O Biodiesel B100 pode ser uma realidade técnica e sem riscos no Brasil
Entre a escalada dos preços dos combustíveis fósseis e a avanço das metas de descarbonização, o Brasil se encontra diante de um potencial energético que, para especialistas, já poderia ser uma realidade consolidada: o uso do biodiesel puro (B100) em larga escala na frota rodoviária. A avaliação é do engenheiro químico Gilles-Laurent Grimberg, CEO da Actioil do Brasil e CTO da Actioil Internacional, que defende que a tecnologia e a regulamentação existentes já permitem um salto muito além da atual mistura obrigatória de 15% (B15), recentemente ampliada pelo governo federal.
Em entrevista técnica, Grimberg detalhou os fundamentos que tornam o B100 não apenas viável, mas estrategicamente relevante para o país, ao mesmo tempo em que apontou as lacunas críticas que ainda impedem sua escalabilidade, como a gestão inadequada do armazenamento e a persistência de “lendas urbanas” que desqualificam o biocombustível.
Contrariando a percepção de que o B100 seria uma promessa distante, Grimberg afirma que os motores atuais já estão aptos a rodar com o combustível puro com adaptações mínimas. “Eu acho que ele já poderia ser uma realidade. As motorizações, com poucas adaptações, já rodam no B100. Inclusive, há testes em andamento em frotas não vinculadas ao setor sucroenergético, como em algumas concessionárias de rodovias”, comentou.
O executivo detalha os benefícios técnicos que vão além da redução de emissões. Do ponto de vista mecânico, a adição de biodiesel melhora parâmetros fundamentais para o desempenho do motor. “Quando você adiciona biodiesel ao diesel, você melhora a combustão, eleva o ponto de cetano e, crucialmente, melhora a lubricidade do combustível. Isso resulta em maior proteção do sistema de injeção, que é um dos componentes mais caros e sensíveis do motor”, explicou.
Grimberg compara o efeito do biodiesel ao do etanol na gasolina. “Assim como o etanol melhora a octanagem, o biodiesel melhora o cetano. Com maior eficiência energética, você precisa de menos combustível para realizar o mesmo trabalho.” Além disso, ele destacou um benefício indireto, mas relevante para a economia nacional, já que a produção de biodiesel gera um subproduto proteico utilizado na alimentação animal, o que ajuda a estabilizar os preços de proteínas como frango e carne bovina.
Armazenamento
Se a tecnologia dos motores e a qualidade do combustível produzido não são mais entraves, o grande desafio identificado por Grimberg reside na infraestrutura de armazenamento e no comportamento dos elos da cadeia logística. O executivo foi enfático ao afirmar que a degradação do combustível, a formação de borra e a contaminação microbiana são problemas frequentemente associados ao biodiesel, mas que, na verdade, decorrem de falhas históricas de manuseio.
“O biodiesel já sai do produtor com uma estabilidade oxidativa elevada, garantindo sua integridade por até 90 dias. Para períodos mais longos, como em reservas de geradores ou equipamentos sazonais, pode-se utilizar antioxidantes. Mas o ponto mais crítico, o mais falho na cadeia, é a falta de boas práticas de armazenamento”, alertou.
Entre essas práticas, Grimberg destaca a drenagem periódica dos tanques para remoção de água acumulada por condensação. “Todo tanque aéreo tem uma torneirinha. Os tanques enterrados possuem sistema de bombeamento. A água acumula no fundo e, se não for drenada semanalmente, cria-se um ambiente propício para contaminação microbiana, que gera a borra e compromete a qualidade. Em visitas a frotistas e fazendas, é comum encontrar tanques que não são drenados há meses ou anos e filtros com o mesmo elemento há dois ou três anos”, relatou.
A relevância desse ponto ganhou contornos regulatórios recentes. Em julho de 2024, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) atualizou a portaria (920/2024) para obrigar os postos de combustível a realizarem a drenagem semanal dos tanques. “Antes disso, não era obrigatório. Conheço donos de postos que, ao começarem a drenar, retiraram 400 litros de água do tanque. Imagine a qualidade do combustível que chegava ao consumidor final”, questionou.
Biodiesel vs. HVO
Questionado sobre a concorrência com outras rotas de descarbonização, como o HVO (Hydrotreated Vegetable Oil, ou diesel renovável) e a eletrificação, Grimberg foi assertivo quanto à longevidade do biodiesel na matriz brasileira. “O HVO é uma nova geração, um biodiesel mais refinado e com maior resistência à oxidação, mas ainda é um combustível significativamente mais caro. Na Europa ele já tem uso, mas em nichos específicos. No Brasil, onde o transporte rodoviário é predominante e o custo logístico é crítico, o biodiesel ainda tem uma vida longa e uma perspectiva de crescimento”, avaliou.
O executivo destacou ainda a capilaridade da indústria nacional como um trunfo estratégico. “Temos mais de 65 plantas produtoras de biodiesel no Brasil, contra menos de 20 refinarias de petróleo. O potencial de produção interna é enorme e contribui para reduzir a dependência de importação de combustíveis”, ponderou, especialmente em um cenário de volatilidade de preços internacionais.
Rota B100
Grimberg argumenta que o arcabouço regulatório brasileiro para combustíveis está entre os mais rigorosos do mundo, superando padrões europeus e norte-americanos em diversos parâmetros de especificação. “A última atualização da ANP em julho de 2024 já mostra esse compromisso com a qualidade. Os produtores possuem selos e laboratórios acreditados pelo Inmetro. O Brasil tem tudo para crescer nesse setor”, afirmou.
Contudo, ele identifica um obstáculo cultural que precisa ser vencido. “O Brasil tem uma mania de criticar o que é produzido aqui. O biodiesel e o etanol carregam um estigma de serem combustíveis de qualidade inferior, o que não é verdade. Muitas vezes, a resistência vem da falta de conhecimento técnico”, disse o executivo.
Para enfrentar esse desafio, a Actioil, empresa com décadas de atuação no tratamento de combustíveis, tem investido em educação. “Criamos uma inteligência artificial no WhatsApp para responder dúvidas sobre combustíveis e realizamos workshops em cidades como Campinas (SP) para ensinar boas práticas. Me recuso a vender um produto químico se a pessoa não aplicar as práticas básicas de cuidado. Em 80% dos casos, os problemas desaparecem apenas com a gestão correta do armazenamento”, revelou.
A mensagem que Grimberg pretende levar em sua próxima apresentação ao setor é de que o Brasil está maduro para avançar nos teores de biocombustíveis, mas o sucesso dessa jornada depende menos de novas tecnologias e mais da conscientização de todos os elos da cadeia — desde o motorista que precisa drenar o filtro Racor do caminhão todas as manhãs até o gestor de frota que deve garantir a manutenção preventiva dos tanques de armazenamento.
“O que a gente tem hoje é uma excelente legislação e uma indústria preparada. A sociedade, por vezes, está contra por falta de informação. Divulgar as boas práticas e desmistificar os preconceitos é o ponto vital para que o B100 deixe de ser apenas uma promessa e se torne uma realidade viável e escalável na logística brasileira”, concluiu
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