Soja em alta: movimento estrutural ou apenas ajuste pontual do mercado? Por Andrea Cordeiro
Fluxo chinês e petróleo sustentam o movimento recente
Nos dois pregões subsequentes à ação dos Estados Unidos na Venezuela, a soja encontrou um respiro, destoando da pressão observada no complexo de grãos como um todo. Na minha leitura, esse movimento não foi aleatório. Ele ocorreu em um ambiente de maior sensibilidade geopolítica, no qual o mercado passou a reagir menos ao fundamento isolado e mais à combinação entre fluxo, risco e timing.
O primeiro vetor é o fluxo chinês, que representa um fundamento objetivo de demanda. Do ponto de vista estratégico, a China tende a antecipar movimentos de compra quando identifica riscos de ruído político à frente e, sobretudo, quando se aproxima a divulgação do relatório mensal de oferta e demanda do USDA, tradicionalmente relevante por trazer ajustes após a finalização dos trabalhos de campo e reorganizar expectativas.
Nesse contexto, a necessidade de a China adquirir entre 2,0 e 2,5 milhões de toneladas adicionais de soja dos Estados Unidos para concluir o programa estimado em 12 milhões de toneladas tem gerado compras pontuais no mercado americano. Na minha avaliação, esse movimento vai além do preço. Ele permite ao país estrategicamente cumprir o acordo firmado “com louvor” garantindo volumes compatíveis com sua segurança alimentar, evitando qualquer descompasso entre contratos, logística e o calendário de embarques até a entrada do fluxo mais intenso da safra da América do Sul.
Nestes dois dias o mercado processou a compra de pelo menos 10 cargas como fato consumado, majoritariamente originadas no Golfo e parte no PNW.
Essa leitura inicial inicialmente sustentou o movimento recente de hoje, mas entrou em choque com a divulgação do USDA que anunciou a venda de apenas 336 mil toneladas de soja. Na minha leitura, esse descompasso entre percepção e dado oficial expôs um excesso de expectativa e esfriou o entusiasmo, deixando claro que o fluxo chinês existe, mas está sendo conduzido de forma cirúrgica, estratégica e sem qualquer pressa em acelerar.
Nesse contexto, o relatório do USDA previsto para quinta feira se torna o fiel da balança, separando ruído de fundamento consistente.
O segundo vetor de sustentação recente é o petróleo, cuja alta ontem e parte do pregão de hoje decorre diretamente do aumento do risco geopolítico, especialmente das tensões envolvendo Estados Unidos e Venezuela. Esse ambiente elevou o sentimento de insegurança nos mercados e reacendeu o risco de uma escalada de tensões entre países, o que se traduz em prêmio de risco adicional para a energia. A alta do petróleo reforça a percepção de instabilidade e influencia o complexo de energia e biocombustíveis, ajudando a limitar movimentos mais agressivos de baixa em Chicago.
Na minha leitura, é essa combinação que explica após o movimento de baixa observado na semana anterior, a sustentação recente da soja sem caracterizar, até aqui, uma mudança estrutural de tendência. O fluxo chinês atua como fundamento tático de demanda, enquanto o petróleo funciona como suporte macro via risco e sentimento.
No Brasil, o mercado físico segue defensivo. Os prêmios da soja apresentaram leve reação, mas sem força suficiente para sustentar os preços em reais. Na comparação mensal, os preços internos recuaram cerca dependendo da praça pelo menos R$ 3 por saca, refletindo a fragilidade do momento. A base segue limitada na capacidade de compensar Chicago, especialmente com a proximidade da colheita brasileira, que amplia a oferta física em um ambiente de cautela.
No caso da Argentina, minha percepção se apoia em consultas recentes feitas a agentes locais, incluindo consultores, famílias produtoras e instituições que acompanham o desenvolvimento das lavouras no dia a dia, além de análises, estatísticas e monitoramentos que o Grupo Labhoro acompanha de forma recorrente. De modo geral, tanto a soja quanto o milho apresentam boas condições até o momento. Há necessidade de mais chuvas, especialmente em áreas das províncias de Buenos Aires, Santa Fé e Córdoba. Mesmo com registros localizados de estresse hídrico já visíveis em algumas lavouras, a avaliação predominante, a partir das informações de campo que acompanho, é de que o cenário geral ainda é positivo, sem definição antecipada de perdas, desde que as chuvas previstas se confirmem.
Na China, as margens dos esmagadores melhoraram na soja brasileira, sustentadas por custos de originação mais favoráveis. Ainda assim, o complexo proteico segue pressionado, com estoques elevados de soja e de farelo nos portos. A demanda a jusante permanece fraca, reforçando minha leitura de que a atuação chinesa segue oportunística, calibrada e sensível ao ambiente de risco global.
Na minha leitura técnica, a soja em Chicago passou por uma correção baixista importante, o que considerando os mesmos fundamentos atuais e antes do próximo relatório mensal do USDA reduziria no curtíssimo prazo a janela para novas, novas quedas mais agressivas. Novamente aqui destacando: no curtíssimo prazo!
Nesse contexto, os números do próximo dia 12 e a evolução das chuvas na Argentina previstas para entrarem a partir do dia 10, seguem como pontos centrais de atenção. E como tenho dito em minhas redes sociais a elevação recente do tom da China em relação aos Estados Unidos em questões macroeconômicas e geopolíticas também adiciona sensibilidade ao mercado e pode influenciar decisões de fluxo, timing e apetite ao risco. A guerra comercial pode ser revisitada.
Para efeitos práticos a soja encontrou sustentação, mas ainda não definiu tendência pré colheita. O fluxo chinês cumpre um papel tático ligado à segurança alimentar, enquanto o petróleo adiciona prêmio de risco em um ambiente geopolítico mais instável. Clima na América do Sul, números oficiais do USDA e o tom das relações entre China e Estados Unidos seguem em aberto e continuam sendo determinantes. Este não é um mercado para convicções apressadas, mas para gestão de risco, leitura de calendário e decisões bem calibradas, separando movimento tático de mudança estrutural.
Radar de observação do mercado
- Continuidade ou não do fluxo de compras chinesas após o cumprimento do programa estimado
- Desdobramentos geopolíticos envolvendo Estados Unidos e Venezuela e seus impactos sobre o petróleo
- Elevação do tom da China frente aos EUA e reflexos sobre comércio e fluxo. Seria provável um retrocesso nas tratativas da guerra comercial entre as potencias dando fim ao acordo previamente estabelecido?
- Relatório do USDA em 08 de janeiro sobre demanda
- Relatório do USDA em 12 de janeiro e eventuais ajustes em estoques e demanda
- Ritmo da colheita brasileira e efeitos sobre base e prêmios
- Evolução do complexo proteico na China como termômetro real de demanda
- Clima na Argentina como variável adicional de risco regional
0 comentário
Soja em alta: movimento estrutural ou apenas ajuste pontual do mercado? Por Andrea Cordeiro
Estrutura ecológica da agregação no sistema plantio direto, por Afonso Peche
2025: o ano em que o agro precisou decidir melhor, por Andrea Cordeiro
A poluição dos solos agrícolas, por Afonso Peche
A importância da biodiversidade funcional, por Afonso Peche
O agro que dialoga, educa e conecta: a força das mulheres na transformação do setor, por Geni Schenkel