Royal Rural: O USDA segue o Pro Farmer? O histórico de 21 anos mostra que não

Publicado em 18/08/2026 17:26

Por Ronaldo Fernandes

Quando termina o Pro Farmer Crop Tour, é natural o mercado usar o resultado como referência para tentar antecipar o que o USDA poderá fazer no relatório de setembro. Só que, olhando os números de 2005 até 2025, fica muito claro que o USDA não acompanha automaticamente aquilo que a Pro Farmer projeta em agosto.

No milho, esse comportamento é muito forte.

Em 18 dos 21 anos analisados, o USDA chegou em setembro com uma produção maior do que a estimada pela Pro Farmer. Isso aconteceu em 85,7% dos anos. Somente em 2008, 2010 e 2021 a produção do USDA de setembro ficou abaixo da Pro Farmer.

E não estamos falando apenas de pequenas diferenças. Em média, nesses 21 anos, a produção da Pro Farmer ficou 5,39 MMT abaixo da produção apresentada pelo USDA em setembro.

Na produtividade aconteceu praticamente a mesma coisa. Em 18 dos 21 anos, o USDA de setembro trabalhou com produtividade maior que a Pro Farmer. Na média histórica, o USDA ficou aproximadamente 2,37 bushels por acre acima.

O exemplo mais recente mostra bem o tamanho que essa diferença pode atingir. Em 2025, a Pro Farmer projetou milho em 182,7 bu/acre e 411,598 MMT. Poucas semanas depois, o USDA de setembro trouxe 186,7 bu/acre e 427,092 MMT. Foram 4 bushels por acre e 15,49 MMT a mais que a projeção da Pro Farmer.

Outros anos também tiveram diferenças grandes. Em 2005, o USDA ficou aproximadamente 12,12 MMT acima. Em 2019, 11,20 MMT. Em 2013, 9,73 MMT. Em 2016, 9,27 MMT. Ou seja, historicamente não é raro o Crop Tour terminar agosto mostrando uma safra significativamente menor e o USDA continuar trabalhando com números bem superiores em setembro.

Na soja, esse padrão também existe, mas é bem menos forte.

Dos 21 anos analisados, em 14 anos o USDA de setembro apresentou produção maior que a Pro Farmer. Isso representa 66,7% dos casos. Em apenas sete anos a produção da Pro Farmer terminou acima do USDA de setembro: 2007, 2010, 2013, 2020, 2021, 2022 e 2024.

Mas aqui existe uma diferença importante em relação ao milho. Na soja, a distância média é muito menor. Ao longo dos 21 anos, o USDA de setembro ficou, em média, apenas cerca de 0,50 MMT acima da Pro Farmer em produção.

Na produtividade, a diferença média também foi pequena, aproximadamente 0,26 bushel por acre a favor do USDA. E aqui o comportamento foi mais equilibrado: o USDA teve produtividade maior em 12 anos, a Pro Farmer ficou maior em 8 anos e, em 2011, os dois trabalharam com os mesmos 41,8 bu/acre.

Isso mostra outra coisa importante: produção e produtividade não são necessariamente a mesma comparação. A produção final depende também da área colhida utilizada em cada projeção. Em 2018, por exemplo, a Pro Farmer projetou 53,0 bu/acre, acima dos 52,8 bu/acre do USDA, mas mesmo assim sua produção ficou ligeiramente menor, 127,45 MMT contra 127,723 MMT. A diferença veio da área utilizada na conta.

Então o que esse histórico realmente nos ensina?

Primeiro, que o Pro Farmer é uma referência importante de campo, mas não funciona como antecipação automática do USDA. As duas instituições trabalham com metodologias diferentes. A Pro Farmer utiliza as medições do Crop Tour e seus próprios ajustes para chegar a uma estimativa nacional. O USDA utiliza levantamentos próprios, área colhida, pesquisas com produtores, amostragens e metodologia estatística própria.

Por isso, dizer que o USDA simplesmente “segue” o Pro Farmer seria errado. Na verdade, principalmente no milho, o histórico mostra praticamente o contrário: mesmo quando a Pro Farmer termina agosto indicando uma safra menor, o USDA frequentemente mantém uma visão mais otimista em setembro.

No milho, o padrão é muito claro: 18 de 21 anos com USDA setembro acima da Pro Farmer em produção.

Na soja, o padrão existe, mas é mais fraco: 14 de 21 anos com USDA setembro acima da Pro Farmer em produção.

Isso é extremamente importante para interpretar o Crop Tour de 2026. Se a Pro Farmer vier no dia 21 com uma produtividade e uma produção significativamente abaixo do USDA de agosto, isso pode gerar reação em Chicago e colocar o tamanho da safra em discussão. Mas o histórico mostra que não devemos automaticamente esperar que o USDA faça o mesmo corte em setembro.

No milho, principalmente, os últimos 21 anos mostram uma característica muito consistente: a Pro Farmer normalmente termina abaixo, e o USDA frequentemente mantém uma produção maior no relatório seguinte. Em 85,7% dos anos analisados foi exatamente isso que aconteceu.

Portanto, o Crop Tour pode levantar a dúvida sobre o tamanho da safra. Quem terá que confirmar ou rejeitar essa leitura depois é o USDA. E historicamente, especialmente no milho, o USDA não costuma simplesmente reproduzir aquilo que a Pro Farmer encontrou no campo.
 

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Fonte:
Royal Rural

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