O Julgamento do Glifosato

Publicado em 19/06/2026 13:28
Entre a ciência, a política e os tribunais: o que realmente está em jogo na disputa sobre o herbicida mais utilizado do planeta.

Este artigo apresenta uma versão resumida do estudo. A análise completa, incluindo referências, documentos regulatórios, avaliações internacionais e resultados detalhados das análises bibliométricas, está disponível na página de publicações do Instituto de Desenvolvimento Sustentável (IDS): https://www.idsbr.org/publicacoes

O debate sobre o glifosato voltou ao centro das atenções brasileiras após a ação movida pelo Ministério Público do Trabalho contra a ANVISA e a União. O pedido é ambicioso: retirar do mercado nacional a molécula mais utilizada na agricultura moderna. A justificativa é conhecida. Estudos apontariam riscos à saúde humana, especialmente relacionados ao câncer, e o princípio da precaução exigiria uma resposta firme do Estado. À primeira vista, parece um debate exclusivamente toxicológico. Mas não é.

Poucas moléculas carregam uma contradição tão grande quanto o glifosato. Para seus críticos, tornou-se um símbolo da agricultura industrial, dos organismos geneticamente modificados e da dependência de insumos químicos. Para seus defensores, representa uma das tecnologias que permitiram aumentar a produção de alimentos sem uma expansão proporcional da área agrícola. O problema é que símbolos raramente ajudam a compreender a realidade. E a realidade do glifosato é muito mais complexa do que a disputa entre mocinhos e vilões frequentemente apresentada ao público.

O primeiro aspecto que merece atenção é que a discussão costuma começar pelo fim. Fala-se sobre a molécula, mas pouco se discute a função que ela desempenha dentro dos sistemas agrícolas contemporâneos. No Brasil, o glifosato não é apenas um herbicida. Ele é uma peça importante da engrenagem que viabiliza o Sistema Plantio Direto, uma das principais tecnologias de conservação do solo desenvolvidas nas últimas décadas. É essa combinação que permitiu reduzir operações mecânicas, diminuir a erosão, aumentar a retenção de água no solo e ampliar a viabilidade de sistemas com duas ou até três safras anuais na mesma área.

Essa característica é particularmente relevante em um país tropical. Ao contrário da Europa ou do Canadá, o Brasil não possui um inverno rigoroso capaz de interromper naturalmente o crescimento das plantas daninhas. Aqui, a pressão biológica é praticamente permanente. O resultado é que a agricultura tropical depende intensamente de estratégias de manejo para manter a produtividade. Quando se discute a retirada de uma ferramenta amplamente utilizada nesse sistema, a pergunta não deveria ser apenas se existem riscos associados ao seu uso. A pergunta deveria ser também quais serão as consequências agronômicas, ambientais e econômicas de sua eventual substituição.

É justamente nesse ponto que o debate público costuma se tornar superficial. A literatura científica sobre saúde dedica enorme atenção à carcinogenicidade, aos mecanismos toxicológicos e às avaliações de risco. Essa preocupação é legítima e necessária. Entretanto, uma análise paralela da literatura agronômica internacional revela uma agenda completamente diferente. Os estudos mais recentes concentram-se em produtividade, manejo de plantas daninhas, resistência de espécies infestantes, custos de produção e sustentabilidade dos sistemas agrícolas. Em outras palavras, enquanto uma parte da ciência pergunta se existem riscos associados à molécula, outra procura entender como produzir alimentos em sua ausência.

Essa diferença de perspectiva ajuda a explicar por que as principais autoridades regulatórias do mundo chegaram a conclusões distintas daquelas frequentemente reproduzidas no debate público. A classificação do glifosato como "provavelmente carcinogênico" pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer tornou-se uma referência recorrente para pedidos de restrição e banimento. Ocorre que a IARC trabalha com identificação de perigo. Já órgãos como a EPA nos Estados Unidos, a EFSA na União Europeia e a própria ANVISA operam sob a lógica da avaliação de risco. A diferença pode parecer sutil, mas é decisiva. Uma substância pode apresentar potencial para causar determinado efeito em condições experimentais específicas sem necessariamente representar risco inaceitável nas condições reais de uso.

Isso não significa que o glifosato seja isento de problemas ou que deva permanecer eternamente no mercado. Nenhuma tecnologia agrícola deve estar imune à reavaliação científica. O ponto central é outro. Decisões regulatórias precisam considerar simultaneamente exposição, risco, alternativas disponíveis e consequências não intencionais. Um banimento abrupto pode reduzir um risco potencial e, ao mesmo tempo, aumentar outros riscos ambientais, econômicos ou sociais que raramente aparecem nos processos judiciais.

Talvez a pergunta mais importante não seja se o glifosato é bom ou ruim. Talvez a pergunta correta seja o que acontece com a agricultura quando ele desaparece. Quanto custaria substituí-lo? Quais seriam os impactos sobre o plantio direto? Quais herbicidas ocupariam seu espaço? Como reagiriam os custos de produção? O que aconteceria com os preços dos alimentos? E quais seriam os efeitos ambientais dessa transição?

A ciência regulatória existe justamente para responder a perguntas difíceis como essas. Não para absolver moléculas nem para condená-las previamente, mas para avaliar evidências, ponderar riscos e buscar soluções proporcionais. Quando a discussão é reduzida a slogans, perde-se a oportunidade de enfrentar o verdadeiro desafio: construir sistemas agrícolas cada vez mais produtivos, mais sustentáveis e mais seguros para trabalhadores, consumidores e meio ambiente.

O glifosato continuará sendo objeto de controvérsia por muitos anos. Mas, independentemente da posição de cada um, existe uma conclusão que deveria unir todos os lados do debate: decisões com potencial de afetar a produção de alimentos, a renda dos agricultores e o preço da comida precisam ser tomadas com base na melhor evidência disponível, e não apenas na força das narrativas.

Referências:

ANVISA. Reavaliação toxicológica do ingrediente ativo glifosato. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2019.

DERPSCH, R.; FRIEDRICH, T.; KASSAM, A.; LI, H. W. Current status of adoption of no-till farming in the world and some of its main benefits. International Journal of Agricultural and Biological Engineering, v. 3, n. 1, p. 1–25, 2010.

EFSA. Peer review of the pesticide risk assessment of the active substance glyphosate. EFSA Journal, Parma, v. 21, n. 7, 2023.

IARC. Glyphosate. In: INTERNATIONAL AGENCY FOR RESEARCH ON CANCER. Some Organophosphate Insecticides and Herbicides. Lyon: IARC, 2015. (IARC Monographs on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans, v. 112).

MMA; EMBRAPA. Painel de Monitoramento Ambiental de Agrotóxicos em Recursos Hídricos. Brasília: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, 2025.

Por Luis Eduardo Pacifici Rangel, Ex-Secretário de Defesa Agropecuária e Ex-Coordenador-Geral de Agrotóxicos e Afins, Membro do Conselho Científico do Agro Sustentável; Carlos Ramos Venâncio, Ex-Coordenador-Geral de Agrotóxicos e Afins; Lothar Langer Júnior, especialista em agronegócio, estratégia empresarial e comunicação técnica aplicada ao setor agropecuário

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Fonte:
CCAS

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