Dia Mundial da Alimentação: opiniões divergentes, entre a teoria e a prática

Publicado em 17/10/2013 16:23 e atualizado em 18/10/2013 16:59
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Dia Mundial da Alimentação 2013: em direção a sistemas alimentares sustentáveis, por José Graziano

Por José Graziano da Silva, Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)

O processo de produção dos alimentos é extraordinariamente complexo. Não somente inclui agricultores e pescadores, mas também aqueles que desenvolvem novas tecnologias, os fornecedores de insumos e os responsáveis pelo transporte, armazenamento, processamento e comercialização de alimentos. Todas as pessoas são, além disso, consumidores, e suas decisões ajudam a escala da demanda global por alimentos.

O tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano, que a FAO comemora dia 16 de outubro de cada ano, é Sistemas Alimentares Sustentáveis para a Segurança Alimentar e a Nutrição, e convida à reflexão sobre a forma como estes estão funcionando e o que pode ser feito para melhorá-los.

As coisas mudaram muito nos últimos setenta anos: a média de disponibilidade de alimentos por pessoa cresceu em 40%, apesar de a população mundial ter triplicado.  Esta é uma conquista extraordinária e muitos economistas a citariam como prova da eficácia do “mercado” ao induzir a uma resposta adequada da oferta frente ao crescimento da demanda mundial.

No entanto, ao examinar os sistemas alimentares com um pouco mais de cuidado, verificamos que existem grandes falhas. Sua maior falha é que, apesar de contar com abundantes fornecedores de alimentos, a saúde de metade da população mundial é afetada por um consumo muito baixo ou excessivo dos mesmos. A fome que ocorreu há três anos na Somália matou 260.000 pessoas, uma lembrança terrível de que o mercado mundial de alimentos funciona bem para os quem têm dinheiro, mas não responde às necessidades dos pobres.

Cerca de 840 milhões de pessoas enfrentam diariamente a fome. A saúde de outros 2 bilhões de pessoas está comprometida por deficiências nutricionais. Em outro extremo, há 1,5 bilhão de pessoas obesas ou com sobrepeso. Está claro que o mercado por si só não traduz automaticamente a disponibilidade de alimentos em melhor nutrição, saúde, produtividade e felicidade.

Seu fracasso mais evidente se estabelece naqueles que têm maior necessidade de alimentos e não podem - por causa de sua pobreza - traduzir essa demanda efetiva e vivem presos ao círculo vicioso da fome. Que a fome persista em um mundo de abundância de comida é realmente escandaloso.

A outra grande falha está relacionada com a falta de sustentabilidade de muitos dos sistemas alimentares. Grande parte do crescimento extraordinário da produção de alimentos levou ao aumento da pressão sobre os recursos naturais, o que ocasionou solos degradados, fontes de água poluídas, florestas destruídas, oceanos superexplorados e uma diminuição da biodiversidade, prejudicando nossa capacidade de satisfazer as necessidades alimentares das gerações futuras.

Os sistemas agrícolas intensivos - combinados com o desperdício de alimentos em escala massiva – têm se transformado também em uma grande fonte de emissão de gases de efeito estufa que contribuem para impulsionar os processos de mudanças climáticas.

Um segundo paradoxo afeta produtores e agricultores: ainda que tenham ampliado muito a disponibilidade de alimentos, as barreiras comerciais, as políticas de subsídios dos países desenvolvidos e o poder limitado de barganha que têm em relação às grandes empresas comerciais, agroindústrias e varejo levaram a uma crescente concentração da pobreza nas áreas rurais de muitos países em desenvolvimento. Hoje 70% das pessoas que passam fome no mundo vivem em áreas rurais.

Estou confiante de que podemos fazer muito melhor em ambas as frentes. Graças ao comprometimento de muitos países em assegurar o direito humano à alimentação de todos os cidadãos, hoje, existem muitos exemplos de que a fome e a desnutrição podem ser rapidamente reduzidas por meio de medidas diretas tais como os programas de alimentação escolar e as transferências de renda para as famílias mais pobres, programas que podem estimular os mercados locais para os pequenos agricultores.

O comércio justo, o movimento slow food e a certificação de alimentos e produtos florestais a partir de recursos geridos de forma sustentável, estão impulsionando o desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis, e permitindo que os consumidores tomem decisões que melhorem as condições de vida dos agricultores e pescadores e os incentive a práticas de produção sustentáveis.

Os países membros da FAO confirmaram recentemente as duas principais prioridades da Organização: trabalhar em prol da rápida erradicação da fome e da má nutrição e acelerar a mudança em direção a sistemas de produção e consumo de alimentos.

Estou convencido de que as duas coisas estão ao alcance das mãos, mas exigem mudanças e novas atitudes que envolvam a todos nós, desde o agricultor até as maiores autoridades políticas do planeta, passando por cada um de nós.

Dia mundial da alimentação: Os eco naturebas e suas alimentações saudáveis

Por Valdir Fries, produtor rural de Itambé/PR

Pouco se comenta, mas a muito que se refletir e debater neste DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO. Criado há 68 anos, quando foi instituída a ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA ALIMENTAÇÃO E AGRICULTURA – FAO, a qual aponta hoje que mais de 850 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo e mais de 2 milhões se alimentam de forma inadequada.
O TEMA proposto para 2013 é os “SISTEMAS ALIMENTARES SAUDÁVEIS” que abre a discussão da qualidade da alimentação, e em se falando em alimentação saudável, não vai faltar os ECO-NATUREBAS para proclamar a defesa do extrativismo e da produção orgânica de alimentos.

O EXTRATIVISMO puramente e simples não oferece condições para atender à demanda de alimentação existente no mundo, mas na paranoia ideológica do GRUPO DA REDE, do GREENPEACE, entre tantas outras organizações, dizem ser possível sobreviver do extrativismo, mantendo a natureza do meio ambiente preservada…Só não divulgam a previsão de qual seria o aumento nos índices de famintos ao redor do mundo, nem a quanto andaria a degradação ambiental com o puro e simples extrativismo.

Quanto à PRODUÇÃO ORGÂNICA DE ALIMENTOS, essa tem ganhado espaço junto aos que se propõe a produzir; no entanto a baixa produtividade obtida na maioria das áreas cultivadas resultam em altos custos do produto final, e o alimento orgânico acaba ficando disponíveis a uma pequena parcela da sociedade de maior poder aquisitivo. Além do mais, para se produzir alta escala de produtos, para disponibilizar alimentos orgânicos que venha a suprir a demanda mundial e atender toda população, dependeríamos aumentar a área agricultável para compensar a baixa produtividade, o que ambientalmente seria um desastre em termos do aumento do desmatamento.

Os ECO-NATUREBAS, em sua maioria, não produzem nada, mas condenam quem usa de certa tecnologia para produzir em quantidade uma gama de alimentos que atenda grande parte da população. Reconhecemos a necessidade de programas alimentares para suprir a fome no mundo, sabemos da capacidade produtiva das terras agricultáveis que já estão consolidadas com a produção de alimentos e nelas precisamos investir ao máximo para obter os mais altos índices de produtividade de alimentos das melhores qualidades possíveis que atenda a demanda de produção com o minimo de impacto ambiental.

Em nosso entender, é fácil para os ECO-NATUREBAS criticar o setor produtivo, que produz em alta escala para atender a demanda, tronando-se fácil a defesa ideologica dos que se propõe a produzir alimentos orgânicos para uma alimentação mais SAUDÁVEL.

Mas é difícil é entender os ECO-NATUREBAS que lutam pelo extrativismo e pelos orgânicos mas, que, ao final, aceitam consumir suas refeições prontas que chegam em seus gabinetes em embalagens compostas de ISOPOR que incrementam o tempero com a DIOXINA em seus SISTEMA ALIMENTAR MAIS SAUDÁVEL !!!.

 

Orgânico é sustentável? 


Por Ciro Antonio Rosolem, membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu). 

Está nos jornais: “Criticada, Dilma lança plano sustentável”. Como uma resposta a críticas que vem recebendo por não se posicionar a respeito de um suposto “retrocesso ambiental”, o governo divulga o lançamento de um programa de agroecologia e produção orgânica. São mais de 8 bilhões de reais, que serão liberados até 2015, resultado de pressões do MST, Associação Brasileira deAgroecologia, Contag e outros. Dizem que houve um “diálogo intenso” entre os movimentos sociais e o governo. Segundo o governo, o plano visa estimular a agricultura sustentável entre pequenos agricultores, assentados, quilombolas e indígenas. 
Senhores, é isso mesmo, para nossos governantes, agricultura sustentável, orgânica, familiar, agroecológica é tudo a mesma coisa. É muito grave quando o próprio governo estabelece, politicamente, diferenças técnicas que não existem. O governo já atropelou a língua portuguesa, com “presidenta”, já estabeleceu o preconceito racial em legislação, agora atropela os conceitos agronômicos. Isso vai dar errado. Mais errado ainda do que tem sido atá agora. Mais uma vez lembro do Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), que, se estivesse funcionando, poderia contemplar tudo o que é proposto agora, novamente. Só que em outro Ministério, talvez com distribuição dirigida da verba, como tem ocorrido com o “Minha Casa Minha Vida”. 
Que fique bem claro: AGRICULTURA SUSTENTÁVEL não depende de quem a faça. Depende de como é feita. Agricultura empresarial, familiar, orgânica, agroecológica, qualquer uma pode ser sustentável. Ou não, são coisas diferentes. Na verdade, até em funcão da legislação vigente, a agricultura tem sido bem menos sustentável em pequenas propriedades. É um problema econômico. A agricultura orgânica e a agroecologia, quando seguem preceitos dogmáticos, em geral não são sustentáveis, pois não devolvem ao solo tudo que retiram. As produtividades são baixas, em geral, portanto, a não ser próximo aos grandes centros, onde existe oportunidade de se colocar produtos a preços maiores, não é competitiva. Pode ser muito romântico dar dinheiro aos agricultores ineficientes, para que produzam sua comida. Mas o povo não quer só comida. 
Preocupado só com a reeleição, mais uma vez o governo comete trapalhadas distribuindo verba inadequadamente, o que pode, além de tumultuar a produção, tornar mais longo o processo de retirar o pequeno agricultor da pobreza. Que adianta produzir, agroecologicamente ou não, se não há como armazenar, transportar, conservar? Como produzir sem tecnologia, sem escala, sem assistência técnica competente e bem aparelhada? 

Sobre o CCAS
O Conselho Científico para Agricultura Sustentável- CCAS é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo-SP, com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados a sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto. 
O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.
Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos concretos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas. 
A agricultura, apesar da sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas, não condizentes com a realidade. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa sejam colocados a disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. 

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Fonte: José Graziano+Valdir Fries+Ciro

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