A escassez dos insumos agrícolas, por Eduardo Lima Porto

Publicado em 14/10/2021 15:28 606 exibições

Quero compartilhar uma visão sobre a crise instalada no fornecimento de determinados defensivos agrícolas, falarei do Glifosato e de outras moléculas importantes para o cultivo da soja, sabendo que as mesmas também são amplamente utilizadas em outras culturas.

Os grandes grupos agrícolas não devem estar enfrentando, pelo menos não na mesma intensidade, o problema vivido por produtores de pequeno e médio porte. Não estou fazendo uma análise de cunho ideológico ou apologias do gênero, tão somente uma constatação.

O fato é que alguns dos maiores fornecedores de defensivos estão cancelando pedidos fechados há meses com produtores, cooperativas e revendas, comunicando o impedimento de diferentes formas e alguns até usando as recentes restrições energéticas aplicadas na China como "Bode Expiatório", a fim de criarem um suposto ambiente de "Força Maior" que os permita justificar os descumprimentos contratuais.

O problema do Glifosato se instalou no primeiro semestre do ano passado, ou seja, há mais de 1 ano. Quem está efetivamente nesse mercado e acompanha com regularidade tais questões, tem conhecimento sobre a evolução dos preços e das dificuldades de embarque.

Entretanto, algumas empresas brasileiras não levaram isso em conta, seja por incompetência ou ganância comercial, seja por algum tipo de crença na retomada da normalidade antes de que o problema se agravasse. Com isso, continuaram a vender os seus pacotes de insumos incluindo o Glifosato.

Vi o caso de uma grande industria de defensivos genéricos, que mesmo oferecendo o Glifosato a preços defasados, fecharam um volume significativo dentro de um pacote que incluiu outros insumos de maior valor agregado, os quais agora também não conseguem entregar.

Há anos que o Glifosato é considerado um "Boi de Piranha" no jargão do mercado de insumos. 

É nítido que a maior parte dos fornecedores esperaram até os últimos momentos para comunicar o problema. Estão sendo literalmente irresponsáveis na medida em que impediram que os Agricultores pudessem buscar alternativas de abastecimento diante do quadro de escassez instalada, o qual era conhecido por eles de antemão e com muita antecedência.

Para se trazer um produto para utilização em setembro, no início do plantio da soja, são necessários de 4 a 6 meses de movimentação logística, desde a colocação do pedido para programação da produção numa fábrica chinesa, o tempo de viagem (50 dias), a nacionalização e a distribuição para os diferentes pontos de utilização no interior do Brasil.

Houve tempo mais do que suficiente para que os produtores fossem adequadamente informados. Fui o primeiro a alertar sobre este assunto com meses de antecedência e fui taxado de diferentes adjetivos, inclusive de "Terrorista".

Agora abundam análises das mais diversas vindas de uma infinidade de comentaristas de notícias prontas, falando sobre um quadro mais do que consolidado, alguns dos quais culpam as medidas recentes tomadas pelo Governo Chinês, demonstrando uma total desconexão da realidade e pondo às claras um rotundo desconhecimento sobre como funciona o mercado.

Já está mais do que consolidada a falta de DIQUAT para a dessecação da soja no final do ciclo. Importante salientar que o DIQUAT teve um aumento significativo de demanda a partir do banimento do PARAQUAT no ano passado, cujo anúncio era igualmente mais do que conhecido, mas não motivou, pelo que se verifica, a tomada de medidas contingenciais para se minimizar os efeitos do problema.

Pelo que estive verificando, os poucos fabricantes chineses de DIQUAT não tiveram tempo de ampliar a capacidade de suas industrias para atender a essa elevação abrupta na demanda. O resultado será mais do que óbvio, preços altos e riscos concretos de desabastecimento.

A safrinha de milho está igualmente sob enorme risco por conta da falta de vários defensivos, incertezas quanto a quantidade/qualidade das sementes que serão entregues e, fundamentalmente, em função da disparada nos preços dos fertilizantes nitrogenados (uréia e sulfato de amônio). Em linhas gerais, as boas variedades de milho dependem de altas doses de nitrogênio para que o seu potencial produtivo se expresse adequadamente.

Chamo a atenção que pedidos contratados no primeiro semestre e que estão deixando de serem atendidos  constituem um WASHOUT da parte dos fornecedores, configurando, inclusive, a possibilidade de que os Produtores busquem reparações por perdas e danos.

Se é lícito que as Tradings cobrem dos Produtores o cumprimento dos contratos, seja em situações de quebra de produção ou em elevações abruptas nos preços de mercado, o mesmo precisa valer na relação com os fornecedores de insumos por uma questão de equilíbrio e  de justiça.

Temos que melhorar muito a transparência no setor de insumos.

No Mato Grosso, mesmo produtores que pagaram antecipado ou que assinaram pedidos para pagamento à vista não estão sendo atendidos satisfatoriamente. O plantio iniciou em diversas áreas e muita gente ainda está sem o Glifosato. 

Qual poderá ser a perspectiva dos Agricultores do RS que dependem essencialmente do financiamento concedido pela industria aos canais revendedores?

Finalizo meu comentário, recomendando que os Produtores guardem sempre uma amostra lacrada do insumo adquirido, pois são nos momentos de escassez de oferta e de dólar caro que muitos fornecedores, inclusive grandes multinacionais, se veem estimulados a entregar produtos com concentrações abaixo do que consta nos registros. 

Eles sabem muito bem que o Produtor não faz o controle de qualidade dos insumos, que considera os testes muito caros. A probabilidade de que alguém denuncie uma fraude é considerada muito remota.

É aí que a Crise oferece uma oportunidade para se obter um lucro adicional nas costas do Produtor.

Por hoje, era o que me cabia comentar.

Eduardo Lima Porto

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1 comentário

  • elcio sakai vianópolis - GO

    Imaginem a quantidade de produtos falsificados que vai ter no mercado, muitas vezes sendo vendido por revendas gananciosas.

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