Mercado de acucar: ENCOSTADO NA PAREDE

Publicado em 10/02/2013 09:24 322 exibições
por Arnaldo Luiz Corrêa

ENCOSTADO NA PAREDE

O mercado de açúcar em NY fechou a semana em queda significativa de mais de 16 dólares por tonelada nos contratos com vencimentos mais recentes. O humor foi influenciado não apenas pelos fundamentos já tão desgastados, mas também pelas commodities de uma maneira geral que tiveram um tom desanimador. Café, milho e açúcar caíram 4% na semana. No acumulado do ano, o açúcar é a commodity que mais perdeu valor: quase 7%. 

A perspectiva da safra indiana melhorou em função de um crescente rendimento agrícola e da recuperação em algumas áreas que elevaram a estimativa de produção pra cima de 24,2 milhões de toneladas (há dois meses, falava-se em 23,5 milhões de toneladas). O otimismo em relação à safra 2013/2014 de cana no Centro Sul eleva as projeções atuais para 580-585 milhões de toneladas, o que aponta para uma produção de 35,3 milhões de toneladas de açúcar e 25 bilhões de litros de etanol. Só a Tailândia deve produzir um milhão de toneladas a menos do que o ano passado. No geral, o peso do superávit continua a coibir eventuais e tímidas recuperações de preços. “Tem muito açúcar em muitos lugares”, comenta um trader. Com negócios mornos no mercado internacional e o receio de que os preços possam cair ainda mais, “está todo mundo encostado na parede”. 

O mercado trabalha também com um volume muito alto de açúcar ainda a ser fixado para a 2013/2014. Alguns traders acreditam que apenas 35% da 2013/2014 estariam fixados. O modelo da Archer Consulting, que tem sido referência nos últimos anos pela proximidade com que tem apontado esse nível de fixação, dessa vez está divergente apontando para um volume entre 9,8 e 12,0 milhões de toneladas, ao preço médio de 19,67 centavos de dólar por libra-peso. Se estimarmos uma exportação de 24 milhões de toneladas, isso indica de 40-50% de volume já fixado. Nessa mesma época no ano passado, na safra 2012/2013, as fixações estavam entre 11,9 e 14,7 milhões de toneladas. No ano anterior, 2011/2012, entre 9,3 e 11,7 milhões de toneladas.

Os fundamentos do açúcar são fracos, como temos comentado extensivamente nesse espaço. Apenas fatores exógenos de razoável magnitude poderão mudar a trajetória de preços. Mudanças no câmbio ou na estrutura tributária do etanol (desoneração), clima e fatores macroeconômicos são os únicos que podem chacoalhar o tom baixista. No entanto, o chão do mercado parece se elevar. Dissemos no penúltimo comentário de 2012 que o chão do mercado era de 17,50 centavos de dólar por libra-peso. Esse ainda parece-nos ser um suporte importante, mantidas as condições atuais de temperatura e pressão.

Quem atendeu à Conferência de Dubai de 2010, em fevereiro, voltou mais animado com os preços. No início da safra 2010/2011 os preços mergulharam de 30,10 para 14,55 centavos de dólar por libra-peso! Em 2011, o pessoal voltou mais pessimista achando que os preços iriam cair o que acabou ocorrendo, mesmo porque o mercado atingira 36,08 no início de fevereiro (a maior alta desde novembro de 1980). No começo da safra 2011/2012 os preços chegavam a 22,81 centavos de dólar por libra-peso, uma queda de 37%. No ano passado, o tom foi baixista, mas depois da Conferência o mercado ainda fez novas altas e andou de lado até o começo da 2012/2013. Esse ano, o tom foi mais baixista com apostas de que o mercado pode ir até 14 centavos de dólar por libra-peso. Dubai não tem sido um termômetro tão infalível.

Para os consumidores industriais no mercado interno, os preços parecem convidativos para uma tomada de posição via opções aproveitando a volatilidade barata. 

O governo brasileiro seguindo firmemente o seu script de “nós-não-temos-a-menor-ideia-do-que-estamos-fazendo”, preocupado com a inflação crescente, vai se ver na dura decisão de ou aumentar juros ou valorizar a moeda. Se o dólar chegar a 1,9000 isso vai elevar o custo de produção no Centro Sul para 18,88 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos (algo como NY mais 60 pontos) e, nos atuais níveis do mercado de etanol, coloca o anidro liquidando melhor do que o açúcar de exportação para as usinas e o hidratado também negociando o equivalente ao açúcar mais prêmio. Ou seja, o mix a favor do etanol para a safra 2013/2014 deverá ficar no mínimo em 52-53%. 

Falta-me um dicionário de sinônimos de qualidade que me ajude a adjetivar apropriadamente o pensamento mesozoico do governo. Em três anos o hidratado perdeu um mercado consumidor interno de aproximadamente 8 bilhões de litros, se levarmos em consideração que em algum momento no passado o percentual de veículos flex que utilizava hidratado chegou a 62,4% contra pouco mais de 35% hoje. 

Da mesma forma que uma aeronave não cai tão-somente por um fator, mas devido a uma combinação de fatores, o avião sucroalcooleiro declara o pan-pan-pan (jargão da aviação que significa situação de emergência) em virtude de uma série de fatores também: mas os principais são a falta de transparência na formação de preços de combustíveis, a carga tributária que faz o etanol perder competitividade na maioria dos estados da federação, a teimosia do governo em deixar a gasolina sem reajuste desde 2005 minando o crescimento do setor e destruindo o valor de uma empresa do gabarito da Petrobras. Como alguns executivos do setor, acredito que os desdobramentos da má gestão na estatal do petróleo no governo Lula ainda terá desdobramentos.

Um bom Carnaval para todos

Arnaldo Luiz Corrêa

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Fonte:
Archer Consulting

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