El Niño eleva preocupação no mercado do açúcar e pode dar suporte aos preços
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O mercado internacional do açúcar segue operando em ambiente de elevada volatilidade, mas começa a encontrar suporte diante das preocupações climáticas envolvendo a próxima safra global. A possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade, aliada ao risco de redução da moagem no Centro-Sul do Brasil e ao maior direcionamento da cana para o etanol, tem mantido os investidores atentos ao equilíbrio entre oferta e demanda da commodity.
Segundo Maurício Muruci, analista da Safras & Mercado, os contratos do açúcar em Nova Iorque passaram por fortes oscilações nas últimas semanas, alternando movimentos entre os patamares de 14 e 16 cents por libra-peso.
“O mercado está extremamente volátil. O açúcar foi aos 16 cents, voltou para a faixa de 14,60 e agora tenta novamente se sustentar próximo dos 15 cents”, afirmou.
El Niño preocupa mercado global
Entre os principais fatores monitorados pelo mercado está o avanço do fenômeno climático El Niño. De acordo com Muruci, os modelos climáticos já apontam probabilidade superior a 95% de formação do fenômeno, com risco elevado de intensidade moderada a forte.
Segundo ele, os primeiros efeitos já começam a ser sentidos nos canaviais do Centro-Sul brasileiro, principalmente em São Paulo e Minas Gerais, principais regiões produtoras de cana do país.
“O que chama atenção são as chuvas intensas em pleno fim de maio, período em que normalmente o clima já estaria mais seco. Isso já começa a provocar desaceleração e até paralisações pontuais na moagem”, explicou.
O analista destaca que, caso o fenômeno se confirme com maior intensidade, o excesso de chuvas durante o segundo semestre pode comprometer a colheita, reduzir a produtividade e antecipar o encerramento da safra 2026/27 em algumas unidades produtoras.
“A perspectiva é de que algumas usinas possam encerrar a moagem antes do normal entre setembro e outubro. Isso reduziria o superávit global e reforçaria o suporte de alta para os preços internacionais”, disse.
Superávit global pode diminuir
Apesar das projeções ainda indicarem oferta confortável no mercado internacional, o analista avalia que o excedente global pode diminuir ao longo dos próximos meses.
Segundo Muruci, estimativas da Safras & Mercado apontam que o superávit global de açúcar, anteriormente projetado acima de 11 milhões de toneladas, pode cair para uma faixa entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas.
“A redução desse excedente já começa a mudar a percepção do mercado. O açúcar ainda trabalha em cenário de oferta ampla, mas os riscos climáticos começam a ganhar peso nas cotações”, afirmou.
Índia
O mercado também acompanhou recentemente a decisão da Índia de restringir exportações de açúcar até setembro. No entanto, segundo o analista, a medida teve impacto praticamente neutro sobre os preços internacionais.
“A Índia já não estava exportando volumes relevantes. Nem mesmo a cota autorizada anteriormente vinha sendo totalmente utilizada”, explicou.
De acordo com ele, o mercado rapidamente percebeu que a restrição não alterava de forma significativa a oferta global disponível.
“No dia seguinte ao anúncio, os preços devolveram praticamente todos os ganhos”, acrescentou.
Etanol continua no centro da estratégia das usinas
Mesmo com a recente recuperação das cotações do açúcar, o etanol segue no foco estratégico das usinas brasileiras, especialmente diante das incertezas sobre o mercado internacional.
Segundo Muruci, muitas unidades reduziram o ritmo de fixação antecipada de açúcar ao longo dos últimos meses e passaram a aguardar melhores oportunidades de preços para 2027.
“As usinas entenderam que este não era o melhor momento para travar açúcar. A estratégia agora é esperar uma reação mais consistente dos preços no fim do ano”, afirmou.
O analista acredita que, caso os problemas climáticos se confirmem em importantes produtores globais, os contratos internacionais poderão voltar a trabalhar em patamares entre 17 e 20 cents por libra-peso nos próximos meses.
“Hoje o mercado já começa a precificar redução de oferta na Tailândia, na União Europeia e possíveis impactos climáticos no Brasil. Isso tende a fortalecer o açúcar mais adiante”, disse.
Enquanto isso, o setor segue atento ao comportamento do petróleo e à competitividade do etanol, fatores que continuam influenciando diretamente o mix de produção das usinas brasileiras.
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