Do trigo à batata-doce, o etanol brasileiro é farto em matérias-primas

Publicado em 03/06/2026 08:24 e atualizado em 03/06/2026 10:13

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Por Oliver Griffin e Diego Vara

PASSO FUNDO, Brasil, 3 Jun (Reuters) - Os carros que circulam pelas ruas congestionadas do Brasil, movidos em sua maioria a etanol à base de cana-de-açúcar ou milho, poderão em breve funcionar com biocombustível feito a partir de uma variedade de outras matérias-primas, como diferentes grãos, tubérculos e alguns produtos considerados exóticos.

Uma nova onda de inovação em biocombustíveis está varrendo o país, com desenvolvedores em setores inesperados do agronegócio desafiando décadas de domínio dos produtores de cana nos mercados de etanol, apostando em tudo, desde culturas básicas como trigo ou cevada até resíduos como restos de comida.

"O futuro da transição energética não é um mundo de 'ou', mas sim de 'e'", disse Alexandre Breda, gerente de tecnologia de baixo carbono da Shell no Brasil, que pesquisa a viabilidade do agave para a produção do biocombustível.

"Precisamos da cana-de-açúcar, do milho, do agave, do trigo e de toda a biomassa. Uma única matéria-prima não trará a resposta."

A indústria brasileira de etanol, avaliada em cerca de US$20 bilhões, só perde para a dos Estados Unidos e é conhecida há tempos por sua frota de carros de passeio "flex", que podem funcionar com uma mistura obrigatória de 30% de etanol anidro na gasolina ou apenas com etanol hidratado.

A alta global dos preços da energia devido à guerra entre EUA e Irã afetou os consumidores em todo o mundo, mas o impacto foi muito menos acentuado no Brasil, onde a grande quantidade de veículos leves movidos a biocombustíveis ajudou a proteger os consumidores do país sul-americano.

O preço médio da gasolina no Brasil subiu apenas 5%, para R$6,62 por litro no final de maio, ante R$6,32 em janeiro, segundo dados nacionais. Em contraste, os preços da gasolina nos EUA subiram mais de 40% desde o início da guerra, no final de fevereiro.

A TERCEIRA ONDA

A "terceira onda" de inovação em biocombustíveis no país, impulsionada tanto por grandes produtores da indústria quanto por empresas iniciantes, promete ainda mais variedade do que a cana e o milho que dominaram a produção de combustíveis.

Essa atividade está fortalecendo a produção de culturas como o sorgo e pode fazer o mesmo com o trigo e outros produtos.

Cerca de 28,5 bilhões de litros, ou 71%, do etanol brasileiro virão da cana em 2026, segundo a Empresa de Pesquisa Energética do governo, enquanto 11,2 bilhões de litros virão de outros produtos agrícolas, principalmente do milho, mas também da soja, trigo e outros cereais.

A maior produtora de biodiesel do país, a Be8, está investindo R$1,7 bilhão em uma planta para produzir combustível à base de trigo. A biorrefinaria, localizada no Rio Grande do Sul, tem previsão de inauguração em março de 2027, tornando-se a primeira planta em larga escala do Brasil a utilizar trigo e outros grãos de inverno como biocombustíveis, com o objetivo de produzir 220 milhões de litros por ano.

"O Rio Grande do Sul ficou fora, tanto da primeira onda de produção de etanol que foi a cana, quanto da segunda onda, que foi o milho", disse o fundador e CEO da Be8, Erasmo Carlos Battistella, na planta de biodiesel da empresa na cidade de Passo Fundo.

"Agora vem uma terceira onda pelo amadurecimento das tecnologias que vão utilizar as matérias-primas que nós temos aqui."

CANA-DE-AÇÚCAR ESMAGADA?

No Norte e Nordeste do Brasil, onde o etanol de milho cresceu rapidamente, os produtores de etanol de cana estão receosos com novas matérias-primas e com a superprodução em geral, enquanto lutam contra os preços do açúcar próximos às mínimas dos últimos seis anos.

"Não é momento para expansão e investimento em matéria-prima para etanol, porque nós já temos muito volume para um mercado que até é um mercado menor", disse Renato Cunha, presidente da associação regional de produtores de etanol de cana NovaBio, acrescentando que o crescimento desordenado do etanol de milho prejudicou o mercado.

"Não dá simplesmente para achar que vai fazer etanol e que vai vender tudo."

Outros observadores disseram que o aumento da obrigatoriedade do uso de biocombustíveis pelo governo e a adoção mais ampla de bombas de etanol 100% para os carros de passeio flex do Brasil dariam suporte à produção.

O governo deve aumentar o percentual obrigatório de etanol na gasolina para 32% em junho, o que elevaria a demanda anual de etanol em cerca de 1 bilhão de litros, segundo a associação do setor no centro-sul, a Unica.

Mario Ferreira Campos Filho, presidente da associação do setor de etanol Bioenergia Brasil, previu que de 40% a 45% da produção brasileira de etanol poderá vir de grãos em cinco a seis anos.

"Nem metade dos municípios do Rio Grande do Sul possuem bombas de etanol hidratado", disse Campos Filho. "O fato de você ter a possibilidade de ter uma produção própria possibilita você abrir esse mercado."

A Be8 espera atender 23% da demanda de etanol em postos de gasolina no Estado, assim que sua usina estiver em operação.

BIOCOMBUSTÍVEIS E OUTROS PRODUTOS

A demanda por biocombustíveis está gerando renda extra com produtos antes pouco valorizados na economia brasileira.

O uso de trigo e outros cereais de inverno para a produção de etanol pode incentivar o plantio de culturas com apelo comercial historicamente limitado, afirmou Giovani Stefani Fae, chefe de transferência de tecnologia da unidade de trigo da Embrapa.

O etanol de trigo, assim como o de milho, produz um importante coproduto após a fermentação e evaporação. Os resíduos ricos em proteínas, chamados de grãos secos de destilaria (DDG, do inglês), são utilizados na alimentação animal, proporcionando aos produtores uma fonte de renda adicional que o etanol de cana-de-açúcar não oferece.

A planta da Be8 deverá produzir 155 mil toneladas de DDG e 27 mil toneladas de glúten de trigo.

Produtores no Estado de São Paulo descobriram um processo similar para transformar o excedente de batata-doce em etanol e ração animal. Atualmente, essas batatas acabam ficando "na roça", quando não há viabilidade econômica para a colheita, disse David de Carlo Fernando Junior, gerente industrial da Agropecuária Vista Alegre.

"A indústria garante que o que for plantado vai ser colhido."

Grandes processadores de soja, como a Caramuru e a CJ Selecta, estão maximizando o lucro da principal cultura do Brasil, produzindo etanol a partir do melaço de soja resultante do processamento da oleaginosa.

O melaço, por si só, apresenta margens de lucro baixas, afirmou a CJ Selecta em um comunicado à imprensa.

Até mesmo alimentos destinados ao lixo são aproveitados. A empresa de serviços ambientais Ambipar utiliza resíduos alimentares, como xaropes de refrigerante e outros itens descartados, para produzir cerca de 2,4 milhões de litros de etanol anualmente, embora isso represente uma fração da produção nacional de 40 bilhões de litros.

No semiárido do Norte do Brasil, a Shell está investindo R$100 milhões para pesquisar se o agave, usado na produção de tequila e mezcal, poderia ser uma matéria-prima.

Se bem-sucedido, o projeto poderá abrir novas oportunidades para biocombustíveis em regiões semelhantes em todo o mundo, disse Breda, da Shell.

"Se você consegue produzir tequila, consegue produzir etanol", afirmou ele. "Tudo fermenta e se transforma em alguma coisa."

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Por:
Reuters
Fonte:
Reuters

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