Estoques em alta pressionam as cotações no mercado futuro de café, por Celso Vegro

Publicado em 22/04/2019 15:09
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As médias das cotações semanais de café arábica na Bolsa de Nova York exibiram, ao longo do mês de março de 2019, persistente declínio (Figura 1). Na posição de julho de 2019, a média de preços da primeira semana do mês foi de US$¢101,09/lbp, encerrando o mês na quarta semana com contratos sendo negociados a US$¢96,99/lbp, ou seja, -4,05% de queda. A relativa estabilidade na paridade cambial ao longo do mês impediu que houvesse maiores quedas nas cotações do produto.

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Houve aumento de 23,7% nos estoques mundiais para o ano safra 2018/19, conforme contabilizados pelo USDA em seu relatório de dezembro de 20182, totalizando 37,05 milhões de sacas do produto. Tal elevação atua como âncora no processo de formação dos preços em Nova York, promovendo a queda constatada em março e que se arrasta desde meados de 2017. 

No principal cinturão cafeeiro paulista, a região de Franca, os cafeicultores receberam em média, pelo café tipo 6 bebida dura, R$385,26/sc.3, montante que exibe 
queda de -3,62% frente ao mês anterior. Assumindo a cotação média da quarta semana 
do mês na posição de julho de 2019 de US$¢96,99/lbp, representa aproximadamente US$102,63/sc. para a cotação do arábica natural brasileiro (diferencial de 20%). Assumindo a cotação futura do dólar para maio/2019 de R$3,73/US$4, obtêm-se R$384,86/sc., ou seja, valor sem margem frente ao mercado spot suficiente para legitimar a contração do hedge.

Na Bolsa de Londres, o mercado futuro de café robusta seguiu mesma trajetória observada para o caso do arábica, com seguidas baixa nas médias semanais das posições futuras (Figura 2). A recuperação dos embarques brasileiros de café conilon (529.892 sacas exportadas no primeiro trimestre de 2019, representando avanço de 352% frente a igual mês do ano anterior)5 e o recorde de produção e exportação vietnamita, pressionam o mercado mundial que vivencia momento de expansão dos estoques.

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Usualmente, os torrefadores internacionais aproveitam-se do ciclo de baixa nas cotações para incrementar a participação do arábica em suas ligas de T&M. Tal estratégia repercute em maior pressão sobre as cotações do robusta. Sem reversão do atual ciclo, não se pode esperar recuperação nos atuais preços no médio prazo.

O balanço das posições líquidas dos contratos em Nova York reflete todo o contexto mencionado (Tabela 1). Entre fundos e grandes investidores, existiam mais de 75 mil contratos em posição vendida frente aos comprados, indicando que o sentimento do mercado é de novas baixas para o produto ao menos no curto prazo.

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As expectativas para a safra brasileira 2019/20 indicam montantes entre 56 e 58 milhões de sacas, com forte recuperação da safra de conilon sem, contudo, reverter o ciclo de baixa na produção. Esse montante, mesmo considerando aumento de produção em países concorrentes (particularmente no Vietnã e em Honduras), poderá ser insuficiente para fazer frete ao aumento de demanda do consumo mundial estimado em mais de 3 milhões de sacas ao ano. A depender dos reflexos dos baixos preços praticados sobre a tecnologia adotada pelos cafeicultores, o ano de 2020 poderá trazer grande redução na oferta mundial do produto, posicionando a cafeicultura brasileira como a que mais se aproveitará de uma eventual alavancagem nas cotações.

* Celso Luís Rodrigues Vegro

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1O autor agradece pelo trabalho de sistematização do banco de dados econômicos conduzido pelo agente de apoio à pesquisa científica e tecnológica do IEA o analista de sistemas Paulo Sérgio Caldeira Franco.

2UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Foreign Agricultural Service. Coffee: world market and trade. Washington: USDA, dez. 2018. Disponível em: https://apps.fas.usda.gov/psdonline/circulars/coffee.
pdf
. Acesso em: abr. 2019.

3Disponível em INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Preços médios diários recebidos pelos produtores. São Paulo: IEA, 2019. Disponível em: http://ciagri.iea.sp.gov.br/precosdiarios/precosdiariosrecebidos.aspx?
cod_sis=6. Acesso em: abr. 2019. Acesso exclusivo para assinantes do serviço.

4ECONOMIC FORECAST AGENCY. Brasil: previsões do dólar e do euro. S. l.: EFA, 2019. Disponível em: http://usdforecast.com/br/previs%C3%A3o-do-d%C3%B3lar.html. Acesso em: abr. 2019.

5CONSELHO DE EXPORTADORES DE CAFÉ DO BRASIL. Relatório mensal: março 2019. São Paulo: CECAFE, 2019. Disponível em: http://cecafe.com.br. Acesso em: 11 abr. 2019.

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Por: Celso Luís Rodrigues Vegro
Fonte: IEA

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