Escassez de mão de obra, alta rotatividade e mudança no perfil dos trabalhadores pressionam produtores rurais a repensar estratégias de gestão

Publicado em 29/01/2026 06:30 e atualizado em 29/01/2026 07:05
Gestão de pessoas é um dos principais desafios no agronegócio brasileiro

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A dificuldade na gestão de pessoas tem se consolidado como um dos principais desafios no agronegócio brasileiro, especialmente diante da escassez de mão de obra e das mudanças no perfil dos trabalhadores rurais. Para a consultora em gestão no agronegócio e diretora da Jera Agro Inteligência, Vanessa Chiamulera, o setor vive hoje a chamada “era da gestão”, na qual os avanços tecnológicos superaram, em ritmo, a evolução das práticas de gestão dentro das propriedades.

Segundo a especialista, muitos produtores rurais ainda enfrentam dificuldades estruturais para lidar com equipes, cenário agravado pela alta rotatividade de funcionários.

“O mundo está mais globalizado, com novas perspectivas e oportunidades. Isso faz com que as pessoas mudem mais de emprego e não permaneçam tanto tempo na mesma função”, explica a consultora.

Chiamulera descreve a evolução da gestão agrícola em quatro grandes fases. A primeira foi marcada pelo controle informal, feito na cabeça do produtor ou em cadernos. Na sequência, vieram as planilhas de Excel, geralmente voltadas para questões administrativas e tributárias. A terceira fase foi caracterizada pela adoção de softwares de gestão, os chamados ERPs (Enterprise Resource Planning). Já o momento atual, segundo ela, está focado em temas como sucessão familiar, sustentabilidade e gestão de pessoas.

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Uma das estratégias apontadas pela consultora para enfrentar o desafio da retenção de trabalhadores é a adoção de planos de carreira, mesmo em propriedades de menor porte.

“Eles são totalmente aplicáveis no agronegócio, por meio de premiações diferenciadas, benefícios e reconhecimento”, afirma a especialista.

Outra alternativa é o uso de modelos como o job rotation, que permite ao colaborador atuar em diferentes funções ao longo do tempo. “Os jovens não querem fazer a mesma coisa por muitos anos. Eles querem aprender, circular e se desenvolver”, completa.

Benefícios não evitam escassez de mão de obra

A dificuldade na contratação de mão de obra é sentida na prática por produtores rurais. Em Holambra, no interior de São Paulo, a produtora de violetas Marisa Gog relata que, mesmo oferecendo moradia, tem enfrentado obstáculos para encontrar famílias dispostas a trabalhar.

“Em nossa cidade é muito difícil encontrar pessoas para trabalhar. A gente acaba buscando em cidades vizinhas e até oferece transporte. A dificuldade não é tanto o salário, mas a própria estrutura do trabalho em estufas e o contato com a terra”, explica a floricultora.

Segundo Marisa, o desinteresse é ainda maior entre os mais jovens, que evitam atividades consideradas mais pesadas ou repetitivas. O desafio se estende também à formação de lideranças.

“Temos líderes, mas até nisso enfrentamos dificuldades. Eles querem ganhar mais por ocupar um cargo de liderança, mas quando precisam lidar com conflitos ou problemas com colegas de trabalho, muitos não conseguem”, relata a produtora. Em alguns casos, funcionários acabam deixando a produção e migrando para funções administrativas no escritório.

Pejotização e os custos da contratação

Diante desse cenário, Vanessa Chiamulera destaca a importância de ir além do salário na estratégia de retenção. Benefícios como custeio de estudos, cursos de capacitação ou até intercâmbios podem ser mais atrativos, especialmente para os jovens.

“As empresas precisam oferecer uma ‘prateleira de benefícios’, e não um pacote fechado, permitindo que o colaborador escolha aquilo que faz mais sentido para o seu momento de vida. O investimento em conhecimento tem um peso muito grande”, avalia Chiamulera.

A consultora também abordou a discussão sobre a pejotização no meio rural. De acordo com ela, há um movimento crescente de contratação via pessoa jurídica, principalmente para cargos mais altos, motivado pela elevada carga tributária da CLT. No entanto, ela alerta que mudanças recentes na tributação podem tornar esse modelo menos vantajoso em alguns casos, exigindo análise criteriosa por parte dos produtores.

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Relações de trabalho vão além da porteira

Marisa Gog reforça que a relação com os funcionários vai além do ambiente de trabalho, especialmente quando a propriedade oferece moradia. “Mesmo sem querer, a gente acaba entrando nos problemas familiares dessas pessoas”, conta. Ela relata que muitos colaboradores experientes já deixaram a propriedade para trabalhar em outros estados, mas acabaram retornando.

“São funcionários muito bons, trabalham vários anos aqui, fazem cursos específicos, como de pulverização e irrigação, que exigem confiança. Eles saem, dizem que vão embora para a Bahia, por exemplo, e depois voltam. E a gente aceita, porque já não existe mais essa mão de obra qualificada disponível”, conclui Gog.

O cenário evidencia que, mais do que tecnologia e produtividade, o futuro do agronegócio passa, cada vez mais, pela capacidade de atrair, desenvolver e reter pessoas no campo.

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Por:
Patricia Domingos | E-mail: [email protected]
Fonte:
Notícias Agrícolas

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