A lucidez contra as ondas da boçalidade..., ou: Brincando de Revolução

Publicado em 20/06/2013 07:02 e atualizado em 20/06/2013 11:18 2388 exibições
por Rodrigo Constantino (economista), republicado pelo blog de Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Abaixo, reproduzo um excelente artigo do economista Rodrigo Constantino, que está em sua página na Internet. Leiam. Não tenho nada a acrescentar.

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Brincando de Revolução

“A raiva e o delírio destroem em uma hora mais coisas do que a prudência, o conselho, a previsão não poderiam construir em um século.” (Edmund Burke)

Não vou sucumbir à pressão das massas. É claro que eu posso estar enganado em minha análise cética sobre as manifestações, mas se eu mudar de idéia – o que não só não ocorreu ainda, como parece mais improvável agora – será por reflexões serenas na calma de minha mente, e não pelo “linchamento” das redes sociais.

Ao contrário de muitos, eu não vejo nada de “lindo” em cem mil pessoas se aglomerando nas ruas. Tal imagem me remete aos delicados anos 60, que foram resumidos por Roberto Campos da seguinte forma: “É sumamente melancólico – porém não irrealista – admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: ‘anos de chumbo’ ou ‘rios de sangue’…”

Eu confesso aos leitores: tenho medo da turba! Eu tenho medo de qualquer movimento de massas, pois massas perdem facilmente o controle. Em clima de revolta difusa, sem demandas específicas (ao contrário de “Fora Collor” ou “Diretas Já”), o ambiente é fértil para aventureiros de plantão. Um Mussolini – ou um juiz de toga preta salvador da Pátria – pode surgir para ser coroado imperador pelas massas.

Alguns celebram a ausência de liderança, se é mesmo esse o caso. Cuidado com aquilo que desejam: sem lideranças, há um vácuo que logo será preenchido. As massas vão como bóias à deriva. E sem rumo definido, não chegaremos a lugar algum desejado. Disse Gustave Le Bon sobre a psicologia das massas:

Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto.

Muito me comove a esperança de alguns liberais que pensam que o povo despertou e que será possível guiá-lo na direção do liberalismo. Não vejo isso nos protestos, nas declarações, nos gritos de revolta. Vejo uma gente indignada – e cheia de razão para tanto – mas sem compreender as causas disso, sem saber os remédios para nossos males. Que tipo de proposta decente e viável pode resultar disso?

Estamos lidando aqui com a especialidade número um das esquerdas radicais, que é incitar as massas. Assim como a década de 60 no Brasil, tivemos o famoso e lamentável Maio de 68 na França, quando apenas Raymond Aron e mais meia dúzia de seres pensantes temiam os efeitos daquela febre juvenil. A Revolução Francesa, a Revolução Bolchevique, é muito raro sair algo bom desse tipo de movimento de massas. Os instintos mais primitivos tomam conta da festa. Por isso acho importante resgatar alguns alertas de Edmund Burke em suas Reflexões sobre a Revolução em França, a precursora desses movimentos descontrolados.

Não ignoro nem os erros, nem os defeitos do governo que foi deposto na França e nem a minha natureza nem a política me levam a fazer um inventário daquilo que é um objeto natural e justo de censura. [...] Será verdadeiro, entretanto, que o governo da França estava em uma situação que não era possível fazer-se nenhuma reforma, a tal ponto que se tornou necessário destruir imediatamente todo o edifício e fazer tábua rasa do passado, pondo no seu lugar uma construção teórica nunca antes experimentada?

Não se curaria o mal se fosse decidido que não haveria mais nem monarcas, nem ministros de Estado, nem sacerdotes, nem intérpretes da lei, nem oficiais-generais, nem assembléias gerais. Os nomes podem ser mudados, mas a essência ficará sob uma forma ou outra. Não importa em que mãos ela esteja ou sob qual forma ela é denominada, mas haverá sempre na sociedade uma certa proporção de autoridade. Os homens sábios aplicarão seus remédios aos vícios e não aos nomes, às causas permanentes do mal e não aos organismos efêmeros por meios dos quais elas agem ou às formas passageiras que adotam.

Se chegam à conclusão de que os velhos governos estão falidos, usados e sem recursos e que não têm mais vigor para desempenhar seus desígnios, eles procuram aqueles que têm mais energia, e essa energia não virá de recursos novos, mas do desprezo pela justiça. As revoluções são favoráveis aos confiscos, e é impossível saber sob que nomes odiosos os próximos confiscos serão autorizados.

A sabedoria não é o censor mais severo da loucura. São as loucuras rivais que fazem as mais terríveis guerras e retiram das suas vantagens as conseqüências mais cruéis todas as vezes que elas conseguem levar o vulgar sem moderação a tomar partido nas suas brigas.

São importantes alertas feitos pelo “pai” do conservadorismo. Ele estava certo quanto aos rumos daquela revolução, que foi alimentada pela revolta difusa, pela inveja, pelo ódio. Oportunistas ou fanáticos messiânicos se apropriaram do movimento e começaram a degolar todo mundo em volta. Se a revolução é contra “tudo que está aí”, então quem é contra ela é a favor de “tudo que está aí”. Cria-se um clima de vingança, revanchismo, que é sempre muito perigoso. As partes íntimas da rainha morta foram espalhadas pelos locais públicos, eis a imagem que fica de uma turba ensandecida.

O PT tem alimentado há décadas um racha na sociedade brasileira. Desde os tempos de oposição, e depois enquanto governo (mas sempre no palanque dos demagogos e agitadores das massas), a esquerda soube apenas espalhar ódio entre diferentes grupos, segregar indivíduos com base em abstrações coletivistas, jogar uns contra os outros. Temos agora uma sociedade indignada, mas sem saber direito para onde apontar suas armas. Cansada da política, dos partidos, do Congresso, dos abusos do poder, as pessoas saem às ruas com a sensação de que é preciso “fazer algo”, mas não sabem ao certo o que ou como fazer.

E isso porque o cenário econômico começou a piorar. Imagina quando a bolha de crédito fomentada pelo governo estourar, ou se a China embicar de vez. Imagina se nossa taxa de desemprego começar a subir aceleradamente. É um cenário assustador. Alguns pensam que nada pode ser pior do que o PT, e eu quase concordo. Mas pode sim! Pode ter um PSOL messiânico, um personalismo de algum salvador da Pátria, uma junta militar tendo que reagir e assumir o poder para controlar a situação. Não desejamos nada disso! Temos que retirar o PT do poder pelas vias legais, pelas urnas, respeitando-se a ordem social e o estado de direito.

O desafio homérico de todos que não deixaram as emoções tomarem conta da razão é justamente canalizar essa revolta para algo construtivo. Mas como? Como dialogar com argumentos quando cem mil tomam as ruas e sofrem o contágio da psicologia das massas? Alguém já tentou conversar com uma torcida revoltada em um estádio de futebol? Boa sorte!

Por ser cético quanto a essa possibilidade, eu tenho mantido minha cautela e afastamento dessas manifestações. Muita gente acha que o Brasil, terra do pacato cidadão que só quer saber de carnaval, novela e futebol, precisa até mesmo de uma guerra civil para acordar. Temo que não gostem nada do gigante que vai despertar. Ele pode fazer com que essa gente morra de saudades do “homem cordial”. Não se brinca impunemente de revolução. Pensem nisso, enquanto há tempo.

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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7 comentários

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Esse pessoalzinho do Passe Livre precisa é de subsídios, como, congelar os salários dos políticos por 5 anos, e de seus parentes e amigos nomeados; criação de um quadro geral de funções no país, legitimação dos "capazes" por concurso geral, que só consinta em aumentos de salários atrelados ao crescimento do PIB e à inflação. Limitação de mandato dêles (já tem uma campanha em andamento. 1 dentro e 2 fóra, por exemplo. Controle da especulação financeira

    em mercados de futuros, verdadeira jogatina. Estruturação da nossa economia, acabando com as 2 alternativas idiotas de juros x inflação, enquanto o problema é estrutural. E sobretudo criação de empregos em larga escala e parar de dar esmolas para os inaptos.

    Gente que precisa de muleta não se sustenta.

    Acabar com com os oligopólios que dominam o país em todas as áreas. Maioridade aos criminosos menores no ato da prática e prova. Abertura de verdade do país estimulando a concorrência. Proibição de pesquisas eleitorais fajutas.Acabar com esse toma lá da cá de políticos. Voto optativo e outras coisinhas mais.

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  • gewilsom pereira mrtins cianote - PR

    nao podemos ser refem da funai,nem ver politicos enriquecendo nas costas dos trabalhadores que pagam seus impostos,professores ganharem mal,o dinheiro nao chega na saude,nao chega nas verbas designadas,tudo que a gente vai fazer e uma burocracia danada,A LEI DESSE PAIS TEM QUE SE PRA TODOS.

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  • Charles Giese Marechal Cândido Rondon - PR

    Concordo que o lugar de tirar o PT do poder é nas urnas, mesmo elas nao sendo confiáveis, mas temos certo tempo para exigir isso. E a grande questão? Que colocamos no lugar destes, que roubaram o país? Está na hora de exigir a punição imediata dessel ladroes do mensalao ja condenados, e investigar a origem da fortuna da Família Lula da Silva. Eis um bom motivo para ir pra rua todos os días!!!

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  • ELCIO XAVIER DA SILVA JUNIOR FORMOSA - GO

    Amigo, cala boca, sua opinião é no mínimo infeliz! Você é filho da agricultura, que não sofre com esse tipo de revolução, você não sabe o que é passar necessidade, tem plano de saúde, carro e casa pagos, por que você não para pra ajudar as pessoas em vez de ficar colocando essa sua opinião medíocre, faça uma boa ação, cidadão pacato igual você no seu mundinho a sociedade ta cheia, cansada, na boa, vai se ferrar!

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  • Luiz Augusto Perondi Weschenfelder Treze Tílias - SC

    Concordo em partes com a publicação.

    Concordo que não podemos deixar um outro "ilusionista" assumir a frente de uma massa que anseia por mudanças. Concordo que são as urnas que irão concretizar o anseio de nosso povo, porém digo que a ira de hoje servirá de lembrança no momento de calmaria das eleições do ano que vem.

    Que a ira de hoje, seja urbana seja agrícola, sirva ao povo como uma cicatriz de guerra, que sirva para relembrar ao povo brasileiro porque um dia no passado clamou por ordem e progresso.

    Governo falho deve ser deposto, povo que dorme com medo acorda com medo, povo que dorme com medo ao som dos clarins acorda encorajado pelo coletivo e mudado.

    Povo unido jamais será vencido....FORÇA BRASIL!...

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  • HAROLDO FAGANELLO Dourados - MS

    ...Ou seja; cautela e caldo de galinha nunca faz mal a ninguém...Concordo, temos que tirar o PT com os votos...

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  • oclecio firmiano rodrigues guaira - PR

    JÁ,PASSOU DA HORA DOS MILITARES TOMAREM O PODER E FICAREM MAIS 30 ANOS.

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