A crise da Embrapa, por RODRIGO LARA MESQUITA

Publicado em 11/08/2012 08:27 1762 exibições
RODRIGO LARA MESQUITA, jornalista. Twitter: @rmesquita - O Estado de S.Paulo

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tornou produtiva a terra ácida e arenosa do cerrado brasileiro. Esse milagre tem grandes chances de se repetir na África, com seus quase 400 milhões de hectares de savana. Como dizem e pedem os africanos: temos sol, água e terras. Falta a Embrapa! 

Mas essa admiração conquistada pela Embrapa, aqui e no exterior, está em risco. A empresa perdeu foco e orientação estratégica nos últimos anos. A Embrapa está em crise, deixando sem resposta problemas graves da agricultura brasileira. 

Em 1973, quando foi criada a Embrapa, o País vivia a década do milagre econômico, mas era importador de alimentos. Os investimentos feitos na época em infraestrutura de transportes, comunicações e armazenamento pelo governo federal começaram a promover uma mudança na exploração agrícola. 

Com estrutura física modesta, alguns veículos, poucos implementos e muita vontade, os pioneiros da empresa que nascia formaram as equipes de trabalho. Mais de mil jovens pesquisadores foram enviados às melhores universidades da Europa e dos EUA para mestrados e doutorados, num dos maiores programas de capacitação em pesquisa já realizados no Brasil. 

Do nascimento da Embrapa aos dias de hoje, tornamo-nos uma potência agrícola. A sexta economia do mundo tem no agronegócio 25% de toda a riqueza gerada no País. Somos os maiores produtores mundiais de soja, milho, café, suco de laranja e etanol. E os maiores exportadores de carne bovina. 

A tecnologia da Embrapa e parceiros tropicalizou a produção de soja e levou o grão do Sul para o Nordeste, o Centro-Oeste e até para os Estados do Maranhão, Piauí e Tocantins, a novíssima fronteira agrícola brasileira. Uma reinvenção da agricultura tropical, com formidáveis conquistas em produtividade e conservação de solos. 

Hoje, nos 47 centros de pesquisa em todo o Brasil, que contribuíram para esse processo, aparecem sinais de fadiga. Muitos não acompanham o desenvolvimento tecnológico de produtos aos quais estão ligados. A contribuição para as sementes melhoradas caiu vertiginosamente. Cerca de 70% a 80% da soja, 60% do milho e 80% do algodão vêm de programas de melhoramento genético privado. Empresários do meio rural cada vez mais buscam soluções e inovações em outros países. Na outra ponta, a Embrapa parece abandonar seus programas voltados para a pequena agricultura e o combate à miséria no campo. 

A omissão da Embrapa no debate do Código Florestal é outro exemplo. Os impactos da implantação das áreas de proteção permanente em beiras de rios deveriam ter sido pesquisados pela empresa nos últimos anos para apresentar respostas técnicas às demandas do Legislativo e da sociedade, antes da votação da matéria. Houve omissão e censura científica. Pesquisadores foram proibidos de se manifestar sobre o tema em nota da direção da Empresa, assunto denunciado publicamente durante a Rio+20. 

A falta de transparência da atual gestão é mais um problema. Nos últimos três anos criou-se na Embrapa uma nova estrutura para gestão de projetos internacionais de cooperação, as plataformas Africa-Brazil Marketplace e Latin America-Caribe Marketplace, com recursos do Banco Mundial, do Fórum para Pesquisa Agrícola na África e da Fundação Bill & Melinda Gates, entre outras instituições. 

O Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, que centraliza os programas e projetos da Embrapa, não participa diretamente da coordenação. O montante exato de recursos captados até o momento é desconhecido e não há clareza sobre quem audita tais plataformas. 

A crise na direção da empresa, debatida pelo setor agrícola, chegou à mídia com artigos neste jornal (Os problemas da Embrapa, em 22 de março; A Embrapa perdeu o bonde, em 1.º de abril; O bonde da Embrapa, em 17 de abril) e no jornal Valor Econômico (Embrapa perde terreno na pesquisa agrícola, em 21 de março), entre outros, sem que sua diretoria apresentasse um contraponto ou sua visão sobre os problemas levantados. 

A Embrapa é uma federação de redes. Suas unidades refletem os diversos elos da agricultura e pecuária brasileira em todos os sentidos: social, econômico e político. A empresa pretende ampliar sua atuação para a África e América Latina e não tem uma atuação estruturada nas mídias sociais. Isso tanto no aspecto da interação e articulação das suas próprias células quanto na sua relação com seu mercado atual, os que pretende conquistar e o público, considerando esse contexto. Esse comportamento em relação às mídias tradicionais e digitais reflete o âmago da crise da empresa: falta de visão estratégica e menosprezo pelas demandas da sociedade. 

Acompanho a Embrapa desde o final dos anos 70. Como repórter, estive presente na implantação de alguns de seus novos centros no Nordeste e no Sudeste, tendo sido, por vários anos, membro do Conselho Assessor Externo de uma de suas unidades. 

A constatação é preocupante: a Embrapa vem perdendo sua visão estratégica e, consequentemente, seu protagonismo. Relega a obtenção de patentes e se consola com um papel de coadjuvante no desenvolvimento da agricultura brasileira, com uma pauta voltada para o socioambiental. A grande produção agrícola nacional dependerá exclusivamente da pesquisa privada? Ou, pior ainda, de programas de pesquisa da Embrapa definidos e coordenados do exterior? 

Ao longo do recente 11.º Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Abag em São Paulo, ficou evidente a ausência de referências à participação da Embrapa no enfrentamento dos desafios atuais da agricultura, apesar dos discretos, mas incisivos apelos dirigidos à sua diretoria nesse sentido. A Embrapa é um patrimônio do Brasil. A direção da empresa parece sofrer da síndrome do sapo fervido. A água está em ebulição. E o sapo continua ali, parado, sendo fervido lentamente. 

Sol, água, terra e... Embrapa! A equação africana também é verdadeira para o Brasil.


Apesar de você

Celso Ming – OESP – 10/Agosto/2012

Depois de tanta decepção com o setor produtivo, especialmente com a indústria, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho, orgulhosamente apresentou nesta quinta-feira “a maior safra agrícola de todos os tempos”.

Não era o que se esperava até há dois meses. As dez previsões, tanto do IBGE como da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), feitas até agora apontavam quebra de safra em relação à do ano anterior. No primeiro trimestre deste ano, o PIB agrícola sofreu queda de 8,5% sobre o primeiro trimestre deste ano. Agora, a lavoura nacional comparece para, uma vez mais, salvar o PIB nacional não só em produção física, mas também em valor (e renda). Os principais grãos acusam escalada de preços nos mercados internacionais de commodities.


O jogo virou. A produção de grãos deste ano, anunciada nesta quinta pelo ministro, é de 165,9 milhões de toneladas, 1,9% acima da safra anterior, “mas pode chegar aos 170 milhões de toneladas”, diz Mendes Ribeiro.

O ministro informou, ainda, que levou os novos números à presidente Dilma, “que ficou enormemente feliz”, porque, afinal, esse importante segmento do setor produtivo não está decepcionando.

As administrações do PT mantêm em relação à agropecuária uma visão carregada de ambiguidades até agora não resolvidas. O partido chegou ao governo com a visão enviesada de que esse é um setor dominado pelo agronegócio (visto como predador), pela bancada ruralista do Congresso (sempre retrógrada), pelos usineiros exploradores dos boias-frias, pelos fundiários avessos à reforma agrária e às reivindicações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Os líderes do MST, que contam com uma boa retaguarda dos governos desde 2003, não se cansaram de denunciar os responsáveis pelo que chamam de destruição da agricultura familiar, à medida que grandes empresas se empenham em espalhar monoculturas de laranja, soja, cana-de-açúcar e florestas de árvores exóticas, como de eucalipto e pinus.

Essa visão ideológica foi complementada pelo diagnóstico distorcido de alguns economistas, para os quais esse modelo agrícola tende a reconduzir o Brasil à produção de bens primários, que incorporam baixo índice de tecnologia e não se preocupam com agregar valor. Mais do que isso, entendem que o setor pretende reduzir o Brasil a um fazendão e gerar a doença holandesa que contribui para uma superoferta de dólares, que manteria o real excessivamente valorizado, e para a desindustrialização.

Em contrapartida, embora sigam contaminados por pontos de vista desse tipoos governos do PT vêm sendo obrigados a reconhecer enormes avanços tecnológicos da agricultura brasileira moderna, a imprescindível fonte de receitas em moeda estrangeira proporcionada pelas exportações de grãos, e a importância estratégica da bioenergia, sobretudo programas do biodiesel e da produção de etanol, e o enriquecimento do interior do País.

Mas não dá para falar que a agricultura venha contando com apoio firme do governo, tal qual dado a determinados setores da indústria, premiados com isenção tributária e créditos favorecidos do BNDES. Além disso, a atual política populista de achatamento de preços concorre para desestimular a produção de cana-de-açúcar. A agropecuária brasileira continua escrevendo uma história de sucessos, apesar do jogo contra.

 

CONFIRA

http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/files/2012/08/ming-safra.jpg

A tabela mostra como evoluiu a produção física da agricultura brasileira nos últimos 7 anos.

Empurrão

O desempenho da agricultura, melhor do que o esperado, deve contribuir para o aumento da procura de produtos industrializados e, assim, ajudar na recuperação da indústria. O governo Dilma continua apostando em que todo o setor produtivo apresentará comportamento bem mais favorável no segundo semestre deste ano. Até agora, essa reação não foi confirmada nem pelas estatísticas nem pelo estado de ânimo dos empresários.

 

 

 

·




(image001.jpg):
mime.php?file=40b50d4924f7d0c56198122f9db12a39_8_image001.jpg&name=(image001.jpg):
mime.php?file=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e_3_image001.jpg&name=
Tags:
Fonte:
O Estado de S. Paulo

5 comentários

  • Fernando Evenor de Brito Almeida Fortaleza - CE

    Sr. Rodrigo Lara parabens pela excelente materia sobre a embrapa. Aproveito questionamento anterior sobre o ganho no kg de cordeiro engordado gostaria de lhe pedir para lançar um desafio aoso estudiosos do Brasil... tecnicos, mestres, doutores, centro de pesquisa.... porque não divulgar semestralmente ou rotineiramente a margem liquida ou seja o ganho médio por atividade e região? isso ajudaria os produtores, projetistas a ter uma visão mais realista da atividade planejada... Explico: SE A MARGEM LIQUIDA DE UM LITRO DE LEITE MÉDIA EM 10 ANOS TEM VARIADO DE NO MÍMIMO 5 CENTAVOS E NO MÁXIMO EM 10 CENTOS POR LITRO DE LEITE PRODUZIDO... ENTÃO O PRODUTOR QUE ESTIVER QUERENDO TER UMA RENDA MENSAL DE R$10.000,00 PRODUZINDO LEITE DEVERAR TER EM MENTE QUE PRECISARIA DE UMA REBANHO LEITEIRO EM PERMANENTE LACTAÇÃO CAPAZ DE PRODUZIR 100.000 LITROS /MES OU 3.333 LITROS DIA OU QUE SIGNIFICA 166 VACAS DE 2O LITROS DIA... É SO UMA GROSSSEIRA ESTIMATIVA... É ESSE O ESPIRITO... SE INVISTO MEU TEMPO E DINHEIRO PRECISO SABER QUANTO VOU GANHAR...ABRAÇOS. PS. ESPERO QUE TENHA ME FEITO ENTENDER...

    0
  • Fernando Evenor de Brito Almeida Fortaleza - CE

    Fernando Almeida, é lamentável e muito grave o que estão fazendo com a Embrapa e por consequencia com o Brasil. A questão é a quem interessa desmantelar essa empresa? No passado conseguiram a exemplo do Ceará acabar com o Centro de pesquisa Estaduais.... agora a embrapa. Questionamento e denuncia... recentemente estive num prestigiado centro academico de uma universidade pública coletando informações sobre ovinocultura, mais precisamente a engorda de cordeiros.. conversando com os doutores e mestres no Assunto fiz a seguinte pergunta: considerando as teses, os estudos até então realizados nesse campus nos últimos anos qual a margem média liquida de um kg de ovinos na engorda ou seja quanto seria o ganho por kg engordado ? A resposta me supreendeu e me deixou triste... não sabemos...embora tenhamos levantado por diversas vezes a importancia da analise economica, de resultados financeiros fomos votos vencidos... ? então fica a pergunta .... como podemos considerar a engorda de ovinos um bom negocio... se os mestres, doutores, pesquisadores não sabem ou não querem discutir a questão..?????

    Vejam a que ponto chegamos.... e ainda querem acabar a pesquisa... Esse é o Brasil do Ufanismo Petista.

    0
  • Saulo cemin cruz alta - RS

    O que o Sr. Rodrigo não percebe que foi essa pretença agenda socioambiental que terminou de destruir a identidade da Embrapa, contando com a ação das ONGs internacionais, Marina,a luta histérica contra a transgenia e o aparelhamento da empresa pelo PT, ou seja sr. Lula, Dirceu, Dilama, etc.

    0
  • Jair Leão Júnior Rio Verde - GO

    A EMBRAPA foi passo inicial para tecnologia de produção no Cerrado, dando condições de produzirmos alimentos em terras onde se pensava ser impossível praticar a agricultura, é papel da EMBRAPA as pesquisas estratégicas de segurança alimentar!!!!!

    0
  • Ronaldo Brejauba goiania - GO

    A Embrapa tem seus méritos,mas ,me desculpe,eu acho que não é , e nem nunca foi vital para o agronegócio no País,foi o mercado e a tenacidade dos produtores que estruturaram o nosso país,sementes e variedades foram criadas também por estudos privados e esforço conjunto de empresas-produtores,a embrapa não é o herói da história.

    Quanto ao artigo do Ming,se Dilma está satisfeita com o setor,que tal perdoar as dívidas dos produtores,assim como FHC fez com os bancos na década passada ao criar o PROER.

    0