A agricultura e a difícil escolha entre dois caminhos, por Eduardo Lima Porto

Publicado em 21/04/2014 14:15 1648 exibições
Por Eduardo Lima Porto, consultor de mercado da CustodoAgro – Consultoria Agrícola.

Ultimamente, verifica-se uma alternância de conduta por parte de algumas Lideranças Rurais no Brasil.

Tais comportamentos revelam-se contraditórios e trazem enorme intranquilidade para os “liderados” mais lúcidos , assim como para o Mercado em geral.

É chegada a hora do Agronegócio definir o caminho para o seu Futuro, consciente de que não existe duas estradas e com a certeza de que não há um atalho através do meio.

Se buscamos um arcabouço institucional fundado no respeito à propriedade privada, o Setor Agropecuário não pode de maneira alguma buscar socorro no Governo quando o cenário dos preços se torna desfavorável.

É constante a aparição de Líderes Rurais protestando pelo estabelecimento de “Preços Mínimos” e “Prêmios para o Escoamento da Produção”. Clama-se a todo momento por subsídios governamentais para que o setor continue produzindo Alimentos, ao mesmo tempo em que se defende fervorosamente o Direito à Propriedade.

Nada mais contraditório!

Antes que alguém se confunda e me chame de Comunista, declaro publicamente que sou um Liberal Convicto em matéria econômica.

Como Liberal, defendo a tese de que o Lucro é o motor da prosperidade. Quando é fruto do trabalho honesto, trata-se de algo absolutamente Sagrado.

Por essa razão, entendo que algumas das nossas Lideranças estão acometidas de uma dicotomia existencial que é extremamente perigosa.

Aqueles que reclamam pela ajuda do Governo na menor adversidade, buscam, na verdade, socializar o prejuízo das suas atividades e na essência colocam a descoberto a sua própria incompetência.

No ano passado, uma expoente liderança questionou publicamente: “E agora o que fazemos com tanto Milho?” Na ocasião fui muito criticado quando perguntei a alguns Agricultores se o Governo havia lhes obrigado a plantar.

Quem pede ajuda para escoar o excesso de produção para não ter que amargar prejuízos, está ao mesmo tempo pavimentando o caminho para que o Governo lhes diga o que fazer, quanto plantar e por qual preço vender. Ou não é verdade?

Somos responsáveis pelas nossas decisões. 

É muito fácil pregar o Livre Mercado quando os preços estão ascendentes. Difícil é administrar situações negativas quando o cenário se inverte, mas isso é parte do jogo e temos que aprender a jogar honestamente.

Como Liberal, sinto nojo daqueles que correm para baixo da “Saia da Mamãe Estado” quando o Mercado ou o Clima não lhes é favorável.
Se não quisermos que o Governo confisque boa parte dos nossos rendimentos, a exemplo do que ocorre na Argentina, deixemos, pois, de reclamar por subsídios através de  “Preços Mínimos.”

O Preço Mínimo literalmente se equivale a um Imposto.
 
Trata-se de um Imposto medonho que visa cobrir um prejuízo setorial, cuja conta se transfere para a Coletividade. A quem discorda desse argumento, pergunto: Alguém já viu alguma liderança do Setor oferecer desconto para a Sociedade quando os preços disparam no mercado internacional?

Se não quisermos ver legitimado um Modelo Intervencionista Cubano na Agricultura, temos que deixar de requerer a proteção do Estado. Ao contrário, temos que exigir que o Estado não atrapalhe o nosso trabalho, pois é plenamente justificável afirmar que o sustento de boa parte da máquina publica vem dos Impostos arrecadados na produção.

A população urbana, em geral, desconhece completamente a realidade do setor rural.

Em parte, essa ignorância generalizada tem origem na nossa própria incompetência para difundir concretamente o que fazemos e de que forma contribuímos para o desenvolvimento do País.

Os Agricultores Profissionais e Empresariais, sejam eles pequenos, médios ou grandes, não são Pobres Coitados! Não estão obrigados a seguir na atividade por imposição legal ou divina.

Ao invés de buscar subsídios ou incentivos à produção que lesam os cofres públicos, mais correto seria lutar pela eliminação das muitas distorções que afetam seriamente o Agronegócio brasileiro. 

Queremos uma Ditadura Comunista do Estilo Bolivariano, que nos determine o que produzir, por quanto e a quem vender? Ou buscamos um Estado Democrático e de Direito, onde seja legítimo que as pessoas prosperem ou quebrem de acordo com as suas competências e capacidades individuais?

Tão certo quanto o famoso axioma da Física que determina que “dois corpos não ocupam o mesmo espaço”, não é possível transitar entre polos opostos ou ter dois pesos e duas medidas.

Independente de qual caminho que venha a ser escolhido, importante sabermos que iremos enfrentar buracos e outras dificuldades na viagem.

Deixo essa humilde reflexão contributiva.

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Fonte:
CustodoAgro

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9 comentários

  • tomaz de aquino lima pereira Ribeirão Preto - SP

    Não queremos subsídios e ou preços mínimos, quanto ao risco todos sabem que somos uma indústria sem telhado, , se o governo não nos direcionar o que plantar, fazer planejamento em todos os aspectos, como principal a balança comercial, e o D.N.A da região, que cultura se da melhor naquele micro clima assim nos conduziria para um mercado mais inteligente como é nos E.U.A, o crédito existe para determinada cultura naquela região especifica.

    Quanto ser liberal ou não, no caso do etanol, como pode um governo fomentar uma escalada de investimentos num projeto carérrimo,perene, irreversível e depois através de políticas sem nexo, ditatoriais e intervencionista entra no mercado esculhambando com tudo e levando toda classe que investiu muito, viver a calamidade em que vive no momento, sem norte e quebradeira total, um caos..isto é uma BURRICE!

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  • Marcos Roberto Fridrich Ajuricaba - RS

    A questão do seguro e extremamente importante, faço a ressalva que que não necessitamos somente de liderença forte e com idoneidade moral, como afirma muito bem o autor do artigo em um comentário, pois a Lei de Gérson, que diz que o importante é levar vantagem, tem muitos adeptos entre nós agricultores, em resumo, a estrada ainda é longa.

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  • Dante Burin Palotina - PR

    Concordo em gênero, número e grau com o pensamento exposto!! Por isso não podemos choramingar e debater por preços mínimos e sim por infraestrutura!! só precisamos que o governo faça essa obrigação... o problema está ai, o resto nós como empreendedores devemos achar a solução!!

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  • Alberto Maria Bento Dourados - MS

    Lucidez total nesse maravilhoso artigo, concordo plenamente, independente do mandatário maior pertencer a corrente politica A ou B, afinal, apesar de termos tido um excelente ministro da agricultura no governo FHC (Prátini de Moraes) no sentido de apoio ao comércio exterior e modernização do agronegócio não podemos dizer que o governo da direita foi generoso para com os produtores, foi sim a partir da agricultura se sentir órfã de financiamentos,subsídios e de apoio governamental que buscamos nos aperfeiçoar e fazer agricultura de precisão e competitiva, resumo da ópera...agimos como os antigos criadores que ao se verem desamparados pelo poder publico procuraram profissionalizar sua atividades, quanto aos pseudo lideres ruralistas continuo dizendo que em sua maioria existem porque existe a discórdia, a politicagem e o conflito, nascem da insegurança do produtor e sobrevivem de promessas que jamais serão cumpridas criando falsas expectativas de que somos defendidos veementemente pelos mesmos, são pelegos tanto quanto os de esquerda, enfim eu planto para ter lucro e não vejo pecado algum nisso, mesmo com mais riscos continuo apostando na competência e VIVA O LIVRE COMÉRCIO, VIVA A LEI DA OFERTA E DA PROCURA !

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  • Eduardo Lima Porto Porto Alegre - RS

    Agradeço muito a gentileza e a generosidade dos comentários. Me permitam tomar carona no debate sobre o Seguro Agrícola, sobre o qual coincido integralmente com as colocações do Mestre Severo. A Aprosoja com a sua capilaridade a nivel nacional e conhecimento técnico profundo da Soja e do Milho poderia tranquilamente liderar o processo de criação de um Fundo Mútuo que cobrisse não apenas os Riscos Climáticos, mas sobretudo Renda. Isso não é utopia. No Rio Grande do Sul, há décadas que a AFUBRA - Associação dos Fumicultores do Brasil se dedica a gestão de um Fundo fechado que proporciona coberturas diversas aos produtores-membros (se não me engano, Riscos Climáticos, Incendios, etc). Não tenho números precisos, mas a quantidade de pequenos produtores cobertos pela AFUBRA supera os 50.000. Se os fumicultores conseguiram implementar essa estrutura, porque os Sojicultores não conseguem? Me parece que falta uma Liderança Forte que congregue realmente os interesses do Setor e que tenha conhecimento técnico, idoneidade moral e capacidade de convencimento. A Soja e o Milho possuem ainda a vantagem dos mecanismos do Mercado de Futuros e de Opções que permite a garantia de precificação. Porque não pensar num mecanismo que possibilite a participação efetiva dos Produtores nas operações da Bolsa de Chicago? Outro aspecto pouco explorado pelas nossas Lideranças é a transformação das propriedades agrícolas em empresas rurais. Do ponto de vista creditício, as vantagens são incomparáveis. É muito diferente emprestar recursos para uma empresa que possui Demonstrações Contábeis bem organizadas do que para um Produtor que financia toda a sua operação com base no CPF ou de uma Declaração de IR. Existe um Universo para ser trabalhado nas operações de Seguro de Crédito, o que permitiria a redução significativa no custo financeiro agregado aos Insumos. O assunto é longo e merece ser abordado num Artigo...

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  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Excelente, grande discernimento!. Quanto ao SEGURO agrícola, a atividade agropecuária ou segmentos independentes podem criar seu próprio seguro. O seguro nada mais é que um fundo mútuo de todos os participantes. Todos os produtores reunidos em torno de uma associação podem criar sua própria seguradora. Os produtores fariam todos os seguros de seus bens, maquinários, automóveis e suas lavouras. O custo seria estabelecido por um índice de participação de cada produtor. Já fiz um plano de negócios para uma central de cooperativas, com repasse e cobertura com seguradora internacional, se necessário. Envolve seguro climático e inclusive, seguro de performance em vendas direta de produtores para o mercado internacional. Na soja não despertou grande interesse porque são raras e suportáveis as quebras de lavouras por clima adverso. Na mesma ocasião medimos que os fenômenos La Niña e El Niño, não oferecem grandes impactos de quebras na agricultura brasileira. Nossa agricultura alcançou um grande desenvolvimento, mesmo aleatoriamente para um mercado que nem conhecíamos seu potencial de consumo, agora precisamos nos preparar com melhores condições elaboradas, isto é, precisamos de atitude e união de todos em busca de soluções próprias, independente de governo. Pensem nisto Aprosoja !.

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  • Lucas Mendes Santa Bárbara do Sul - RS

    Excelente artigo! Jamais imaginei que leria um artigo deste teor na imprensa voltada ao agronegócio. Eu vejo na classe de produtores rurais o grande baluarte na defesa dos caros princípios do liberalismo (propriedade privada, livre mercado e estado mínimo), porém o cacoente estatista é tão grande que ainda acredita-se na força e benemerência do governo. Nada mais falso e perigoso. Eu acho que umas boas aulas de análise econômica liberal seria suficiente para alinhar o discurso dos produtores para o lado certo: mais livre mercado, menos imposto e menos regulação estatal.

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Também acho que o mercado tem de ser soberano e ditar as ordens,aí,cada um estuda suas vantagens comparativas e toma suas decisões,tenho somente uma ressalva,a atividade agropecuária não é ciência exata e depende muito de fatores extra planejamento como clima,por exemplo,então as nossas lideranças(se é que as temos) deveria lutar por uma política de seguros segura, inclusiva e acessível a toda cadeia,com este instrumento então,sobraria como diferencial a competência de cada um.Saudações mineiras,uai!

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  • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

    As ações do governo federal e sua furiosa dedicação em cooptar uma base parlamentar cada vez maior, tem como principal interesse criar mecanismos de controle sobre todas as áreas da sociedade. Temos a lei anti-truste, o marco civil da internet, a proposta do novo còdigo comercial Brasileiro, os dois últimos em tramitação no Congresso Nacional. São tantas as propostas de novas leis, e leis aprovadas, que acaba ficando impossivel acompanhar a todas. Alèm disso, temos ainda a censura a jornalistas, em que o governo usa de chantagem, utilizando-se de verbas publicitàrias. E também o plano nacional de educação que irà aprofundar a doutrinação marxista no ensino. Tudo isso se passa bem debaixo das barbas de nossa chamada bancada ruralista, da bancada oposicionista. E como isso acontece? Na forma de troca. O governo fornece verbas, financiamentos, onde será sempre uma auto proclamada elite quem irà executar os projetos. No caso dos produtores rurais podemos citar os estímulos à produção de álcool de cana de açúcar e milho. Os empresários trocam votos por garantias. Garantias que seus oligopólios não serão ameaçados e de que serão socorridos em caso de dificuldades econômicas, mesmo que para isso tenham que aceitar a tutela do governo de plantão. Qual produtor não se espanta com o absurdo da proibição da comercialização de álcool combustível diretamente entre produtor e consumidor? Pode-se objetar que hoje o governo està deixando falir, e è verdade, mas esperavam o quê? Depois de anos e anos fortalecendo o poder centralizador do estado, dando a este cada vez mais poder? Nossos lideres pensam ainda que nos fazem um favor, quando na verdade falta-lhes capacidade para entender e gerir seus negócios por conta própria e, principalmente, a covardia os impede de aceitar concorrência.

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