O impacto do Oriente Médio sob o risco logístico e o alento ao etanol

Publicado em 19/03/2026 14:40

O início de 2026 nos impôs uma realidade geopolítica severa. Os ataques coordenados entre Estados Unidos, Israel e Irã no final de fevereiro não são apenas manchetes de política internacional; eles batem diretamente à porta do agronegócio brasileiro. Ao analisar o cenário atual, vejo um quadro de ambivalência extrema: enquanto o conflito ameaça nossas rotas de exportação e encarece insumos, ele pode, ironicamente, ser a "tábua de salvação" para o setor sucroenergético.

O ponto que mais me chama a atenção neste momento é o potencial de recuperação para as usinas de cana-de-açúcar. Não é segredo que o setor vem enfrentando um "vento contrário" persistente, com cotações de açúcar baixas, um dólar que não favorece a exportação e margens de lucro perigosamente estreitas. Em muitos casos, a situação é tão crítica que ameaça a própria capacidade das usinas de realizar a renovação de canaviais e os tratos culturais básicos por simples falta de caixa.

Neste contexto, a escalada do petróleo funciona como um gatilho de alívio. Existe uma correlação direta: se o petróleo sobe e puxa o preço da gasolina nas bombas, o etanol ganha competitividade e espaço para recuperação de preço. Para uma indústria que hoje opera no limite, esse repasse pode representar o fôlego necessário para garantir a próxima safra. É um paradoxo do mercado: a instabilidade global gerando o equilíbrio financeiro que o setor doméstico tanto precisa.

"Porteira para dentro"

Contudo, minha visão quanto aos impactos de curto prazo no setor é de otimismo moderado. O mesmo petróleo que valoriza o etanol castiga a operação agrícola. O impacto nos derivados, especialmente no diesel, é imediato e sensível. Tratores, colhedoras e caminhões, o coração da movimentação "da porteira para dentro", são movidos a combustível fóssil. Mesmo com a crescente participação do biodiesel, a dependência ainda é alta o suficiente para que qualquer choque no Estreito de Ormuz encareça drasticamente o custo de produção.

Precisamos olhar para os números com cautela. O Oriente Médio não é apenas um cliente; é um elo estrutural. Em 2025, exportamos US$ 12,4 bilhões para a região. O Irã, por exemplo, tornou-se o principal destino do nosso milho, absorvendo 22% do volume total exportado pelo Brasil. Uma disrupção prolongada ali não significa apenas "vender menos", mas sim ter que redirecionar milhões de toneladas de carga parada em portos, o que gera um efeito cascata de prejuízos logísticos.

Além disso, há a questão da segurança alimentar. Cerca de 15,6% dos nossos fertilizantes nitrogenados vêm dali. Com as rotas de Suez e Bab el-Mandeb sob risco, enfrentamos não apenas o aumento do frete e do seguro marítimo, mas o risco real de desabastecimento de insumos essenciais como a ureia.

Cenário macroeconômico e o futuro

No campo financeiro, o que sinto em conversas com o mercado é que a preocupação latente com a inflação deverá retardar o tão esperado início do ciclo de queda de juros. Para as empresas menores, que já sofrem com o crédito caro, conviver com a Selic no patamar atual por mais tempo será um desafio hercúleo.

Em suma, o conflito no Oriente Médio coloca o agronegócio brasileiro em uma encruzilhada. Se por um lado o setor de etanol pode encontrar no aumento do petróleo a margem que lhe faltava, por outro, o custo logístico e a instabilidade comercial ameaçam a competitividade de nossas proteínas e grãos. A resiliência do nosso agro será, mais uma vez, testada pela nossa capacidade de adaptação a um mundo onde a geopolítica e o campo estão mais conectados do que nunca.

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