Quando o sol estaciona, por Dr. Evaristo de Miranda

Publicado em 19/06/2026 13:44

O sol nasce para todos e sempre a Leste. Ab Oriente lux. Nunca no mesmo local onde nasceu no dia anterior. Dada a inclinação do eixo terrestre, o sol não nasce, nem se põe, exatamente no mesmo local. Está em aparente deslocamento. Manifestações desse fenômeno astronômico são facilmente observáveis em casa, nas escolas e no trabalho.

Durante o outono, o sol se dirige ao Norte. No dia 21 de junho, o Sol atinge sua máxima declinação setentrional. Daí a origem da palavra solstício: o astro parece estacionar antes de iniciar seu retorno aparente em direção ao Sul.

A marcação do sol, como fazem os agricultores, pode ser realizada em casa, da janela, varanda ou sacada do apartamento. Marque onde o sol surge ou desaparece no horizonte nestes dias. Compare essa referência, com a posição do nascer ou pôr do sol em dezembro, no solstício de verão, lá no Natal. A distância será grande. Quanto mais ao Sul, maior. Imperceptível no dia a dia.

No solstício, começa o inverno. O 21 de junho é o dia mais curto e a noite mais longa do ano no Hemisfério Sul. Existem monumentos astronômicos, com milhares de anos, para marcar solstícios, como o desconhecido Observatório Astronômico de Calçoene no Amapá, com mais de 2.000 anos.

Próximo ao solstício de inverno, os raios solares penetram profundamente no interior das casas, pelas janelas voltadas à face Norte. Observam-se as sombras mais longas de todo o ano, bem direcionadas ao Sul. Ao meio-dia, no Sul e Sudeste, o sol sobe pouco na abóboda celeste. Poderia ser chamado “o dia das sombras longas”. Esse fenômeno astronômico é observável no quintal de casa, nas escolas e calçadas. A cada dia, na mesma hora, essa sombra diminuirá de tamanho.

Essas observações nas escolas são um material pedagógico concreto e excepcional para uso no ensino de ciências, geografia, ecologia, matemática e história. Quem usa? Quais professores sabem disso? Entre cerca de 80 países participantes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Brasil anda lá pela sexagésima posição. Não melhora.

No solstício de inverno, o sol está a pino a 23 graus e 27 minutos de latitude Norte. Lá, ao meio-dia, os raios solares incidem perpendiculares ao solo. Postes, casas e pessoas na posição vertical, não “apresentam” sombra, sobre sua base. Nesse dia, a projeção do caminho do sol no chão “traça” o paralelo conhecido como Trópico de Câncer. Em 21 de junho, o sol passa a pino sobre  Taiwan, China, Índia, Emirados Árabes, Egito, Líbia, Argélia, Mauritânia, Bahamas, Sul dos EUA, México e Havaí.

Na Grécia antiga, a beleza dos céus estava na precisão matemática dos ciclos celestes. Da beleza do cosmos, deriva a palavra cosmética. Embora o inverno apenas se inicie, a partir do solstício a duração dos dias volta a crescer.

O solstício de inverno está associado ao fim do ano agrícola e às colheitas, ao desfrute dos resultados do suado e árduo trabalho no campo, aos festejos juninos. Apesar das diferenças territoriais no Brasil, até junho encerram-se as colheitas de soja, milho, arroz, feijão, laranja, algodão, tubérculos, frutas e outras. É tempo de aferir, conferir, vender e armazenar: 370 milhões de toneladas de grãos. Há muito tempo, o agro e a agroindústria brasileira já alimentam mais de um bilhão de pessoas.

Os festejos de São João coincidem com o tempo do solstício do inverno. Na origem, as festas juninas são uma celebração católica, estival, ibérica, rural e tradicional desde o século IV. O Catolicismo, herdeiro da tradição judaica, sempre celebrou eventos cósmicos (solstícios e equinócios) associados ao calendário litúrgico. A evangelização ressignificou práticas locais. As festas juninas são uma das mais expressivas manifestações culturais brasileiras.

Nas festas juninas, a agrocultura alcança o mundo urbano. A tradição rural invade a cidade e nela planta arraiais e quermesses. O arraial junino nas cidades, espaço profano e sagrado, é como uma aldeia rural temporária, ao lado de igrejas, escolas e espaços públicos. Ele é organizado com bandeirinhas, portais de bambu, flores do cipó de S. João, mastro dos santos, barracas de comidas e bebidas típicas, jogos, danças e músicas. Crianças urbanas e adultos se vestem de “caipira” com chapéus de palha e botas.

A base da culinária junina são plantas nativas: milho, amendoim, batata doce e mandioca. Degusta-se milho verde, assado e cozido, pipoca, pamonha, curau, mungunzá, canjica, cuscuz, bolo de fubá, batata-doce, cozida ou assada nas fogueiras, doce de batata-doce, amendoim, pé-de-moleque e paçoca. No Sul e Sudeste, estão presentes pinhão, vinho quente, chocolate e quentão. O mundo rural vive intensamente esse tempo de alegria. As festas juninas movimentam cerca de 8 bilhões de reais e 26 milhões de pessoas.

As fogueiras iluminam as trevas, esquentam amores e corações. Aquecem noites frias. Em muitas comunidades rurais, homens e mulheres caminham descalços sobre as brasas (2Sm 22,13). Soltam-se fogos para acordar S. João.

No solstício, o céu, a terra e os homens explicam-se mutuamente. O fogo é símbolo de purificação e iluminação. Solstício, vitória progressiva da luz, festas e fogueiras juninas convidam todos, campo e cidade, a se prepararem ao plantio primaveril, serem fecundos, crescerem e darem frutos, como no chamado do início da Criação (Gn 1,28). Tempo de iluminação, tão necessária ao entrevado Brasil. Ab Oriente lux? Ab Occidente progressus!

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Clique Aqui para receber em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Fonte:
Dr. Evaristo de Miranda

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

0 comentário