Estrutura ecológica da agregação no sistema plantio direto, por Afonso Peche
No sistema plantio direto (SPD), a agregação do solo não deve ser vista apenas como um atributo físico medido por peneiras e índices de estabilidade. Ela é, sobretudo, uma expressão de organização ecológica: um arranjo construído por raízes, microrganismos, fauna do solo, matéria orgânica e minerais, operando dentro de um regime hídrico e mecânico determinado pelo manejo. Chamar isso de estrutura ecológica da agregação significa reconhecer que os agregados (micro e macroagregados) são “unidades funcionais” de habitat e de fluxo, onde água, ar, carbono e nutrientes se movem e onde a vida do solo encontra condições para sustentar a produtividade com resiliência.
O SPD tem uma vantagem estrutural decisiva: ao reduzir a mobilização do solo, diminui o rompimento físico de macroagregados e preserva a continuidade de poros biológicos. Entretanto, essa vantagem só se traduz em estrutura estável quando o sistema mantém o “motor ecológico” da agregação funcionando, isto é, quando há cobertura permanente, aporte contínuo de carbono e raízes ativas por mais meses do ano. Em termos práticos, o SPD não “gera agregação” automaticamente; ele cria um ambiente onde a agregação pode ser construída e mantida, desde que as engrenagens biológicas e organominerais sejam alimentadas.
A estrutura ecológica da agregação pode ser entendida em três camadas conectadas. A primeira é a microestrutura (microagregados), sustentada por ligações mais persistentes: complexos organominerais, óxidos de ferro e alumínio (muito relevantes em solos tropicais), argilas reativas e carbono associado a minerais. Essa camada confere “memória estrutural” ao solo e protege parte do carbono contra decomposição rápida. A segunda é a macroestrutura (macroagregados), mais dependente de ligantes transitórios e temporários, como raízes vivas, hifas de fungos, resíduos recentes e polímeros microbianos (biofilmes e exopolissacarídeos). A terceira é a rede de poros (macro e microporos conectados), que determina infiltração, aeração, armazenamento de água e avanço radicular. No SPD bem conduzido, essas três camadas se reforçam: a palhada protege a superfície, a infiltração melhora, o solo permanece mais úmido e biologicamente ativo, raízes aprofundam, fungos e fauna prosperam e a estabilidade em água aumenta.
O papel das raízes é central nessa engenharia ecológica. Coberturas e rotações diversificadas produzem arquiteturas radiculares diferentes, criando bioporos, redistribuindo carbono em profundidade e liberando exsudatos que alimentam microrganismos e favorecem “colas” biológicas. Fungos, especialmente micorrízicos, contribuem como uma rede de costura: hifas conectam partículas e microagregados, promovendo macroagregação estável. Bactérias complementam com biofilmes e polímeros aderentes que elevam a resistência à desagregação em água. Já a fauna do solo (minhocas, térmitas, formigas e mesofauna) atua como construtora de arquitetura: bioturba, cria galerias e gera coprólitos altamente estáveis, integrando matéria orgânica e minerais em microambientes protegidos. Assim, a agregação no SPD é resultado de um “consórcio” de engenheiros biológicos, sustentado por energia (carbono) e por condições químicas habilitadoras.
É aqui que surgem os principais riscos do SPD mal manejado. Se o sistema reduz mobilização, mas mantém baixa diversidade, janelas longas de solo descoberto, tráfego descontrolado e compactação, a estrutura ecológica enfraquece: a rede de poros perde conectividade, raízes deixam de explorar camadas profundas, a vida do solo diminui e a superfície fica suscetível a selamento. Além disso, sem aporte regular de resíduos e sem cobertura viva em períodos críticos, os ligantes transitórios não se renovam e a macroagregação perde estabilidade, mesmo sem revolvimento. Em outras palavras, existe “SPD de papel”: sem cobertura contínua e sem rotação funcional, ele não consolida estrutura; apenas evita o dano imediato do preparo.
Do ponto de vista de diagnóstico, a estrutura ecológica da agregação no SPD aparece em sinais integrados: agregados arredondados e firmes que não “viram pó” ao molhar, ausência de crosta, infiltração rápida, presença de bioporos e coprólitos, raízes profundas e ramificadas, palhada persistente e baixa variação térmica na superfície. Do ponto de vista de diretrizes, a construção dessa estrutura exige: cobertura permanente (palhada + cobertura viva), rotação e consórcios com raízes complementares, controle de tráfego e operações em umidade adequada, correções químicas que permitam raiz profunda e biologia ativa, e manejo de paisagem para reduzir energia da enxurrada. Assim, o SPD deixa de ser apenas um método de semeadura e se torna um sistema de construção ecológica da estrutura onde a agregação é um indicador de que o solo voltou a funcionar como infraestrutura viva e resiliente.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.
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