1º de Maio: Acordo Mercosul–UE amplia acesso ao mercado europeu, mas exige adaptação produtiva, ambiental e competitiva do agro
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O Acordo Provisório de Comércio entre o Mercosul e a União Europeia passará a vigorar provisoriamente em 1º de maio de 2026. A data foi confirmada pelo governo brasileiro após a conclusão dos procedimentos internos previstos no próprio instrumento e a troca de notificações formais entre as partes.
“O Acordo Mercosul/UE deve ser um importante avanço no comércio entre os dois blocos, cujas populações somadas superam 710 milhões de consumidores e cujo PIB é maior do que 22 trilhões de dólares. Será a maior zona de livre comércio do mundo.” A avaliação é do ex-ministro da Agricultura e representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), Roberto Rodrigues, que pondera, no entanto, que os efeitos não serão imediatos e dependerão de adaptação ao longo dos próximos anos.
Trata-se de uma integração entre dois dos maiores blocos econômicos globais, com potencial de criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, conectando mercados altamente complementares.
Segundo dados do Governo Federal, a União Europeia reúne 450,4 milhões de habitantes e responde por 14,1% do PIB mundial em 2025.
Para o Brasil, que já é o terceiro maior exportador agrícola global, o acordo amplia o acesso a um mercado estratégico e consolida sua posição como principal fornecedor agrícola do bloco europeu.
Abertura de mercado e peso econômico do acordo
A União Europeia foi o segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, com 14,9% de participação e US$ 25,2 bilhões embarcados. Já nas importações, o bloco europeu respondeu por 19,5% do total adquirido pelo agro brasileiro.
Para Eduardo Brandão, diretor executivo da Abrafrutas, o acordo representa uma mudança estrutural na inserção internacional do Brasil. “O Acordo anuncia uma nova etapa para a inserção econômica-comercial e política do Brasil, com potencial para ser um pilar chave na transformação produtiva nacional”, afirma.
Ainda segundo Brandão, a parceria pode impulsionar investimentos e ampliar o interesse de novos parceiros comerciais. “O movimento acelera um ciclo virtuoso de inserção internacional do bloco, ampliando oportunidades além da própria Europa”, disse.
A uva será o primeiro produto a se beneficiar diretamente do acordo Mercosul–União Europeia. Segundo Guilherme Coelho, presidente da Abrafrutas, hoje o Brasil ainda paga tarifas relevantes para acessar o mercado europeu.
“Frutas como melão e melancia enfrentam impostos de cerca de 10%, enquanto o limão chega a 14%. Com o acordo, essas tarifas serão reduzidas gradualmente até zerar em sete anos. No caso da uva, a mudança será imediata: a partir de maio, o produto, que hoje paga entre 8% e 14%, passará a ter tarifa zero”, explica.
Com isso, o Brasil passa a competir em igualdade com países como África do Sul, Peru e produtores da Califórnia, que já exportam para a União Europeia sem tarifas. “Atualmente, cerca de 70% das exportações brasileiras de frutas têm como destino o mercado europeu”, acrescenta o presidente da entidade.
Para Coelho, além da redução de custos, o acordo traz previsibilidade ao produtor. “Ao saber que as tarifas serão zeradas ao longo do tempo, produtores de melão e melancia poderão planejar a expansão da produção, enquanto a cadeia da uva já deve sentir efeitos imediatos. É um acordo aguardado há 25 anos e que tende a gerar ganhos relevantes para o setor”, conclui.
Como funcionará a redução de tarifas
O acordo prevê a eliminação tarifária gradual. A União Europeia removerá tarifas para 93% dos produtos, com prazos de até 10 anos, enquanto o Mercosul fará o mesmo para 91% das linhas tarifárias, em até 15 anos.
Segundo Felipe Spaniol, da CNA, essa diferença respeita o nível de desenvolvimento dos blocos e permite adaptação do mercado interno. Ele ressalta que “já no primeiro ano, 39% dos produtos do agro exportados à União Europeia terão tarifa zero”, o que cria oportunidades imediatas.
Apesar disso, nem todos os setores terão abertura plena. Conforme detalhado no acordo, produtos considerados sensíveis entram por meio de cotas tarifárias, que limitam o volume com benefício fiscal. Acima dessas cotas, permanecem tarifas elevadas, restringindo o crescimento mais acelerado das exportações.
Impacto direto nas principais cadeias do agro
No caso da carne bovina, foi negociada uma cota de 99 mil toneladas com tarifa de 7,5% dentro do limite. Para Roberto Perosa, presidente da Abiec, essa medida é positiva, mas com impacto moderado. “A expectativa é de crescimento gradual, entre 5% e 7% ao ano nas exportações para a Europa”, afirma.
Perosa também destaca que o principal ganho não está no volume, mas no valor. Segundo ele, “a Europa compra cortes de maior valor agregado, o que melhora a remuneração da cadeia”, beneficiando diretamente o pecuarista.
Na avicultura, o acordo cria uma nova cota de 180 mil toneladas com tarifa zero, distribuída ao longo de seis anos. Já na suinocultura, surge uma oportunidade inédita com cota de 25 mil toneladas, ainda condicionada a avanços sanitários.
Oportunidades para café, frutas e diversificação
Para o setor cafeeiro, os ganhos tendem a ser mais expressivos na indústria. Segundo Marcos Matos, do Cecafé, “haverá desgravação anual das tarifas sobre os cafés solúveis e torrados até chegar a zero em quatro anos”, o que aumenta a competitividade brasileira.
Matos também aponta efeitos indiretos relevantes. Ele afirma que o acordo pode estimular investimentos industriais e gerar empregos, fortalecendo regiões produtoras e elevando o impacto social da cafeicultura.
No caso das frutas, há uma liberalização ampla para produtos como abacate, limão e melão. A entidade destaca que o acordo pode impulsionar cadeias altamente competitivas e incentivar a diversificação da pauta exportadora brasileira.
Exigências ambientais e risco de barreiras
Apesar das oportunidades, o acesso ao mercado europeu dependerá do cumprimento de regras rigorosas. Um dos principais desafios é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que exige rastreabilidade completa e comprovação de origem sem desmatamento após 2020.
Essa exigência pode funcionar como uma barreira indireta. A falta de reconhecimento de sistemas brasileiros, como o CAR, pode elevar custos e dificultar o acesso, especialmente para pequenos e médios produtores.
Felipe Spaniol reforça esse ponto ao afirmar que o produtor precisará avançar em rastreabilidade e comprovação ambiental. Ele destaca que “é necessário assegurar o reconhecimento dos padrões elevados de produção que já temos no Brasil”.
Salvaguardas e insegurança comercial
Outro ponto de atenção são as salvaguardas adotadas pela União Europeia. De acordo com o texto, o bloco criou mecanismos com gatilhos automáticos que permitem suspender benefícios tarifários em caso de aumento de importações ou queda de preços.
Segundo a CNA, esse modelo aumenta a imprevisibilidade comercial. Simulações indicam que, apenas na carne bovina, o potencial de perdas pode chegar a 105 milhões de euros no primeiro ano, caso as salvaguardas sejam acionadas.
Em contrapartida, o acordo prevê um mecanismo de reequilíbrio econômico. Esse instrumento permite compensações caso medidas unilaterais reduzam os benefícios negociados, embora sua efetividade dependa da capacidade de resposta do Mercosul.
O que o produtor rural precisa fazer agora
Para a CNA, o acordo é estratégico, mas exige preparação. A entidade defende medidas internas para garantir competitividade, como melhoria logística, acesso a crédito e modernização produtiva.
Segundo Felipe Spaniol, o avanço dependerá também de políticas nacionais. Ele ressalta a necessidade de fortalecer instrumentos de defesa comercial e garantir condições para que pequenos produtores consigam se adaptar.
Na prática, o produtor rural precisará investir em rastreabilidade, sustentabilidade e eficiência produtiva. Como resume Roberto Rodrigues, o acordo abre portas, mas exige evolução contínua do sistema produtivo brasileiro para transformar potencial em resultado.
RAIO X: O que é o Acordo Mercosul–UE
É um acordo comercial que cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, facilitando exportações e reduzindo tarifas entre os dois blocos. Ele amplia o acesso do agro brasileiro ao mercado europeu, mas exige cumprimento de regras ambientais e sanitárias.
União Europeia: tamanho do mercado
450,4 milhões de habitantes
PIB de US$ 19,99 trilhões (2025)
14,1% do PIB mundial
13,6% das importações agrícolas globais
Comércio agrícola de US$ 494 bilhões
É um dos maiores e mais exigentes mercados do mundo
Brasil no acordo
3º maior exportador agrícola global (US$ 144,8 bilhões)
Exporta US$ 21,8 bilhões em produtos agrícolas para a UE
Total do agro: US$ 25,2 bilhões
UE representa 14,9% das exportações do agro
Principais produtos envolvidos
Exportações do Brasil: soja, café, carnes, suco de laranja, celulose
Com oportunidades: carnes, milho, arroz, açúcar, etanol, mel e frutas
Entrada da UE no Brasil: lácteos (queijos, leite em pó), alho e processados
O que muda para o produtor
Mais oportunidades de exportação
Redução de tarifas ao longo do tempo
Exigência maior de rastreabilidade e sustentabilidade
Limites por cotas e possíveis barreiras
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