Rio: Um ano após tragédia, agricultores cobram reconstrução de estradas

Publicado em 30/12/2011 06:34 239 exibições
 Quase um ano depois do desastre ambiental que devastou grande parte da região serrana do Rio de Janeiro, os produtores rurais dos sete municípios mais afetados pelas chuvas ainda sofrem com a destruição das estradas. De acordo com balanço do governo do estado, mais de 915 quilômetros de estradas foram recuperados neste período. Mas a ação parece não ter surtido efeito para alguns agricultores.

Produtor familiar de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, Leonardo Costa ainda lamenta as perdas do início do ano, guardadas na memória. “Perdi 15 toneladas de feijão-de-vara, 20 mil pés de couve, pepinos. Muitas estradas que davam acesso às lavouras caíram”, relata.

Segundo ele, a recuperação dessas vias de acesso não ocorreu ainda na sede do distrito caracterizado principalmente pelo turismo rural. “Na minha região ainda não tem nada recuperado. Na estrada que liga São Pedro a Friburgo, o asfalto está tão ruim que, esses dias, plantaram um pé de banana na via, como protesto. A gente tem que entrar na contramão para sair do buraco”, descreve o agricultor. “Atrapalha no transporte da carga. O produto não vai chegar à cidade com a mesma qualidade com que saiu do campo”, completa.

Esta semana, representantes do governo estadual foram à região para garantir aos produtores que essa é a recuperação de estradas é uma prioridade para o próximo ano. “Tivemos um trabalho emergencial e agora estamos em um trabalho de reconstrução. [Somados os investimentos feitos em 2011 e os previstos para 2012], teremos aplicado R$ 70 milhões na zona rural, em estradas e recuperação de mais de 1,5 mil propriedades rurais. Não é empréstimo, é recurso a fundo perdido”, explica o secretário estadual de Agricultura, Christino Áureo.

O secretário lembra que as chuvas de janeiro deixaram mais de 900 barreiras em vias de acesso e 124, em vias internas. Segundo o levantamento, 3 mil hectares de lavoura foram prejudicados. Em 1,5 mil hectares, houve perda da plantação. Algumas áreas foram totalmente devastadas, inutilizando, em parte delas, inclusive o subsolo.

Considerando o cenário original, o secretário comemorou os resultados do que chamou de persistência dos trabalhadores e apoio de autoridades e organismos internacionais. Segundo ele, mesmo diante da tragédia, a região serrana não apenas conseguiu manter sua participação de 29% no Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário do estado, como também ampliou os resultados. “Fechamos o balanço da produção de 2011 e conseguimos superar em 5% o total da produção de 2010, mostrando que o produtor soube superar as dificuldades”, acrescentou.

As contas, no entanto, não fecham para Emanuel da Silva, agricultor familiar há 40 anos, que mantém uma propriedade no município de Sumidouro, com a mulher, a filha e mais dois produtores. “Este ano, produzi menos. A terra desceu toda. Esta semana eu coveei [abri covas para a plantação] a terra três vezes. A gente coveia a terra, vem a chuva e carrega tudo de novo. Não tem como plantar.”

O agricultor ainda se assusta com a lembrança do mês de janeiro de 2011. “Foi a pior coisa que aconteceu nos últimos 60 anos, como falam. Só perto da minha casa morreram seis pessoas, tem propriedade muito difícil de recuperar. Eu perdi minha casa também e, por enquanto, não consegui recuperar. Está tudo carente de novo, as estradas estão ruins de novo”, lamentou Silva. “Estamos precisando de alguém que vá lá para ver. Recuperaram só a estrada principal, mas, a estrada da lavoura estão largando de lado e [isso] está prejudicando porque a gente tem que pagar trator para limpar as estradas”.

As perdas também entram nas contas de outros produtores que estão a alguns quilômetros de Emanuel. No assentamento de Serra Nova, criado no final de 2002, em Friburgo, as 22 famílias cadastradas ainda calculam os prejuízos com as chuvas.

“Todo ano tem uma perda, mas este ano a perda foi em torno de 70%. Abobrinha, por exemplo, plantei 4 mil pés e colhi 500, porque o resto desceu tudo com a chuva”, conta Hélio Muniz Cardoso, um dos produtores locais. Ele diz que não conseguiu tempo para montar um projeto para que fosse um dos 1,1 mil beneficiários do programa Rio Rural Emergencial este ano. Apesar disso, tomou um empréstimo, em uma linha também emergencial, no valor de R$ 2 mil, que garantiu o plantio e a colheita de cenoura, beterraba e ervilha, depois da tragédia.

Para o agricultor, os prejuízos só não foram maiores porque sua propriedade é uma das que integram um programa do governo federal que garante a compra de parte da lavoura de pequenos produtores com destino à doação. Ainda assim, Cardoso vive, todos os verões, em alerta. “Todo ano é aquela agonia. Semana passada mesmo choveu e pensei que tivesse perdido tudo. Mas não estragou muito não. Até março a gente corre o risco. Planta e não sabe se colhe”, lamenta.
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Agência Brasil

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