Feijão-mungo-preto é a nova bola da vez para as exportações brasileiras?
![]()
Poucos anos atrás o feijão-mungo-preto não fazia parte das pautas de discussão do setor de feijão e pulses do Brasil, mas o cenário mudou drasticamente, colocando a variedade nos holofotes do mercado, especialmente no que tange à exportação, especificamente para a Índia.
Em 2025 o Brasil exportou, aproximadamente, 230 mil toneladas de feijão-mungo-preto, segundo dados compilados pelo Ibrafe (Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses), com embarques majoritariamente para a Índia. Para 2026, a projeção é de somar, pelo menos, 320 mil toneladas na dobradinha mungo-preto e mungo-verde.
Uma das empresas brasileiras que atua neste mercado é a Samba Foods, que embarcou as primeiras cargas do produto em 2018, realizou a primeira remessa significativa em 2019 e exportou 50 containers em 2020, quando devido aos reflexos da pandemia de Covid-19, apenas 5 foram entregues na Índia, obrigando os outros 45 a serem desviados para o Paquistão.
“O mungo-preto virou alternativa para áreas mais fracas de fertilidade porque tem uma boa produção. A Índia está precisando comprar mais porque direciona a sua produção local para o mungo-verde e abre o mercado externo para o preto. Então realizamos trabalhos nos países compradores para criar essa confiança do fornecimento brasileiro”, conta Iuri Bruns, fundador da Samba Foods.
![]()
AUMENTO DA PRODUÇÃO
Para conseguir atender a esse crescente mercado, muitos produtores brasileiros estão iniciando o cultivo da variedade, que entra para compor a já grande gama de feijões que o Brasil tem para negociar no mercado.
Júlio Mariucci, Gerente de Vendas Internacionais da Coperaguas, conta que o país ajustou sua produção para a variedade que é a mais desejada pelos indianos e mesmo produtores que não conheciam esse tipo de feijão apostaram no trabalho da cooperativa, que dá garantia de contratos e presta assessoria agronômica durante todo o ciclo de produção.
“É preciso fazer um estudo de mercado pelo mundo para entender o balanço do que apostar no próximo ano. O Brasil era muito forte no feijão caupi, mas houve uma queda de demanda e partimos para outras variedades, como o mungo-preto. Em 2026 estamos apostando muito nessa variedade porque fomos muito demandados pelos clientes indianos. É uma cultura que traz rentabilidade para os produtores e para os exportadores”, comenta Rodrigo Espessoto, Diretor da Dassoler Agronegócios, que é uma das três maiores exportadoras de pulses e sementes do Brasil.
O foco também está em melhorar as condições de logística para retirar esse feijão das lavouras brasileiras e levá-lo até os compradores indianos. “Novas soluções logísticas estão surgindo. O principal terminal portuário segue sendo Paranaguá, mas hoje já temos cargas saindo de Barcarena no Pará, por exemplo”, diz Eduardo Balestreri, Gerente de Relações Internacionais da Arbaza, um dos maiores players do setor de pulses brasileiro.
MYANMAR – O PRINCIPAL CONCORRENTE
Antes do Brasil começar a exportar feijão-mungo-preto, o único fornecedor mundial dos indianos era Myanmar, país asiático que está extremamente bem localizado para quem trabalha no setor de pulses, com proximidade geográfica estratégica entre Índia e China, os principais consumidores do setor.
“Myanmar era o único fornecedor da Índia e deteve esse mercado por mais de 40 anos. Um navio hoje demora cerca de quatro dias para chegar aos principais portos indianos e descarregar os feijões. Além disso, eles têm uma estrutura ótima para exportação, com armazéns grandes, máquinas de última tecnologia e capacidade de manter grandes estoques, o que evita ficar à mercê das variações de preços do mercado”, relata Mariucci.
O representante da Coperaguas voltou recentemente de uma visita ao país para conhecer o sistema de produção e exportação de Myanmar. Além dos elogios para a infraestrutura de exportação e a alta capacidade de produção dos asiáticos, Mariucci também destacou quais são as vantagens do Brasil nessa disputa.
“O Brasil está crescendo no mercado e isso preocupa eles. A qualidade é uma vantagem nossa, nós temos a melhor variedade. As questões internas deles também são um problema, já que o país está em guerra civil com falta de segurança para transitar entre as cidades e moeda muito desvalorizada, obrigando até negociações acontecerem com ouro, que já é uma moeda secundária do país”, pontua.
DINÂMICA DO MERCADO É DESAFIO
Além de enfrentar uma concorrência que está muito mais próxima do destino das cargas, o Brasil precisa enfrentar outro importante entrave no que tange à própria dinâmica deste mercado, a abertura de janelas de importação por parte do governo indiano.
O tema foi destaque entre os debates realizados na edição de 2026 do Brazil Superfoods Summit, com líderes do setor apontando que o fato dos indianos irem renovando essa liberação para importação ano a ano, acaba trazendo incertezas para os produtores brasileiros que, muitas vezes, precisam iniciar o plantio sem saber se vão poder embarcar.
“O prazo para renovação era 30 de março e eles esperaram até as últimas horas antes de renovarem. Isso deixa o produtor brasileiro no escuro já que pode plantar e não poder vender. Já plantamos vendidos, mas se o governo indiano não renova essa autorização, o comprador pode cancelar o contrato por motivo de força maior e aí não temos para quem vender, já que o mercado de feijão-mungo-preto depende 90% somente da Índia”, alerta Bruns.
Durante o evento realizado em Cuiabá, capital de Mato Grosso, representantes do comércio indiano declararam que dificilmente a Índia não irá renovar essas autorizações, já que o país é deficitário no alimento, que é base para muitos pratos que compõem a dieta nacional.
Segundo eles, o governo do país tenta buscar a autossuficiência dessa produção até 2030, mas essa meta não deverá ser atingida. Nesse contexto, a recomendação é que haja negociações específicas entre os governantes brasileiros e indianos para elaborar um cenário mais positivo, com a instituição de cotas, por exemplo, para trazer mais previsibilidade e garantir a produção do Brasil.
Outra dificuldade para a produção brasileira de mungo-preto seguir crescendo é a falta de sementes no mercado nacional. Até 2021 não havia nenhuma semente certificada para a variedade, até o lançamento feito pelo IAC (Instituto Agronômico de Campinas). Mesmo assim, o volume ainda é insuficiente para atender a demanda, o que faz com que muito do que é plantado hoje utilize sementes consideradas piratas.
“O Brasil tem uma diferença entre demanda e capacidade de sementes para a produção. A pesquisa está tentando avançar nesse sentido e o setor precisa se unir para montar uma cadeia de investimentos para termos sementes com boa sanidade e boa pureza para evitar misturas de variedades que dificultam o mercado e o processamento do importador lá no destino”, alerta Espessoto.
“Estamos buscando apoio também dos órgãos estaduais para investimentos e para espaços de pesquisa. Porém, até lá muito do que é plantado vai seguir com sementes piratas, o que também prejudica em termos de rastreabilidade”, lamenta o representante da Dassoler Agronegócios.
0 comentário
Feijão-mungo-preto é a nova bola da vez para as exportações brasileiras?
Índia: um mercado com 1,4 bilhão de consumidores em potencial para feijões e pulses do Brasil
Colheita do arroz atinge mais de 68% da área semeada no Rio Grande do Sul
Mato Grosso mais do que triplicou cultivo do gergelim nos últimos 5 anos e aposta no apetite internacional pelo grão
Preço da soja e do milho registram queda em março em Mato Grosso do Sul
Arroz/Cepea: Retração vendedora mantém liquidez baixa