Entrevista com Ivo Marcos Carraro: A revolução das sementes

Publicado em 22/02/2012 05:20 922 exibições
O engenheiro agrônomo Ivo Marcos Carraro, doutor em Ciência e Tecnologia de Sementes, é diretor Executivo da Coodetec, com sede em Cascavel. Fonte: Revista SindiRural de Cascavel (PR)

Nos últimos 10 anos, a produção de sementes de soja e milho passou por um processo de mudanças extraordinário. Foi uma verdadeira revolução, que incluiu o advento dos transgênicos, uma nova arquitetura de plantas, alteração na época de plantio, redução no ciclo de cultivo e consideráveis ganhos em produtividade.

“As inovações promovidas pela pesquisa foram responsáveis pelo elevado grau de competitividade da agricultura brasileira e um salto na produção de grãos”, afirma o engenheiro agrônomo Ivo Marcos Carraro, doutor em Ciência e Tecnologia de Sementes, diretor Executivo da Coodetec, com sede em Cascavel.

Em entrevista à SindiRural, ele diz que as necessidades dos produtores rurais sofreram mudanças radicais em curto espaço de tempo. “E o atendimento dessas demandas exige um trabalho intenso na área de melhoramento de sementes, implicando até na formação de novo banco genético”, conta.

Carraro avalia ainda possibilidades de novos avanços em produtividade e comenta sobre o novo cenário no mercado brasileiro de produção de sementes, com forte avanço de grupos multinacionais. Fala também sobre a pesquisa desenvolvida pela Coodetec e as dificuldades na triticultura nacional.

Que análise faz sobre a contribuição da pesquisa de sementes, na produção agrícola?
Carraro – Há 10 anos, a produção brasileira era de 90 milhões de toneladas. Hoje está em 160 milhões. Em uma década, a área cultivada cresceu 21% e a produção avançou 78%. A principal contribuição foi, portanto, da produtividade. É resultado da pesquisa de empresas nacionais, públicas e privadas, e multinacionais. Mesmo com estiagem, hoje se colhe até 110 sacas de soja por alqueire. Nos anos 1990, não passaria de 60. O produtor nacional estaria fora do mercado sem os ganhos que tivemos em produtividade.

Há reconhecimento desse benefício?
Carraro – Um número mínimo de produtores usa semente salva pensando na sua economia. Tem o direito. Mas a maneira mais correta para justificar a pressão por materiais cada vez com maior produtividade é a utilização de semente legal. A maioria dos produtores valoriza a pesquisa. O royalty é o dinheiro mais bem investido. Ele retorna em forma de produtividade.

A dificuldade é medir esse ganho...
Carraro – É só pegar um histórico: se não tivéssemos a lei de proteção de cultivares no Brasil, com certeza estávamos na faixa de 100 milhões de toneladas. A produção cresceu e vai crescer mais como consequência desta lei. Ela começou a vigorar em 1997, contribuindo para que as empresas encontrassem segurança em seus investimentos em tecnologia.

Como têm se comportado as demandas do produtor que dependem de resposta da pesquisa?
Carraro – A soja passou por uma grande revolução. Nunca houve tantas mudanças na preferência do produtor, como nos últimos 5 anos. Surgiram novas necessidades em relação a diversas características da planta. Foi preciso construir um novo banco genético, para, a partir dele, continuar atendendo a principal demanda do agricultor, que é mais produtividade. Não existe um gene de produtividade. Ela é determinada por uma complexa interação de genes favoráveis. Depende de seleção, portanto, requer tempo.

Quais são essas novas necessidades?
Carraro – O agricultor adota a segunda safra de milho há uns 20 anos, sempre como uma atividade menos importante. Só que isso vem mudando: a safrinha hoje é um safrão. E, para ter segurança no investimento, é preciso plantar mais cedo, reduzindo risco de geada. Para isso, o produtor quer cultivar, na safra de verão, variedade de soja mais precoce, para colher antes. Muda época de plantio, tipo de planta e de crescimento indeterminado. Isso mexe com a produtividade. Leva de 8 a 10 anos para recuperar um estoque genético com potencial como o anterior.

Inclusive a arquitetura da planta passou por mudança?
Carraro – Até recentemente, o produtor queria uma planta de soja exuberante, para cobrir o solo rapidamente e evitar o crescimento de erva daninha. Mas, com o advento da RR, esse problema foi resolvido com glifosato. Ao mesmo tempo, passou a ser importante planta menos folhuda e ereta, para que o fungicida aplicado no combate à ferrugem, penetre melhor. Outra coisa que mudou é o padrão de resistência ao acamamento, que significava apenas não tocar os galhos no chão. Hoje, a planta tem de ficar 100% em pé.

Como a Coodetec adaptou a sua pesquisa a essa nova realidade?
Carraro – Começamos essas mudanças em 2002/2003. Antes mesmo da aprovação oficial da soja transgênica, quando notamos certo encanto pelas sojas trazidas ilegalmente da Argentina. Foi um material que chegou pronto e se adaptou. Passamos a buscar essas características, no mundo inteiro. Desenvolvimento genético não se tira da cartola. Precisa-se de tempo. Na soja, a partir da safra 2010/11, aumentamos gradualmente a nossa oferta de variedades com as novas características que o agricultor deseja.

E como estão sendo os resultados?
Carraro – Voltamos à concorrência. Já disponibilizamos produtos como a soja CD 250RR, lançada no ano passado. Teve agricultor que plantou no dia 5 de setembro e colheu antes do Natal. Veja o potencial que tem de antecipação. E sem perder produtividade.

Qual é o cenário hoje no segmento de pesquisa de sementes no País?
Carraro – Para crescer, muitas empresas de pesquisa têm comprado outras. O País virou uma espécie de cesta de negócios. Várias brasileiras foram adquiridas por grupos estrangeiros. Para fazer um contraponto, um equilíbrio nesse mercado, restaram poucas nacionais: Embrapa, alguns institutos e cooperativas.

A Coodetec, uma delas, como está organizada e estruturada?
Carraro – Somos uma central de pesquisa agrícola com 500 funcionários, composta por 33 cooperativas brasileiras. São 27 do Paraná e 6 do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Goiás, que têm mais de 185 mil produtores rurais associados. A sede fica em Cascavel e há ainda unidades de pesquisa em Palotina, Goioerê, Rio Verde (Goiás) e Primavera do Leste (Mato Grosso). Além disso, temos 9 áreas onde fazemos seleção e mais de 100 locais, no Brasil e Paraguai, onde os testes regionais de adaptação e produtividade.

O que representa essa iniciativa?
Carraro – É um bom exemplo de integração das cooperativas de produção, na promoção do desenvolvimento tecnológico. A central surgiu há quase 40 anos, em 1974, para não deixar o setor totalmente dependente de governo ou de empresas privadas. Como diz o nosso presidente, Irineo da Costa Rodrigues, “trata-se de uma trincheira do produtor”.

A pesquisa é desenvolvida com que recursos tecnológicos?
Carraro – Há 10 anos, a Coodetec migrou para uma integração do melhoramento genético clássico, que é mais a campo, com a biotecnologia, que não significa apenas transgenia. São muitas as técnicas como a de seleção assistida, por marcadores moleculares, utilizadas pelos programas mais modernos do mundo. E nós seguimos em linha com esses laboratórios.

No mercado de sementes, que posição a Coodetec ocupa?
Carraro – No trigo, a fatia do mercado é de 23%. Na soja, com as variedades transgênicas chegamos a 28%, hoje estamos com 11%. No milho, em 2011, voltamos a superar os 5% e, nesta safrinha, deveremos chegar a 7%. Na produção de sementes deste cereal, a Coodetec é principal empresa nacional. Ocupa o quinto lugar, logo depois de 4 grandes grupos multinacionais.

Com o advento dos transgênicos, as multinacionais dominaram o mercado?
Carraro – Na soja, mais de 60% da oferta de sementes no País é feita por grupos estrangeiros. No milho, 90%. E o motivo não é outro senão o alto padrão tecnológico, o que ajudou a melhorar a média da produtividade nacional. As multinacionais trabalham com um banco de germoplasma diversificado, o que representa chances maiores de ganhar rapidamente produtividade. Promovem intercâmbio de grupos heteróticos, entre as diversas unidades que possuem no mundo todo.

A Coodetec encara como essa concorrência?
Carraro – Em 2003, ainda não se falava em milho transgênico, e já se via um movimento muito grande das multinacionais, através de compra de empresas e montagem de processo de melhoramento de sementes. Imediatamente fizemos parcerias fora do Brasil, para intercâmbio, que contribuíram para o desenvolvimento de nossa genética. Também fomos ativos, quando apareceram os transgênicos, em estabelecer parcerias nessa área. Hoje temos liberação da Monsanto e Dow, para usar em nossos híbridos, materiais que conferem resistência a pragas.

Quais as possibilidades de recuperação do mercado?
Carraro – Passamos a dispor de híbridos de milho transgênicos em 2010. Em 2011, elevamos o volume de sementes. Temos o CD 384 Hx, que é Bt, em parceria com a Dow. E estão vindo outros com superprecocidade. A Coodetec voltou novamente para o mercado de milho, com mais alternativas dentro daquilo que o agricultor quer, que é o milho Bt e as novas tecnologias que virão pela frente. A expectativa é conquistar 1% do mercado a cada ano.

E na soja?
Carraro – Sofremos um pouco por 2 ou 3 anos, com a entrada de material argentino, mas estamos recuperando espaço. Hoje, início de 2012, temos no mercado materiais com crescimento indeterminado, potencial produtivo, resistência ao acamamento e folhagem menos exuberante. É o tipo de planta que o produtor quer e que permite também antecipação, por ser de ciclo mais curto. Podemos dizer que a Coodetec volta para o jogo. Em 2011, lançamos a cultivar CD 250RR e para este ano chegam as cultivares CD 2585RR, com ciclo similar ao da Apolo, e a 2630RR, que tem ciclo um pouco mais longo e ótimo potencial produtivo.

Voltando a questão produtividade, que possibilidade de crescimento visualiza?
Carraro – Na soja, a produtividade média brasileira é parecida com a americana. Essa cultura está no limite. O seu ganho nos últimos 10 anos foi de 16%: 1,6% ao ano, um bom ganho genético. Para que se dê um salto, é necessário o surgimento de algum evento transgênico novo. No manejo, está se trabalhando com a tolerância à seca e ao frio. Temos que descobrir fatores que afetam a cultura e ir eliminando eles.

No milho, o espaço para crescer é mais evidente?
Carraro – A produtividade média nacional de milho cresceu 60%, no mesmo período de 10 anos. Ainda assim, nos Estados Unidos, ela é 3 vezes maior: 12 mil quilos por hectare, contra 4 mil quilos no Brasil. Portanto, temos muito espaço para incrementar.

Porque esta distância em relação à média dos EUA?
Carraro – Genética aqui existe. Temos muitos agricultores produzindo milho na mesma faixa dos norte-americanos. A média brasileira é baixa porque muitos usam técnicas rudimentares. Não investem. Temos regiões que, embora o produtor utilize sementes de genética alta, o solo dele não está bem preparado e/ou corrigido de acordo.

O que diz a quem demonstra preocupação com transgênicos?
Carraro – São totalmente seguros. São cultivados há 20 anos no mundo e não há relato sobre danos à saúde e ao meio ambiente. Em 2050, teremos 9 bilhões de habitantes no Planeta, e os transgênicos podem dar uma contribuição decisiva para alimentar tanta gente. É indispensável para avançar ainda mais rápido em produtividade, para reduzir a exigência de abertura de novas áreas.

E no trigo, como anda a pesquisa?
Carraro – Temos pesquisa de novas variedades sobrando. No Brasil, 4 empresas têm participação forte no setor: Embrapa, Coodetec, Fundacep e a empresa privada OR. Em breve podem entrar outras empresas, principalmente da Argentina e Europa. Multinacionais não se interessam no Brasil, porque a área aqui é pequena: 2 milhões de hectares. A Coodetec se mantém na pesquisa porque as cooperativas vêem o trigo como estratégico, embora não dê o retorno esperado pelo agricultor.

Em julho vigoram novas normas sobre qualidade do trigo. Existe variedade para atender a essas exigências?
Carraro – A pesquisa está 10 anos à frente destas novas exigências. Há trigo de qualidade. O que acontece são problemas estruturais. Um deles é a dificuldade de segregação. O trigo tem uma variação muito grande de tipos. Com os preços que são praticados, a segregação não compensa. Se colocar todos os tipos na mesma moega, no fim vai ficar um conjunto de péssima qualidade. Embora tenha ali dentro componentes de excelentes qualidades individuais.

O que acontece com o setor do trigo?
Carraro – O governo simplesmente não quer uma triticultura forte. Há tecnologia para o Brasil ser exportador do cereal. Muita terra fica sem cultivo no inverno. E existe um cartel muito forte de moinhos. Meia dúzia manipula mais do que o governo, a política nacional do trigo. Quando acontece a colheita, ninguém quer comprar, desvalorizando o produto. O governo oferece PEPs, mas isso não é suficiente. São medidas paliativas e o trigo segue na incerteza.

Fonte: Revista SindiRural

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Revista Sind.Rural Cascavel (PR)

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