Artigo: Efeito das restrições de mobilidade sobre vendas e preços no segmento produtor do etanol no estado de São Paulo

Publicado em 19/10/2020 10:32

Mirian Rumenos Piedade Bacchi 
Professora da Esalq/USP e pesquisadora do Cepea 

 

As vendas de etanol hidratado combustível no estado de São Paulo tiveram forte queda de 35% na parcial da atual safra 2020/21 (de abril a setembro de 2020) frente ao mesmo período do ano anterior. A taxa geométrica de crescimento das vendas desse biocombustível, que era de 3,54% a.a., quando estimada com dados do período de 2003 a 2019 (média dos meses de abril a setembro), cai para 3,06% a.a. ao se incluir na estimativa os dados de 2020.

Em relação às vendas de etanol anidro combustível, também no estado de São Paulo, a taxa geométrica de crescimento estimada caiu de 4,57% a.a., considerando-se o período de 2003 a 2019, para 4,09% a.a., quando estimada com série de 2003 a 2020 (média de abril a setembro, em ambos os casos). Em termos de volume médio comercializado de abril a setembro de 2020, tem-se redução de mais de 45% relativamente ao mesmo período de 2019.

Após o início da pandemia da covid-19, as vendas de etanol hidratado combustível caíram até julho, havendo um rápido crescimento nos meses seguintes. Ao se comparar as vendas de setembro com as de julho, observa-se significativo aumento de 37%. No entanto, essa reversão do movimento de queda não foi suficiente para que a média de abril a setembro se sustentasse; ela voltou ao nível da observada em 2017. A retomada do crescimento das vendas de etanol anidro desde o início da flexibilização das restrições de mobilidade impostas pela pandemia foi também elevada, da ordem de 28%.

Nessa conjuntura de menor demanda, o preço real médio do etanol hidratado no estado de São Paulo (deflacionado pelo IGPM) caiu aproximadamente 13% na parcial desta safra (de abril a setembro) em relação ao período equivalente do ano anterior, sendo o menor da década, tomando-se na estimativa os seis primeiros meses do ano-safra. Essa significativa queda de preços ocorreu apesar da: i) alteração do mix de produção de etanol e açúcar, privilegiando este último (dada a sua maior rentabilidade comparativa) ii) aumento das exportações, e iii) crescimento das vendas de etanol destinado à fabricação de gel com finalidade sanitária, embora o volume, neste caso, não tenha sido tão expressivo.

Chama-se a atenção aqui para o fato de a mencionada queda do preço do hidratado não ter ocorrido por influência de qualquer perda de competitividade do produto frente à gasolina no estado, pois a relação de preços desses dois combustíveis se apresentou favorável ao etanol em todos os meses do presente ano-safra. De fato, a demanda de combustíveis utilizada na frota de veículos e comerciais leves caiu de forma geral, tanto no caso de etanol hidratado quanto no da gasolina, o que é corroborado pela menor venda de etanol anidro, parte do combustível fóssil vendido nos postos.

 

A queda das vendas no mercado de etanol hidratado resultou em volume armazenado desse biocombustível não usual para esse período do ano, comparativamente ao anterior. Sim, pode-se afirmar que a demanda caiu de forma mais que proporcional à oferta, apesar de a produção ter sido menor no ano-safra 2020/21, relativamente ao anterior, fato atenuado pelo maior estoque de passagem da temporada 2019/20 para a atual, relativamente a anos precedentes. Além do mais, o clima seco tem favorecido o corte e a moagem de cana, motivando até mesmo a antecipação do final da moagem em algumas usinas. Isso sem dúvida se reflete em aumento dos estoques de hidratado contabilizados nesse momento.

Os estoques têm um componente negativo relacionado aos custos financeiros (custos de oportunidade) decorrentes da manutenção do combustível no tanque, no caso do etanol, podendo afetar o preço na medida em que há necessidade de liberar espaço para armazenagem de produto novo. Isso ocorreu em alguns momentos do presente ano-safra, especialmente no início da moagem da cana. De outro lado, os estoques podem sinalizar que as unidades produtoras têm uma visão mercadológica madura, procurando, quando possível, postergar a venda por necessidades financeiras, restringir a oferta excessiva no período de safra, visando, assim, evitar redução ainda mais acentuada de preço. 

A queda na produção de anidro, em termos percentuais, foi maior relativamente à observada para o hidratado, e o estoque do anidro, no final e setembro de 2020, é semelhante ao existente no mesmo mês em 2019. Apesar disso, a queda da média do preço real do anidro de abril a setembro de 2020, relativamente ao mesmo período de 2019, foi praticamente a mesma observada no caso do etanol hidratado.

Ainda em relação ao estoque de anidro, tem-se observado uma apreensão dos agentes do setor se haverá produto suficiente para atender à demanda da entressafra. Um fator que deve ser considerado quando se trata do assunto é a possível conversibilidade do etanol hidratado em anidro, se houver necessidade e se as condições de mercado forem favoráveis. A diminuição na porcentagem de adição do etanol anidro à gasolina A parece não ser uma proposta plausível, não tendo havido redução no percentual desde que ele passou a ser de 27%, mostrando grande maturidade e agilidade dos agentes do mercado de combustível em garantir o produto para a entressafra. Além do mais, considera-se que, se for interessante financeiramente exportar etanol anidro no período de safra e importar o produto na entressafra, isso está dentro das regras de mercado, uma vez que a busca de maximizar lucro é o que deve nortear as ações das definidas nas empresas. As necessidades financeiras dos agentes envolvidos no negócio do etanol, maiores no período de safra, também podem ter influência nas decisões de exportação dos agentes envolvidos. 

De outro lado, tem-se que grande parte das necessidades de anidro para a entressafra está garantida por força da legislação vigente, que exige a realização prévia de contratos para o abastecimento em todos os meses do ano-safra. Embora essa legislação tenha, neste ano-safra, sido flexibilizada, visando a uma adequação às condições atípicas de mercado, elas trazem segurança para o consumidor em termos de abastecimento. Outro fato que deve ser mencionado é o crescimento da produção de etanol de milho, a qual ocorre também durante a entressafra da cana de açúcar.

No presente ano-safra, a alocação da cana entre açúcar e etanol privilegiou o primeiro produto. O mix, definido no início do ano-safra e até mesmo na vigência dele, pode ser redefinido, dependendo dos preços relativos desses produtos. No entanto, vale mencionar que a produção de açúcar no presente ano-safra já está se dando de forma a utilizar praticamente toda a capacidade instalada, não se esperando mudanças significativas em favor do alimento na alocação da cana no próximo anos safra. É claro que o mix, em percentuais, é estabelecido com base na produção potencial da gramínea, considerando também a capacidade produtiva de etanol e açúcar existente nas usinas, havendo ainda grande incerteza sobre o mix de produção do próximo ano-safra, uma vez que não se sabe ainda o grau em que a produção de cana será afetada pela seca registrada no período de plantio e crescimento da cana que será colhida.

Apesar do que está acontecendo em alguns países da Europa em relação à imposição de medidas mais restritivas de mobilidade, devido à retomada da transmissão da covid-19, não se espera que no Brasil ocorra algo semelhante. Com o retorno das atividades econômicas, as vendas de combustível devem continuar crescendo. A recuperação dos preços vai depender da forma como os estoques existentes serão escoados para atender ao mercado interno e da continuidade das exportações de hidratado. O preço desse biocombustível tem ainda um espaço para crescer antes que se estabeleça a paridade com o preço da gasolina.

Ainda tratando de preço de etanol, aponta-se que, em alguns casos, não está cobrindo custos de produção, o que representa um fator preocupante não só para o segmento produtor, mas para a sociedade como um todo. Setores que têm preços em níveis que não oferecem qualquer rentabilidade deixam de investir em tecnologias que levem a ganhos em produtividade, os quais são imprescindíveis para que os consumidores se beneficiem no médio e longos prazos. 

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Por:
Mirian Rumenos Piedade Bacchi
Fonte:
Cepea

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