Executivos do agronegócio brasileiro se preparam para volatilidade em 2026

Publicado em 11/03/2026 14:26
Por Eduardo Passarelli, Head de Corporate Sales da Bloomberg nos Estados Unidos e na América Latina

O setor de agronegócio brasileiro entrará em 2026 diante de um cenário desafiador. Câmbio volátil, custos financeiros elevados e riscos climáticos recorrentes aumentaram a margem de erro das decisões de produção. Essas e outras tendências no contexto global e local foram debatidas recentemente por líderes do segmento em São Paulo, durante o evento Bloomberg Farm, Food & Fuel.

Mais de 100 executivos do setor discutiram as escolhas estratégicas enfrentadas diariamente, do planejamento das safras à colheita e às decisões financeiras. Nesse ambiente, as estratégias utilizadas no passado já não são suficientes para capturar a complexidade do segmento.

O consenso foi de que dados independentes, métricas padronizadas e análises prospectivas passaram a desempenhar um papel central na gestão de riscos, na alocação de capital e no planejamento operacional ao longo de toda a cadeia de valor do setor. Soma-se a isso a volatilidade climática, que amplia a dispersão dos resultados produtivos, além das oscilações dos preços globais. Esses fatores são agravados por custos elevados e tarifas.

Pressões de mercado e a nova demanda por precisão

A trajetória do câmbio ilustra bem esse desafio. O real segue pressionado por incertezas fiscais e pelo ciclo eleitoral já incorporado às projeções de mercado, o que se traduz em margens mais apertadas e maior demanda por proteção contra movimentos abruptos. Durante um dos painéis, executivos afirmaram que a prioridade do produtor continua sendo fazer bem o essencial, garantindo produtividade e previsibilidade no centro da operação.

Com o crédito ainda caro e cortes de juros esperados apenas a partir de 2026, a preservação de caixa, o planejamento preciso e a busca por previsibilidade se consolidaram como prioridades estratégicas. Nesse contexto, cresce o uso de instrumentos de hedge e de benchmarks independentes, que ajudam a trazer mais clareza e disciplina às decisões financeiras.

Os custos também seguem pressionados. A relação de troca dos fertilizantes permanece desfavorável, impactada por tensões internacionais e eventos climáticos, enquanto gargalos logísticos continuam elevando despesas e comprimindo margens, mesmo em cenários de forte produtividade.

No caso de grãos e pecuária, o Brasil segue competitivo, embora enfrente uma concorrência global mais intensa, o que exige decisões cada vez mais precisas ao longo de toda a cadeia. Para os exportadores, acompanhar a evolução da demanda asiática, os requisitos sanitários e as políticas de importação tornaram-se parte da rotina.
Dados, tecnologia e o próximo salto de competitividade

A volatilidade climática, as tensões geopolíticas e a velocidade das oscilações de preços tornaram insuficientes os modelos baseados apenas em dados históricos. A competitividade passa, cada vez mais, pela combinação de informações atualizadas, análises preditivas e uma leitura integrada de riscos.

Evidências globais reforçam essa mudança. Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que a adoção de práticas de agricultura de precisão baseadas no uso estruturado de dados de solo, clima e operação, pode elevar a produtividade entre 20% e 30%, ao mesmo tempo em que reduz o uso de água, fertilizantes e defensivos agrícolas em até 50%. Os números mostram que decisões orientadas por dados já geram ganhos mensuráveis de eficiência e sustentabilidade no campo.

O ritmo de inovação também sinaliza essa transformação. Dados do Observatório de Patentes do Escritório Europeu de Patentes mostram que tecnologias ligadas à agricultura digital crescem a uma taxa média anual de 9,4%, cerca de três vezes superior à média de outras inovações. Isso indica que o uso de dados e ferramentas analíticas deixou de ser apenas uma tendência e passou a moldar o futuro do setor.

As perspectivas para 2026 apontam para um agronegócio que combina eficiência operacional com decisões fundamentadas em evidências. Dados independentes, métricas padronizadas e transparência deixam de ser apoio e passam a definir a alocação de capital, o acesso a mercados e a capacidade de crescimento sustentável. Em um ambiente estruturalmente volátil, empresas do setor precisam empregar tecnologia inovadora para conquistar vantagem competitiva.

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Fonte:
Bloomberg

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