A guerra chegou na agricultura brasileira, por Dr. Evaristo de Miranda
O conflito no Oriente Médio já afeta a agropecuária brasileira. Há dificuldades crescentes na exportação dos produtos do agro e na importação de insumos agropecuários, como consequência da alta do preço do petróleo e da insegurança. Oriente Médio e países do Golfo são um destino estruturante da produção agropecuária brasileira. Alguns setores do agro foram logo afetados, como as refrigeradas cadeias de proteína animal.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango, e 30% têm como destino o Oriente Médio e países do Golfo. O Irã era, até 2025, o maior importador de milho do Brasil, cerca de 22% do total exportado. Vive-se um estrangulamento na logística com o fechamento do Estreito de Ormuz. Ainda não há fechamento de mercados ou cancelamento de contratos.
Segundo a Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA), 91% da carne de frango importada pela Jordânia vem do Brasil. No Líbano, 85%; nos Emirados Árabes Unidos, 74%; no Iémen, 71%; no Catar, 66%; no Kuwait, 61%; na Arábia Saudita, 57%; no Omã, 51% e na Turquia, 39%. Se o Brasil não fornecer carne de frango a esses países compradores durante o conflito do Oriente Médio, como ficarão seus mercados internos e sua segurança alimentar em proteínas animais? Qual destino o Brasil daria a toda essa produção? Manter a exportação de carne de frango, como de outros produtos, é fundamental para manter preços baixos no mercado interno.
É preciso ter uma visão holística, como assinala Ricardo Santin, o presidente da ABPA. Emirados Árabes Unidos são o principal destino da carne de frango brasileira. Em 2025 importaram um volume recorde de 480 mil toneladas. São cortes congelados. Peito e filé de peito predominam e superam de longe o frango inteiro. Da mesma forma, os principais destinos da exportação de pés e patas de frango (chicken paws and feet), pouco consumidos no Brasil, estão concentrados na Ásia, com destaque para a China (54%). Isso ajuda a baratear o preço de coxa e sobrecoxa no Brasil. Ao contrário do apregoado por alguns aloprados do atual governo e da militância, a exportação reduz os preços internos, até por questões de escala.
Aumentou o preço dos fretes, dos seguros e prêmios marítimos, o número de escalas e o tempo de espera em portos sobrecarregados. Até interferências no sinal de GPS enfrenta a navegação na região. Progressivamente, o conjunto da atividade agropecuária, o mercado interno, o bolso e a mesa dos brasileiros serão afetados. Não se trata de uma crise e sim de uma policrise.
O termo policrise não designa apenas a existência de várias crises ao mesmo tempo, como uma guerra, uma pandemia, uma invasão de refugiados ou uma catástrofe climática. Aqui, as crises estão interconectadas. Não acontecem sucessivamente, como as pragas do Egito na Bíblia. A engrenagem de uma crise alimenta a outra. Elas ampliam-se e criam um sistema caótico, de difícil solução, muito maior em relação à soma das partes.
O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, junto com Anne-Brigitte Kern, utilizou o conceito pela primeira vez no livro Terre-Patrie, em 1993. A expressão “policrise” foi popularizada no debate internacional pelo historiador britânico Adam Tooze, historiador da Universidade Columbia. Ele retomou o termo a partir de 2021, sobretudo após um artigo no Financial Times intitulado “Bem-vindo ao mundo da policrise”.
Esse termo ilustra como o marketing norte-americano é poderoso. A música My Way, erroneamente, é creditada e atribuída por muitos a Frank Sinatra. Seu autor é um francês, Claude François, e comme d’habitude, ficou para trás. Esta policrise atual espelha o Novo Normal, vivido no planeta.
O preço dos fertilizantes disparou. Em 2025, o Brasil registrou um volume recorde na importação de fertilizantes: 45,5 milhões de toneladas. A agropecuária brasileira sofre dependência crônica da importação de nitratos, fósforo e potássio (NPK), por falta de uma política de Estado. Isso vem de vários governos e foi agravada no atual por sua agrofobia. Restrições do eugenismo ambientalista e tribalista governamental, de ongs e do Ministério Público dificultam a exploração de jazidas, sobretudo na Amazônia.
O caso mais gritante é o bloqueio ambientalista da mina de Autazes, no Amazonas. Esse projeto estratégico de mineração de silvinita para produzir potássio, a 113 km de Manaus, poderia reduzir a dependência da importação de fertilizantes e atender até 40% da demanda nacional até 2032.
Além disso, a pesada tributação brasileira e o alto custo do gás natural limitam a competitividade da indústria de fertilizantes. Isso leva empresas a investirem em países vizinhos, a deixarem suas fábricas no Brasil hibernando e até a fecharem a exploração, como este ano no fosfato em Araxá (MG). O Oriente Médio fornece 18% dos adubos fosfatados e 45% do enxofre, muito utilizado na produção de fósforo. Há uma concorrência pelo enxofre entre agricultura e energia por seus usos, sobretudo em baterias de automóveis.
Quanto ao nitrogênio, como no diesel ou pelas mesmas razões, queima-se o gás natural do Pré-Sal por falta de estrutura industrial para produzir amônia. Adubos nitrogenados e principalmente a ureia dependem da produção de amônia, feita a partir de gás natural. Cerca de 20% da amônia vem do Oriente Médio. A região respondia por 34% da produção de ureia no mundo.
A Índia, produtora de ureia, depende muito do gás natural liquefeito importado do Catar e Emirados Árabes Unidos (59% das importações em 2025). O fornecimento foi interrompido pelo bloqueio no Estreito de Ormuz. Sem gás natural, a Índia reduziu ou paralisou unidades de produção de ureia, prevendo um déficit potencial de 2 milhões de toneladas até agosto de 2026.
A Rússia, um dos maiores exportadores globais, anunciou a suspensão temporária das exportações de nitrato de amônia de março a abril de 2026. A medida visa garantir o abastecimento interno durante a temporada de plantio da primavera, em um cenário de restrição global agravado pelo bloqueio no Estreito, por onde passa cerca de 24% da amônia comercializada no mundo.
Em 2025, o Brasil importou oficialmente 185 mil toneladas de ureia provenientes do Irã. Uma fatia pequena, cerca de 2,5%, de 7,7 milhões de toneladas importadas em 2025. O impacto real do Irã no mercado brasileiro é considerado significativamente maior devido “triangulações comerciais”.
Agrava a situação do agro, o aumento no preço do diesel. O Brasil, grande exportador de petróleo importou um volume recorde de 17,3 bilhões de litros de óleo diesel em 2025, aumento de 20% em relação a 2024. Isso ocorre por falta de capacidade industrial de refino. A Rússia é o principal fornecedor (8,1 bilhões de litros), seguida pelos Estados Unidos (5,7 bilhões de litros).
A guerra atingiu refinarias de vários países da região, incluindo o Irã, e reduziu a capacidade de refino. Esses danos à infraestrutura de exploração e refino de petróleo no Oriente Médio serão longos para recuperar.
Num momento de margens muito estreitas na atividade agropecuária, o aumento do preço dos insumos e do diesel levará a um número maior de inadimplentes, a mais pedidos de recuperação judicial e a queda da produção e da produtividade. Não bastassem os juros escorchantes, a ausência de seguro rural e uma das maiores inseguranças jurídicas já vividas pela propriedade privada na história rural brasileira.
A guerra Rússia-Ucrânia, iniciada em 2022, ainda dura. O risco de uma situação de conflito crônico se prolongar no Oriente Médio é alto, apesar do cessar-fogo. Mesmo se ocorrer um colapso do regime ditatorial do Irã, levará muito tempo para recomposição e reconstrução da capacidade regional de exploração e processamento de petróleo, destruída pelo conflito.
Com a crise do multilateralismo, nenhum organismo internacional é capaz de gerir esse conflito, seja ONU, OTAN ou OMC. Vulnerabilidade agravada pelo risco de desmembramento dessas instituições, já fragilizadas. Cresce o unilateralismo e o protecionismo, inclusive o verde, ambientalista. A ação das diplomacias nacionais está comprometida na solução de controvérsias internacionais.
O Brasil perde-se na retórica Sul-Sul enquanto no comércio internacional os países ampliam acordos bilaterais sólidos em detrimento dos internacionais, pouco efetivos. As salvaguardas adicionais impostas pela União Europeia ao recente acordo comercial com o Mercosul são o melhor exemplo disso, na agropecuária. Para a produção de proteína animal, a situação piorou.
Face à imposição de tarifas ao agro brasileiro pelos EUA em 2025, o setor privado teve atuação decisiva dada a inoperância do Governo Federal. Agora a história se repete. O protagonismo das entidades do agronegócio, como ABPA e ABIEC, os entendimentos com traders, armadores e instâncias locais buscam novas alternativas logísticas e caminhos no Oriente Médio.
O Brasil precisa de um projeto estruturante, de Estado, para explorar seus recursos minerais (fertilizantes e petróleo na Margem Equatorial) e desenvolver rodovias e ferrovias, incluindo a conexão bioceânica, para chegar aos portos do Pacífico de Antofagasta e Chancay. Não ajudam os posicionamentos histriônicos do governo brasileiro, incompatíveis com a reduzida dimensão geopolítica do país. Trazem o risco de atrair retaliações comerciais e isolamento internacional. Não bastasse a guerra externa, o agronegócio brasileiro enfrenta um combate interno constante, atacado por políticas agrofóbicas, às quais não faltam incentivos federais. Haja policrise!
Evaristo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier. Com mais de 1.400 publicações no Brasil e exterior, é autor de 56 livros, como “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura Brasileira” (em português, inglês, árabe e mandarim). Pesquisador da Embrapa de 1980 a 2023, coordenou mais de 40 projetos e dirigiu três centros nacionais de pesquisa. Membro da Academia Nacional de Agricultura, foi eleito Agrônomo do Ano em 2021. Sua produção científica e artigos estão disponíveis no site: evaristodemiranda.com.br.
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