Etanol de cereais, chegou nossa vez, por Glauber Silveira

Publicado em 23/09/2013 17:41 e atualizado em 25/09/2013 10:01
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Glauber Silveira é produtor rural e presidente da Aprosoja Brasil.

O Brasil vem mostrando sua eficiência na produção de milho. Há dez anos produzíamos 42 milhões de toneladas, nesta última safra 2012/13 segundo a Conab, foram 81,34 milhões de toneladas, um crescimento de 10% ao ano, para um consumo interno de 54 milhões. Temos milho sobrando no Brasil e com isto, fica o desafio de exportar pelo menos 20 milhões de toneladas de milho. Agora, não seria o caso de agregarmos valor a este milho excedente como fazem os EUA, transformando milho em etanol e carne.

O Etanol de milho passa a ser uma realidade para o Brasil, mas há 20 anos nem se pensaria nesta possibilidade, afinal éramos importadores de milho. Agora, com este excedente que cresce a cada ano, e com a péssima logística exportadora que temos no Brasil, seria extremamente inteligente transformarmos ao menos parte deste excedente em etanol e DDGS (produto altamente proteico utilizado em ração animal).

O processo de produção de etanol de milho transforma mil quilos de milho em 220 kg de DDGs (concentrado proteico), 380 a 400 litros de etanol e 18 litros de óleo degomado, produtos estes que dão um faturamento superior a 700 reais a toneladas, contra os 200 reais faturados com a venda do milho in natura. É inquestionável o fator agregador ao se industrializar o milho, realidade que faz os EUA produzir etanol de mais de 120 milhões de toneladas de milho.

Um dos pontos importantes da produção de etanol de cereais, milho, sorgo etc, é que no processo industrial se produz também uma das proteínas altamente competitivas para a produção de carne, o DDGS (concentrado proteico). Sendo assim, as regiões onde se tem o milho mais barato do Brasil e com a logística mais cara, passam a ser grandes centros de produção de álcool e carne.

Uma única planta de etanol de milho com a capacidade de processar um milhão de toneladas do cereal tem o fator agregador de substituir a importação de 290 milhões de litros de gasolina, 5.800 viagens interestaduais de caminhões e pouparia o consumo de 7 milhões de litros de diesel. Além de gerar 150 empregos diretos e 180 milhões de reais em tributos, segundo dados da Céleres.

Só o Mato Grosso produziu em torno de 21,9 milhões de toneladas de milho em 2013, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (IMEA). Em termos de exportação, em 2012, Mato Grosso exportou 10 milhões de toneladas e em 2013 deve superar as 12 milhões de toneladas. Sendo assim, há um grande desafio pela frente, já que a região Centro-Oeste tem um grande potencial na produção de milho.

E neste contexto, uma das grandes oportunidades tem sido transformar usinas de cana em flex, ou seja, usinas que possam produzir etanol de diversos cereais além da cana. Esta possibilidade de ser flex, além de baratear o processo industrial torna o etanol brasileiro mais competitivo. Só na região Centro-Oeste, temos 84 usinas de Cana de açúcar, se cada uma delas se tornasse flex, com um investimento baixo para a produção de etanol de cerais, e consumissem, inicialmente, 100 mil toneladas de milho, já haveria um consumo adicional de oito milhões de toneladas de milho.

Claro que, os grandes desafios são: o consumo do etanol e a exportação de carnes. Mas é preciso empreendedorismo por parte da cadeia. Precisamos nos articular junto ao governo para que também sejam criados incentivos ao incremento do consumo do etanol nestas regiões centrais. É preciso que o Brasil realmente tenha um programa de longo prazo de biocombustíveis. E por outro lado, precisamos criar toda uma infraestrutura para aumentar nossa competitividade na exportação de carnes.

O DDGS nos EUA causou uma extrema revolução no setor de carnes. Precisamos medir este impacto também no Brasil, medir o quanto o DDGs irá deixar nossas carnes mais competitivas pelo menor custo de produção. Ou seja, qual o impacto no preço final das carnes, leite e ovos que podem favorecer não só o consumo interno, mas a exportação para mercados emergentes como o asiático.

O etanol de cereais e o DDGS devem impactar também em outras cadeias como a florestal. Isso porque, será necessário o uso de eucalipto para produção de energia, surgindo daí uma grande oportunidade para o cultivo na região Centro-Oeste, que tem grande aptidão. A cadeia logística também terá impacto positivo, uma vez que se reduz a pressão dos volumes de milho in natura para exportação, viabilizando a exportação de produtos agregados de menor impacto.

Segundo estudo publicado pela ESALQ/USP, em 2030 o consumo interno de etanol no Brasil deve atingir os 52,5 bilhões de litros. Se considerarmos que 10% disso fossem fornecidos por etanol de milho, seria necessário em torno de 13 milhões de toneladas de milho. Recentemente, outro estudo publicado por uma ONG projetou que em 2050 o Brasil deverá ter uma frota de carros flex com uma proporção de 80% etanol e 20% de gasolina. Se adicionarmos nesses cenários o crescimento no consumo de carnes na China de 80 quilos ao ano per capita para 140 quilos, fica claro que uma grande oportunidade se apresenta ao Brasil. Agora resta saber se vamos ou não aproveitá-la.

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Fonte: Aprosoja Brasil

2 comentários

  • João Guilherme Barbedo Marques Rio de Janeiro - RJ

    Este artigo, bem feito e procedente, mostra bem o atraso dos nossos políticos máximos e de largos setores do agronegócio que os aplaudiam e acompanhavam.
    Não vem de muito longe a demonstração, estúpida, feita pelo Presidente da República de que o uso da cana não provocava fome, ao passo que o uso do milho para a produção de álcool a determinava. Como não podia deixar de ser os três pilares da "sabedoria" (Chaves, Fidel, Lula).
    Quantos produtores agrícolas defendiam essa tese, na defesa da "sua" cana.
    Agora há que reconhecer que os três pilares são loucos e que os Estados Unidos estavam certos.

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  • Saulo Roberto neves Guanambi - BA

    o pt não vai deixar, eles odeiam o sucesso do agricultor moderno.

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