Brasil tem menos de 4% de área plantada com seguro e cenário não deve se alterar muito para 26/27, mesmo com El Niño no radar
FGV Agro: Especialistas discutem impactos do El Niño na produção agrícola brasileira
Webinar promovido pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV (OCSR) reuniu especialistas climáticos para mapear os impactos do El Niño sobre a produção agrícola e debater a urgência de ampliar o seguro rural no país
A produção agrícola brasileira pode ser duramente afetada por um El Niño de forte intensidade nas safras de 2026 e 2027. O alerta foi dado por dois meteorologistas de referência: Luís Renato Lazinski, agrometeorologista, e Francisco de Assis Diniz, consultor climático. Os dois participaram de webinário promovido pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR/FGV Agro) e pela Meridiana, com apoio institucional do iCS (Instituto Clima e Sociedade), do IRB Brasil Re e do IISR (Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros da FGV), realizado em 6 de junho.
O evento reuniu especialistas do setor com o objetivo de discutir os riscos climáticos à produção nacional e reforçar a necessidade de fortalecer a rede de proteção do agronegócio brasileiro.
A abertura coube a Gilson Martins, pesquisador do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro e professor da UFPR, que situou o debate no contexto das alertas recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e da agência americana NOAA, ambas apontando 80% de probabilidade de configuração do El Niño, com modelos indicando um evento de expressiva intensidade. Martins destacou que o fenômeno preocupa especialmente por produzir efeitos distintos nas diferentes regiões do país, e que planejar-se diante dessa realidade é o propósito central do encontro.
"Um evento como esse é extremamente importante porque estamos pensando justamente em como nos planejar melhor", afirmou Martins, reforçando que o seguro rural e o crédito são instrumentos essenciais para dar segurança ao produtor e mitigar os riscos da produção.
Um Brasil dividido pelo Clima
As apresentações de Lazinski e Diniz traçaram um quadro de forte contraste regional. No Centro-Sul, as temperaturas durante o inverno devem se manter entre a média e ligeiramente acima da média. O risco de geadas tardias nas áreas mais altas do Sul é considerado remoto. O verdadeiro desafio para a região será o excesso de chuvas na primavera e no verão, com risco elevado de temporais, rajadas de vento e granizo.
Com um El Niño de forte intensidade, o Centro-Sul enfrentará solos encharcados que dificultarão todas as atividades de campo, do plantio aos tratos culturais e à colheita. O excesso de nebulosidade reduzirá a luminosidade disponível para o desenvolvimento das lavouras. As culturas de inverno, como trigo e cevada, sofrerão com a alta incidência de doenças e com a umidade excessiva no momento da colheita, comprometendo a qualidade do grão.
O feijão também figura entre as culturas mais vulneráveis, sujeito a apodrecimento de raízes, doenças e excesso de umidade na colheita. A soja e o milho suportam melhor as condições de alta umidade, mas também sofrerão consequências: a incidência de doenças, as dificuldades operacionais no campo e a baixa luminosidade tendem a alongar o ciclo dessas culturas. Na fruticultura, a alta umidade favorecerá igualmente uma elevada incidência de doenças, exigindo atenção redobrada e maior investimento em defensivos.
Lazinski foi categórico ao afirmar que o fenômeno não se encerrará rapidamente. O El Niño influenciará o clima durante toda a safra de inverno e toda a safra de verão, estendendo seus efeitos ao longo do primeiro semestre de 2027 e impactando diretamente boa parte do desenvolvimento da safrinha de milho, em janeiro e fevereiro. Em suas conclusões, ele reforçou que não se trata de um evento fraco: os alertas às autoridades refletem a expectativa de extremos climáticos significativos em diversas regiões do país.
“Eu controlo tudo na agricultura, faço tudo como manda a assistência técnica da porteira para trás. O único fator que não controlo na agricultura é o clima”, pontuou Lazinski.
Em contraste com o Sul, o Centro-Norte, o Centro-Oeste e o Nordeste enfrentarão um cenário severo de chuvas irregulares e muito abaixo da média, veranicos prolongados e temperaturas extremas. Diniz fez um alerta crítico sobre o fenômeno da chamada “chuva para enganar”: precipitações antecipadas entre agosto e setembro podem dar a falsa impressão de que o período chuvoso começou induzindo o produtor ao plantio precoce. Os modelos climáticos, porém, indicam que outubro e novembro serão extremamente secos e quentes, causando perdas severas e forçando um dispendioso replantio.
“O clima é o preditor de uma produção agrícola no mundo inteiro. Se o agricultor não plantar, não vai ter safra — mas se o clima não contribuir, não vai ter boa produção”, afirmou Diniz.
O Seguro Rural como Resposta Estrutural
O debate foi conduzido pelo OCSR com foco nas implicações para as políticas públicas. Gilson Martins, trouxe dados que ilustram a gravidade do cenário: a área agrícola segurada no Brasil caiu de 13 milhões para 3,2 milhões de hectares em 2025 — um recuo que deixa o produtor rural desprotegido exatamente no momento em que os riscos climáticos se tornam mais severos e frequentes.
Para ele, os números reforçam a urgência de retomar e expandir as políticas de seguro rural no país, especialmente diante das previsões de impactos severos causados pelo El Niño.
O evento encerrou-se com o diagnóstico compartilhado por todos os participantes: diante da nova realidade climática, o fortalecimento do seguro rural é menos uma opção de política e mais uma exigência estrutural para garantir a estabilidade da produção agrícola nacional.
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