Trigo de menor qualidade já aparece no Centro-Sul e aumenta alerta sobre oferta para moagem
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Os problemas climáticos enfrentados pelo trigo brasileiro ao longo da safra de 2026 começam a deixar de ser apenas um risco agronômico e já aparecem na qualidade comercial dos primeiros lotes colhidos. No Paraná e em São Paulo, há relatos de maior presença de trigos dos tipos 2 e 3, com menor disponibilidade do tipo 1, enquanto o Rio Grande do Sul inicia a colheita sob novas chuvas e dificuldade para a entrada das máquinas.
O cenário aumenta a atenção sobre a disponibilidade de trigo com qualidade para panificação em uma temporada na qual o Brasil já deve depender mais das importações para completar o abastecimento.
Segundo o Cepea, lotes colhidos no Paraná e em São Paulo apresentam redução de PH, força de glúten e Falling Number, indicadores diretamente ligados à classificação e à aptidão do cereal para a produção de farinha. A instituição aponta que a menor presença de trigo tipo 1 pode elevar a necessidade de produto importado para atender ao consumo doméstico.
O problema é resultado de uma combinação que vinha sendo acompanhada nas últimas semanas. Excesso de chuva, maior umidade, ocorrência de doenças e episódios de geada atingiram diferentes regiões produtoras, enquanto a área nacional também foi reduzida diante das margens apertadas e dos riscos climáticos.
No Rio Grande do Sul, porém, ainda é cedo para afirmar que o mesmo problema de qualidade observado no Paraná e em São Paulo já chegou aos lotes comerciais.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta terça-feira (22), o diretor técnico da Emater/RS, Mateus Rocha, destacou que a colheita gaúcha ainda ocorre de forma muito pontual. Na região de Santa Rosa, menos de 1% havia sido retirado das lavouras, enquanto aproximadamente 15% das áreas estavam em maturação. Em municípios mais adiantados, como Porto Xavier e Doutor Maurício Cardoso, a colheita chegava a cerca de 4%.
O maior desafio agora é encontrar uma janela de tempo firme
“Tivemos muita chuva até o dia 21 e há previsão para esta semana. Existe a necessidade de um tempo firme para que a cultura atinja um ponto adequado de colheita, mas também para que a maquinaria consiga entrar nas lavouras”, afirmou.
Rocha lembra que muitas lavouras já estão próximas do ponto de retirada e que permanecer no campo por mais tempo aumenta a exposição ao clima justamente na etapa final do ciclo.
“O produtor tem sempre aquela máxima de que produto garantido é produto estocado. Precisamos evoluir com a colheita, à medida que as lavouras vão ficando prontas, para evitar perdas neste momento final”, destacou.
A desuniformidade no desenvolvimento é uma das marcas desta safra gaúcha. O plantio ocorreu em diferentes momentos diante das condições climáticas ao longo da implantação, fazendo com que áreas de uma mesma região chegassem à reta final do ciclo em estágios distintos.
Do ponto de vista sanitário, oídio e giberela foram observados com maior frequência devido ao ambiente úmido. Segundo Rocha, porém, os problemas vêm sendo controlados pelos produtores e, até agora, não representam uma situação fora do esperado para uma temporada mais úmida.
IMPORTAÇÃO GANHA AINDA MAIS IMPORTÂNCIA
A discussão sobre qualidade ocorre em uma safra brasileira que já seria menor mesmo antes dos problemas mais recentes.
A Conab projeta produção de 5,8 milhões de toneladas de trigo em 2026, refletindo uma redução de 20,4% na área plantada. Para o ciclo comercial 2026/27, a estatal estima importações de 7,103 milhões de toneladas, volume mais de 20% superior ao da temporada anterior e próximo do maior nível registrado pelo país em duas décadas.
A Argentina deverá novamente assumir papel central nesse abastecimento, especialmente com a chegada da nova safra do país vizinho ao mercado no final do ano.
A disponibilidade argentina, entretanto, passou a ser acompanhada também pelo aumento da procura de outros compradores.
No início de setembro, Raphael Bulascoschi, analista de mercado da StoneX, destacou ao Notícias Agrícolas que a redução do fluxo de trigo pelo Mar Negro vinha levando importadores internacionais a buscar outras origens, especialmente Argentina e Austrália. Na avaliação apresentada naquele momento, uma maior disputa pelo produto argentino poderia elevar a paridade de importação para o Brasil.
O cenário, porém, não significa que uma alta mais forte do trigo importado esteja definida.
Rocha destacou nesta terça-feira que a Argentina colheu uma safra volumosa e avaliou que o mercado externo permanece abastecido, reduzindo, em sua leitura, a possibilidade de mudanças expressivas nos preços apenas pela disponibilidade de produto.
Essa combinação passa a ser uma das principais variáveis a acompanhar nos próximos meses: quanto trigo brasileiro conseguirá atingir padrão adequado para panificação e a que preço a indústria encontrará no mercado externo o volume necessário para complementar a oferta doméstica.
Para o produtor, a diferença entre quantidade produzida e qualidade entregue também tende a ganhar peso. Em um cenário de menor disponibilidade de trigo tipo 1, lotes que mantenham PH, força de glúten e demais parâmetros exigidos pela indústria podem encontrar valorização relativa, enquanto grãos de classificação inferior ficam mais expostos a descontos.
Para os moinhos, a questão será inversa: saber quanto da safra doméstica poderá efetivamente entrar na produção de farinha e quanto precisará ser substituído por produto argentino ou de outras origens.
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