Por que o capitalismo liberal é o melhor modelo (e como explicar isso para seu filho), por João Luiz Mauad

Publicado em 01/06/2015 14:42 3667 exibições
Para o Instituto Liberal, no blog de Rodrigo Constantino, de Veja

Frase de Adam Smith

Recebi ontem a seguinte mensagem do leitor Alex, preocupado com as más influências sobre sua filha, atualmente cursando a faculdade:

“Eu tenho uma filha de 20 anos, ela esta fazendo química na UFESP, tenho procurado mostrar a ela os valores das ideias liberais, mas sinto que tenho perdido essa batalha, acho que ela tem sido bombardeada por ideias socialistas e acho que tem sido ou da faculdade ou de alguns de seus amigos. Não sei como neutralizar essa influência, ou garantir que ela consiga raciocinar com equilíbrio e sensatez. Vocês poderiam me ajudar?”

Em primeiro lugar, eu diria que esse “bombardeio” é normal, não só na faculdade, mas também nos bancos escolares, desde a mais tenra idade.  Infelizmente, o ensino brasileiro está eivado de proselitismo ideológico.  O importante é que a família nunca perca o diálogo com esses jovens, e tente mostrar, sempre que possível, o outro lado da história. Por mais que às vezes seja difícil, isso deve ser feito sem confronto, de forma calma e paulatina.  Não adianta achar que com apenas uma conversa você irá conseguir reverter anos de doutrinação. É preciso paciência e perseverança.

Durante a juventude somos quase todos grandes idealistas e achamos que o mundo pode ser mudado (e moldado) de acordo com a vontade dos bem intencionados.  Este é o grande apelo das teorias revolucionárias com adolescentes e jovens em geral.  Eles costumam acreditar com unhas e dentes em velhos clichês socialistas, como “um outro mundo é possível” ou “de cada um conforme as suas capacidades, para cada um conforme as suas necessidades”.

Tendo isso em vista, é importante tentar demonstrar que, se utopias baseadas no altruísmo nunca deram certo, é porque vão de encontro à natureza humana, calcada muito mais no interesse próprio do que no altruísmo, uma virtude que, embora desejável em qualquer sociedade, jamais pode ser imposta de cima para baixo.

Por outro lado, a grande beleza do capitalismo está no fato de que os indivíduos só são recompensados quando satisfazem as demandas dos outros, ainda que isso seja feito exclusivamente visando aos próprios interesses. Minha renda, portanto, está diretamente ligada à satisfação do meu semelhante. O capitalismo não pretende extinguir o egoísmo inerente à condição humana, mas nos obriga a pensar nas demandas do próximo, se quisermos ser bem sucedidos.

Para explicar esse poder misterioso que leva os homens, cada qual trabalhando exclusivamente em busca do próprio ganho, a promover o interesse de muitos, Adam Smith cunhou a famosa metáfora da “mão invisível”. Segundo ele, se cada consumidor puder escolher livremente o que comprar e cada produtor escolher o que e como produzir, esse “jogo de interesses” será capaz de maximizar a produção e distribuição de bens e serviços, em benefício de todos.

Outro argumento importantíssimo, que deve ser sempre levantado, é a História do ser humano através dos tempos, e como essa verdadeira odisseia foi radicalmente alterada com o advento do capitalismo.

Por milhares de anos, quase todo ser humano viveu em estado de absoluta pobreza. Durante a maior parte da existência humana, a vida foi assustadoramente carente e precária. Faltava tudo, desde o pão, até a saúde. A palavra conforto não fazia parte do vocabulário de 99,9% dos homens. A expectativa de vida, nos primórdios do Império Romano era de menos de 30 anos, e permaneceu assim até o final do século XVIII.

A renda média, durante milênios, foi menor que US$ 900 por ano, a valores atuais. As pessoas mais ricas e poderosas do mundo viam suas crianças morrerem antes da idade adulta, não raro vítimas de infecções simples. Eles mesmos nem sempre podiam desfrutar de água fresca e limpa, ou de qualquer um dos milhares de produtos e serviços aos quais até os brasileiros mais pobres têm acesso hoje dia.

Como escrevi alhures, o lugar mais avançado do mundo no século XVIII era Londres. No entanto, o cotidiano da capital inglesa naquela época era terrível, principalmente quando comparado aos padrões atuais, a começar pelo meio ambiente. Segundo Liza Picard, as ruas de Londres eram nojentas. Por onde se andasse, havia uma mistura abundante e licorosa de esterco animal, gatos e cachorros mortos, cinzas, palha e excrementos humanos.

O fornecimento de água era contaminado com chumbo, matéria orgânica apodrecida e lixo variado. Imagine o grau de desconforto num lugar onde velas e sabonetes eram dois dos itens mais caros do orçamento familiar, a ponto de os chamados “fins de velas” serem produto altamente cobiçado no mercado negro.

A vida profissional começava bem cedo, e a limpeza de chaminés era um dos trabalhos para os quais as crianças eram escaladas com maior freqüência, até mesmo quando a chaminé encontrava-se  em chamas.

Muitos evitavam qualquer tipo de tratamento médico, pois o estado da medicina era tal que a tentativa de cura era muitas vezes pior que a própria doença. Não seria exagero, portanto, dizer que até para a realeza a vida era “pobre, sórdida, brutal e curta”, para usar a famosa expressão do filósofo Thomas Hobbes.

A partir de meados do século XVIII, porém, teve início uma revolução extraordinária na história da humanidade. No curto espaço de 250 anos, a população mundial aumentou mais de sete vezes e, apesar desse enorme crescimento demográfico, a renda real per capita cresceu 16 vezes. No mesmo período, a expectativa de vida mais que dobrou.

O que explica essa verdadeira revolução? Sem dúvida, o nascimento e evolução do que posteriormente se convencionou chamar de “capitalismo”. Sim, a principal mudança econômica e social dos últimos 250 anos de História foi a introdução e o desenvolvimento das chamadas instituições capitalistas, particularmente a propriedade privada, os mercados livres e o império da lei.

Sim, foi graças ao capitalismo liberal – um sistema que nasceu e evoluiu espontaneamente, e não foi parido da mente fértil de algum iluminado – que a imensa maioria dos nossos contemporâneos goza hoje de um padrão de vida bem acima do que, há apenas poucas gerações, era impossível até aos mais abastados.

Se eu fosse o Alex, convidaria sua filha a pensar nas maravilhas tecnológicas criadas pelo engenho humano no último par de séculos. Pensar nos automóveis, locomotivas, navios e aviões que facilitaram os deslocamentos humanos, bem como de suas mercadorias. Pensar nos eletroeletrônicos que facilitam e entretêm bilhões de pessoas mundo afora: geladeiras, televisores, máquinas de lavar, microondas, condicionadores de ar, computadores, telefones celulares. Pensar nos equipamentos médico-hospitalares, que ajudam a tornar a medicina muito mais eficiente e prática, como tomógrafos, centrífugas, aparelhos de ultra-sonografia, de ressonância magnética, microscópios eletrônicos, micro-chips, marca-passos. Pensar na indústria farmacêutica, nos avanços e nas descobertas frequentes que ela faz. Pensar, por exemplo, que, há apenas vinte e poucos anos, a maior parte dos doentes com úlcera gástrica terminava numa mesa de operações e que hoje essa é uma doença facilmente tratável com medicamentos. Pensar na agricultura e nos avanços de produtividade dessa área, que permitem alimentar um contingente humano que cresceu de forma geométrica nos últimos duzentos e poucos anos, contradizendo as previsões catastróficas de Malthus e muitos de seus seguidores.

Pois bem, esses avanços, e toda a fantástica geração de riquezas conseguida pelo homem, foram obtidos graças à divisão e especialização do trabalho e, acima de tudo, às instituições capitalistas. Sem isso, talvez 99% da população ainda precisasse trabalhar de sol a sol, morando sem qualquer conforto, sujeitos a condições extremas de insalubridade e impedidos de qualquer outra atividade na vida que não trabalhar, comer e dormir.

Sem a recompensa pessoal, seja ela fruto da remuneração do trabalho ou do capital (lucro) não há incentivo para que os indivíduos produzam, invistam, pesquisem, desenvolvam novas tecnologias, criem novos produtos. Analise a relação de ganhadores do Prêmio Nobel (inclusive os de química). Onde está (ou esteve) domiciliada a imensa maioria deles? Sem dúvida, em países onde há liberdade econômica e, consequentemente, a busca pela recompensa pessoal. Será que isso acontece por mero acaso?

Por outro lado, não se tem notícia de qualquer bem de consumo criado no seio das economias coletivistas (ditas altruístas) que tenha trazido algum benefício permanente para a humanidade. Com exceção das máquinas de guerra, das armas de destruição em massa, nada de relevante eles produziram. Para piorar as coisas, esses mesmos experimentos de planificação econômica, passados e atuais, em que os tiranos a tudo controlam, o processo de marcado é quase inexistente e o lucro individual proibido, redundaram sempre na escassez, no desabastecimento e na distribuição equitativa da pobreza.

O socialismo pode ser muito bonito no papel, mas na prática mostrou-se um grande desastre.  Talvez a maior prova disso seja o fato de que jamais se viu um só indivíduo tentando fugir de Miami para viver no paraíso cubano.  No entanto, milhares arriscaram suas vidas nos últimos 60 anos tentando fazer o caminho contrário, fugindo da igualdade forçada, em busca de liberdade e de um padrão de vida melhor, ainda que arriscado.  Novamente: será que isso aconteceu por acaso?

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Fonte:
Instituto Liberal

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2 comentários

  • Jose Marcondes Alves Santana Goiânia - GO

    DE COMO NÃO DOUTRINAR SEU FILHO POR MEDO DE OUTRA DOUTRINAÇÃO

    José Marcondes Alves de Santana

    Um sistema que sabe produzir, mas não sabe distribuir, é tão funcional quanto a metade de uma roda". (Ladislau Dowbor).

    O texto explicita uma série de contrações. Talvez a maior delas seja o fato de ter a pretensão de ser um receituário contra a doutrinação, mas tenta doutrinar. Se a preocupação é "libertar", eu diria para qualquer um: estude, busque autonomia de pensamento, leia os clássicos, busque coerência entre as teorias e o movimento concreto dos povos, não acredite em pretensos pensamentos universalistas, tivemos muitos problemas e violências devido a imposição de ideias universalistas e etnocêntricas. Ou seja, em diálogo com nossos filhos, ou com qualquer um, devemos presar pela honestidade.

    Mas vamos em partes. "Bombardeio desde a mais tenra idade". Visite uma sala de professores, leia os livros infantis, veja os programas infantis na TV, acompanhe as tarefas escolares que os (as) professores (as) passam. Tente encontrar esse bombardeio. Engraçado, tenho um filho na primeira fase do Ensino Fundamental, minha preocupação é exatamente diferente. Como a escola tem perfil cristã (difícil encontrar escolas laicas), o ensino religioso acaba sendo monocultural, divulga a mitologia, a narrativa judaico-cristã como verdade. O que faço? Nego o que a escola diz? Não. Disponibilizo livros, filmes e histórias de outros povos e culturas, outras mitologias (aqui utilizo o termo mitologia como narrativa). Com o tempo saberá que diferentes culturas e povos têm diferentes narrativas, divindades e religiões, evitando que caia na armadilha do universalismo e do etnocentrismo, que muitas vezes se expressam de forma violenta em nossa sociedade.

    O que diria a um filho que pensa em outro mundo possível? Parabéns, filho por acreditar! Outro mundo é realmente possível, as condições materiais que alcançamos, graças ao trabalho coletivo, realmente podem ser dirigidas para a construção de outro mundo, de um mundo melhor. Não há sentido viver, estudar e trabalhar se não acreditamos em um mundo melhor.

    Ainda relacionada a isso, o pessoal do Instituto Liberal está forçando para controlar o que o professor ensina e pronuncia em sala de aula. Ora, se os professores fossem ouvidos como eles acham que são, nós não teríamos indicadores educacionais tão ruins. Todos os estudantes estariam lendo muito, comporiam algum grupo de estudo, usariam a internet de forma mais eficaz. Eles tentam aprovar uma tal de Lei Escola Sem Partido. Há pontos positivos, mas na essência é um absurdo. Veja: digamos que eu discuta em uma aula o Estado segundo os contratualistas liberais, depois segundo os marxistas; então um aluno incomodado, doutrinado pelos que militam contra a "doutrinação", registra apenas a segunda parte. Vai ser a palavra de um contra o outro. Se ele filmou só a última parte, então.... Nas teorias demográficas, malthusianos: libertários; reformistas marxistas: doutrinadores. E por aí vai. Porque para tais, doutrina é apenas quando o professor é de esquerda. Poderia citar uma miríade de exemplos.

    A análise desses pretensos "libertários" (palavra que assustava quando provinha dos grupos anarquistas, tentam expropriar os trabalhadores até mesmo de seu pensamento) é tão rasa e simplistas, que não compreendem por que trabalhadores se engajam em movimentos de trabalhadores. Por que os professores parecem ser de esquerda? Será por que são trabalhadores, em muitos casos precarizados? Por que muitos alunos os apoiam? Será por que as escolas públicas atendem filhos de trabalhadores que se identificam com a luta dos trabalhadores? O maior peso na formação política dos professores não é a faculdade ou o trajeto na escola básica. É a práxis. É quando se tornam trabalhadores, quando encaram a contradição capital/trabalho. Mesmo assim em uma escola o estudante tem aula com professores de todos os perfis: de ateus a quase fundamentalistas, de ultraconservadores a anarquistas; a sala dos professores é diversa tanto quanto a sala de aula.

    "Minha renda está diretamente a satisfação do meu semelhante. " Ótimo! Os escravos deveriam colher uma cana sem açúcar. O milho plantado pelo boia fria, ou o camponês deve ter menos propriedades que o do latifundiário. Os índios não sabiam usar a terra, não agradava a ninguém, por isso foram roubados. O trabalho do gari não satisfaz a ninguém, por isso ganham mal. O professor não satisfaz, justificativa para a má remuneração. Os políticos fazem um ótimo trabalho, por isso satisfaz, daí seus salários excelentes. O trabalhador na linha de montagem, produz mercadorias que não satisfaz, consequentemente sua renda é ruim etc.

    A explicação é parcial. Não "liberta" ninguém. Muito menos nossos filhos.

    Com certeza nosso filho, jovem curioso vai querer saber como se constituiu o capitalismo. Como foi a evolução das técnicas, as primeiras invenções, que não estavam o contexto do capitalismo. Como jovem incomodado com as injustiças sociais, não vai aceitar que depois de tamanha conquista humana e técnico-científica, milhões de pessoas padeçam de fome, que muitos países tenham a expectativa de vida do período feudal. Não, ele não vai aceitar essas explicações quase míticas. Não, ele não vai aceitar esse darwinismo social. Ele não vai aceitar a naturalização selvagem das relações humanas.

    De onde foi saqueada a riqueza para o desenvolvimento do centro do capitalismo? Colonização, imperialismo, guerras, destruição de nações, escravizações etc. Essa história tem que ser contada. A "mão" não é "invisível".

    Quer saber o quanto a "mão é invisível". Responda o que é o Estado no capitalismo. Quem patrocinou as expedições marítimas. Responda quem salva bancos ou empresas privadas na hora do aperto. Identifique quem muda a legislação trabalhista para aumentar a renda do capital. Aconselho a leitura do livro O peso do Estado na pátria do mercado: os Estados Unidos como país sem desenvolvimento. Estamos em tendência de mudança, mas durante o século XX, o avanço científico se deu pelo investimento e patrocínio do Estado. O discurso do livre mercado, pelo menos para os EUA, esconde suas próprias políticas desenvolvimentistas.

    A Londres citada, foi a mesma que levou o jovem Engels, filho de industrial alemão, a abraçar a causa operária. Não foi a "mão invisível" que instituiu os cercamentos, obrigando os camponeses ao êxodo rural.

    Outro ponto que não é abordado com a honestidade merecida para quem dialoga com o filho, a migração. Obviamente o movimento migratório é de Cuba para os Estados Unidos e não o contrário. Bem como de toda a América Latina, haja vista o muro e as mortes na fronteira dos EUA com o México (mais de 200 mortes por ano). As desigualdades do sistema capitalista motivam migrações.

    Não podemos usar o conforto promovido pelo desenvolvimento industrial como instrumento de alienação. Não podemos naturalizar banalmente a história. Possivelmente os que são chamados de "doutrinadores", "altruístas", "esquerdistas" e tantos outros rótulos pejorativos dos tempos das discussões pendulares estão apenas querendo a construção da outra parte da roda.

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  • Gibran Thives Araújo Candói - PR

    Está tão bem escrito que dispensa comentários. É uma pena que não sirva a "pensadores" de esquerda, pois estes dificilmente se rendem aos fatos aqui elucidados..., são idealistas, não pensam..

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