A nova geopolítica dos alimentos, por Lester Brown

Publicado em 14/02/2013 20:55 e atualizado em 08/03/2020 17:10 10740 exibições
postado por Joao Campus, no blog www.codigoflorestal.com

A nova geopolítica dos alimentos, por Lester Brown


Os alimentos são o novo petróleo. A terra é o novo ouro. Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e propagação da fome.

Do lado da demanda, o aumento demográfico, uma crescente prosperidade e a conversão de alimentos em combustível para automóveis elevam o consumo a um grau sem precedentes.

Do lado da oferta, a extrema erosão do solo, o aumento da escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas tornam mais difícil expandir a produção. A não ser que seja possível reverter essas tendências, os preços dos alimentos continuarão subindo, e a fome continuará se propagando, derrubando o atual sistema social. É possível reverter estas tendências a tempo? Ou acaso os alimentos são o elo frágil da civilização de inícios do século XXI, em boa medida como foi em tantas civilizações anteriores, cujos vestígios arqueológicos são estudados agora? Esta redução das provisões alimentares do mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do século XX, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodução, os enormes excedentes de grãos e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos. 

Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estratégicas: grandes sobras de grãos (indo uma quantidade para o lixo ao se iniciar a nova colheita) e uma ampla superfície de terras de cultivo sem ser utilizadas, no marco de programas agrícolas estadunidenses para evitar a superprodução.

Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras ficassem ociosas. Ao contrário, quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzir.

A capacidade de produção excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de grãos. As grandes reservas de grãos amortizaram a escassez de cultivos no planeta. 

Quando as monções não chegaram à Índia, em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram a quinta parte de sua colheita de trigo ao país asiático para evitar uma fome de potencial catastrófico. E graças às abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o preço mundial dos grãos.

Quando iniciou este período de abundância alimentar, o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas. Atualmente tem 7 bilhões. Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no preço dos grãos em razão de eventos como uma seca severa na Rússia ou uma intensa onda de calor no Médio Oeste dos Estados Unidos. Entretanto, seus efeitos sobre o preço tiveram vida curta. No prazo de um ano, as coisas voltaram à normalidade. A combinação entre reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse período num dos que se gozou de maior segurança alimentar na história.

No entanto, isso não duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de grãos e os custos orçamentários, inaceitavelmente altos, fizeram que se eliminasse o programa estadunidense de reserva de terras agrícolas. Atualmente, os Estados Unidos têm algumas terras ociosas, no marco de seu Programa de Reserva para a Conservação, mas, tratam-se de solos muito susceptíveis à erosão. Acabaram-se os dias em que se contava com áreas, com potencial produtivo, prontas para produzirem rapidamente, caso fosse apresentada uma necessidade.

Agora o mundo vive apenas mirando no ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam denodados esforços para cadenciar esse acelerado crescimento da demanda, mas possuem dificuldades para isto.

A escassez de alimentos conspirou contra civilizações anteriores. A dos sumérios e dos maias foram apenas duas entre as muitas cujo declive, aparentemente, deveu-se à incursão numa vereda agrícola que era ambientalmente insustentável.

No caso dos sumérios, o aumento da salinidade do solo, em consequência de um defeito em seu sistema de irrigação, que a não ser por isso era bem planejado, terminou devastando seu sistema alimentar e, por conseguinte, sua civilização. Em relação aos maias, a erosão do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como também foi para tantas outras civilizações antigas.

A nossa também está nesse caminho. Porém, diferente dos sumérios, a agricultura moderna sofre o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. E, como os maias, também está lidando mal com a terra, gerando perdas sem precedentes do solo, a partir da erosão. 

Na atualidade, também enfrentamos tendências mais novas, como o esgotamento dos aquíferos, o estancamento nos rendimentos dos grãos, em países mais avançados, a partir do ponto de vista agrícola e do aumento da temperatura.

Neste contexto, não surpreende o fato da Organização das Nações Unidas apontar, agora, que os preços dos alimentos dobraram em relação ao período 2002-2004.

Para a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, que gastam em média 9% de suas receitas em alimentos, isto não é o maior problema. Contudo, para os consumidores que gastam entre 50 e 70% de suas receitas em comida, o fato dos preços dos alimentos dobrarem é um assunto muito sério. A propagação da fome está estreitamente ligada com a redução das reservas de grãos e aumento no preço dos alimentos.

Nas últimas décadas do século passado, a quantidade de pessoas famintas no mundo foi reduzida, caindo para 792 milhões em 1997. Depois começou a aumentar, chegando a 1 bilhão. Lamentavelmente, caso continuem fazendo as coisas como de costume, o número de pessoas que passam fome continuará crescendo.

O resultado é que para os agricultores do mundo está se tornando cada vez mais difícil cadenciar a produção, diante da crescente demanda de grãos. Os estoques mundiais de grãos diminuíram há uma década e não foi possível reverter a situação. Caso não se consiga mudar isto, o que se espera é que, com a próxima má colheita, os alimentos se encareçam, a fome se intensifique e os distúrbios vinculados à alimentação sejam propagados.

O mundo está ingressando numa era de escassez alimentar crônica, que conduz a uma intensa concorrência pelo controle da terra e dos recursos hídricos. Em outras palavras, está começando uma nova geopolítica dos alimentos.

A Verdadeira Natureza dos "Passivos Ambientais".

A insistência na aplicação do novo "código florestal' - que não é código e nem florestal - em áreas urbanas já está gerando uma imensa perda de valor de terrenos privados situados nas tais "áreas de preservação permanente" de margens de rios.  Ecólatras querem que tais áreas não sejam ocupadas mesmo quando imediatamente à montante e à jusante já a urbanização já seja um fato.

Considerada a aplicação do tal "código" em terrenos situados em  áreas urbanas ao longo de rios como o Paraíba do Sul, a regra seria de 200 metros. Trata-se de uma inútil perda de valor para o conjunto da economia, sem ganhos necessários para o meio ambiente.  Nos lugares onde tais terrenos já estão sendo inviabilizados para algum tipo de uso sensato, começam a ampliar-se as favelas.  Aí, sim, tudo pode.

Fora esse, o outro grande passivo ambiental do Brasil de hoje é, sem sombra de dúvida, o passivo criado pela péssima gestão ambiental do País.  Afinal, o MMA poderia ter alguma ideia de qual o passivo decorrente da necessidade de desapropriação de áreas privadas incorporadas a unidades de conservação!  E os governos estaduais também.  Quem sabe o IPEA se coça e inclui esses valores na conta do passivo econômico-ambiental da Nação brasileira.

Mas não - essa gente prefere manter a total falta de transparência - "accountability', em inglês - sobre os custos de desapropriação das unidades de conservação já criadas e sobre aquelas que estão em processo de criação.
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blog codigoflorestal.com

4 comentários

  • Lindalvo José Teixeira Marialva - PR

    A coisa é féia, no entanto, tem solução. No futuro teremos controle populacional do mundo e alguém terá que faze-lo, por bem ou por mal, caso contrário, todos morrerão, como os maias ou incas ou outros povos que existirão no passado. Temos que acreditar em um ser supremo e desta forma aceitaremos o futuro, caso contrário, seremos bárbaros e lutaremos até a morte.

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  • Willian Christian Dutra Querência - MT

    A questão é o seguinte:

    Esses ´´ECO LOUCOS``, GRREN PEACE e muitos outros grupos ativistas, são financiados por ong´s extrangeiras

    que estão tentando de toda forma limitar a produção de grãos no Pais, Pessoas bilionárias da Europa e USA, investe milhões de reais em organizações criminosas como

    a funai por exemplo, com intúito unico de LIMITAR NOSSA PRODUÇÃO DE GRÃOS. Imagina se com o clima favorável que temos e milhares de hectares de terras que ainda podemos plantar, não seria interessante para a Europa por exemplo que não tem mais áreas para ser plantada.

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  • Edison tarcisio holz Terra Roxa - PR

    e a petezada ainda acha que o produtor brasileiro tem que se fera não somos bandidos

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  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Interessante artigo, cujos relatos coincide com o que venho defendendo há muitos anos. Os recursos naturais são extremamente escassos e para potencializar a produção de grãos, estamos entrando numa espiral de custo tecnológico que já concorre com as receitas dos preços dos produtos agrícolas que praticamente dobraram nos últimos 5 anos. Mas, já não existe espaço para depreciação dos preços dos patamares atualmente praticados, clamados por muitos como inflacionados mas expressam a condição real dos fatores limitantes para o aumento da produção agrícola, dos custos e riscos inerentes da agricultura. É inegável o crescimento populacional e o avanço do poder aquisitivo de muitas populações carentes no eixo da Ásia, Oriente Médio e norte da África; que detonou um potencial de consumo, a partir da virada do milênio, ainda imperceptível para a grande maioria dos gestores da economia mundial. Ninguém, ainda, se preocupou que até o ano 2000, haviam estoques de produtos agrícolas para 1 ano de consumo mundial, enquanto atualmente não existe estoque para consumo para meses de 2 meses. Portanto, mesmo com o aumento considerável da produção mundial de grãos e oleaginosas na ultima década, foram consumidos quase todos os estoques de garantia a nível mundial. O mundo precisa imediatamente de aumentar substancialmente a produção agrícola, para a reconstrução dos estoques que baseados na minha experiência de 50 anos analisando o mercado mundial, não será alcançado nem nos próximos 5 anos. Portanto, não existe outra maneira de aumentar consideravelmente a produção agrícola sem pagar um preço pelos produtos capaz de oferecer renda compatível com a atividade e oferecer ganhos suficientes para que aumentem suas áreas de produção. Se criarmos um núcleo de pobreza no meio agrícola, muitas populações mundiais estarão condenadas à morte, assim como, a fome dizimou a população maia. Infelizmente ´somente uma andorinha não faz verão`...

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