atividade, a falta de cuidados com o solo reservado ao plantio acarreta prejuízos de tal magnitude que sequer permitem a mensuração precisa dessas perdas.

Mais uma vez, é Fernando Penteado Cardoso quem resume com ênfase e precisão: “Cumpre ter coragem de mudar os conceitos, de renovar o inconsciente, de reformular as apostilas, de ousar eliminar a aração anual da terra. Vamos difundir o novo ambiente de produção agrícola. Vamos praticar eficientemente uma agricultura tropical, onde faz calor e chove, com estiagem para as colheitas”.

Outra notável avaliação das potencialidades agrícolas do país, onde a ciência ocupa lugar destacado, são as observações daquele que é considerado o pai da Revolução Verde e prêmio Nobel da Paz em 1970, Norman Borlaug. Em visita ao Brasil em 1995, Borlaug conheceu o Cerrado e disse que a transformação de terras fracas em solos férteis de alta produtividade na região era o maior acontecimento mundial na história da agricultura no século XX.

Quase uma década depois, retornando ao país para acompanhar a evolução do solo do Cerrado, Norman Borlaug entusiasmou-se em trecho de carta endereçada a Fernando Cardoso. Ele escreveu: “O progresso alcançado por seu país é fantástico. A rápida expansão da soja em muitas áreas de solo ácido, com produtividades crescentes, é por si só uma conquista fantástica”.

Pioneiros em Mauá da Serra e Ponta Grossa

A experiência coletiva inaugural em plantio direto foi empreendida no município de Mauá da Serra, situado a 75 quilômetros da cidade de Londrina, também no norte do Paraná. Em 2012, foi inaugurado neste local o Museu Regional do Plantio Direto, onde se pode conhecer a semeadora Allis Chalmers (a mesma trazida dos EUA por Herbert Bartz em 1971), um protótipo que deu origem à primeira semeadora brasileira, a Rotacaster 80, fabricada pela Hatsuta do Brasil, assim como a TD 300, fabricada pela Semeato.

Em Mauá da Serra, produzia-se batata em larga escala, mas, com o aparecimento da doença conhecida como “mancha de chocolate”, chegou-se à incerteza a respeito da continuidade de manutenção dessa cultura. A experiência pioneira na Fazenda Rhenânia, de propriedade de Bartz, em Rolândia, foi apresentada aos pioneiros Yukimitsu e Cândido Uemura, em 1974. No ano seguinte, grande parte dos produtores de Mauá já adotava o sistema de plantio direto nas lavouras sucessoras da batata.

O engenheiro agrônomo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) Nelson Harger afirma, também à revista Plantio Direto, que a matéria orgânica é considerada hoje a “Deusa do Solo”. Ele diz que em nossos dias os produtores de Mauá possuem uma “poupança” de matéria orgânica que garante a sustentabilidade do sistema de plantio direto.

Harger confirma que a matéria orgânica propicia a melhor infiltração, manutenção de água e equilíbrio químico e biológico do solo. O plantio direto na palha, diz ele, garante a sustentabilidade ambiental, evitando erosões; a sustentabilidade social, devido à racionalidade da mão de obra e redução do êxodo rural; além da sustentabilidade econômica e tecnológica.

Já a atuação do produtor rural de Ponta Grossa Manoel Henrique Pereira, ex-diretor da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e conhecido por todos como Nonô Pereira, se deu a partir de outubro de 1976 em dupla com o colega Franke Dijkstra. O lugar privilegiado para as experimentações e divulgação do sistema de uso da palha como essência do SPD foram os Campos Gerais do Paraná, região histórica que acabou por se tornar importante centro de expansão dessa tecnologia inovadora e de largo alcance, revolucionando, menos de exíguos 30 anos depois de sua implantação, as bases produtivas do agronegócio no país.

Instituições representativas

Importante contribuição para o desenvolvimento do SPD no Brasil foi a criação da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (FEBRAPDP), notoriamente reconhecida como a entidade mais representativa do setor. Ela foi criada em 23 de julho de 1992, com a missão de reunir, no bojo de diversas atribuições, as instituições que se dedicam ao estímulo, difusão e orientação do Sistema de Plantio Direto na Palha, em todo o país e, também, as congêneres internacionais. Em junho de 1998, a FEBRAPDP recebeu do Ministério da Justiça outorga de Entidade de Utilidade Pública Federal.

A Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS), com as suas comissões técnicas, tem promovido o Plantio Direto, bem como a Fundação Agrisus, que foi criada com a finalidade específica de incentivar a pesquisa agronômica e a extensão rural, com a finalidade de gerar, desenvolver e difundir tecnologias destinadas a otimizar a fertilidade da terra de forma sustentável e favorável ao meio ambiente.

Já a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com as atividades do Centro de Pesquisa Agropecuária do Cerrado (CPAC), da mesma forma como atuam todas as instituições de ensino e pesquisas agronômicas do país, tem hoje sua atenção voltada vigorosamente para a sustentabilidade da produção agrícola nacional.

No Brasil Central, a Associação do Plantio Direto no Cerrado (APDC), originada do Projeto Morrinhos, patrocinado pela empresa de fertilizantes Manah S.A. para pesquisar o SPD nos solos fracos da mencionada região, muito contribuiu para o desenvolvimento e a disseminação do plantio direto. Dentre seus fundadores e diretores destaca-se o agrônomo inglês John Landers pela relevante contribuição para esse inigualável recurso de melhoria e conservação do solo.

A história do plantio direto no Brasil está indelevelmente ligada às entidades FEBRAPDP e APDC ao lado de seus dedicados fundadores e colaboradores Bartz, Nonô e Landers, que podem ser cognominados de apóstolos do SPD em nosso país.

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Fonte: Agrisus

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