Exército derruba presidente do Egito e anuncia governo de transição

Publicado em 03/07/2013 16:55 490 exibições
por veja.com.br (+ Caio Blinder e Reinaldo Azevedo)

Mohamed Mursi não é mais presidente do Egito. O chefe do Exército, Abdel Fattah Al Sisi, anunciou a criação de um governo de transição e a convocação de eleições. Os planos anunciados preveem a suspensão temporária da Constituição, a formação de um governo tecnocrata e a transferência da administração dos assuntos de estado e da preparação de eleições presidenciais para uma Corte Constitucional. O chefe desta corte assumirá as funções do presidente. O anúncio foi recebido com festa por milhares de manifestantes que ocupavam a Praça Tahrir, no Cairo.

Entenda o caso

  1. • Na onda das revoltas árabes, egípcios iniciaram, em janeiro de 2011, uma série de protestos exigindo a saída do ditador Hosni Mubarak, há trinta anos no poder. Ele renunciou no dia 11 de fevereiro.
  2. • Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em confronto com as forças de segurança de Mubarak, que foi condenado à prisão perpétua acusado de ordenar os assassinatos.
  3. • Uma Junta Militar assumiu o poder logo após a queda do ditador e até a posse de Mohamed Mursi, eleito em junho de 2012.
  4. • Membro da organização radical islâmica Irmandade Muçulmana, Mursi ampliou os próprios poderes e acelerou a aprovação de uma Constituição de viés autoritário.
  5. • Opositores foram às ruas protestar contra o governo e pedir a renúncia de Mursi, que não conseguiu trazer estabilidade ao país nem resolver a grave crise econômica.

 

“O Exército vê que o povo egípcio está pedindo a ele para ajudá-lo, não tomar o poder ou para reinar, mas para servir ao interesse público e proteger a revolução. Essa é a mensagem que as Forças Armadas receberam de todos os cantos do Egito”, disse o general, que também é ministro da Defesa. “O discurso do presidente na noite de ontem foi contrário às aspirações e demandas do povo. Foi necessário que as Forças Armadas consultassem figuras nacionais – políticas, religiosas e da juventude – e as que responderam concordaram em um roteiro que construirá um Egito forte uma sociedade egípcia unida”.

Pouco antes do pronunciamento, a agência estatal Al Ahram afirmou que Mursi havia sido comunicado que não era mais presidente. As Forças Armadas egípcias mobilizaram tanques e soldados nas imediações do palácio presidencial, no Cairo, onde Mursi estaria entrincheirado depois do término do prazo de 48 horas estabelecido pelo Exército para que o presidente atendesse às demandas dos manifestantes que se reúnem aos milhares há uma semana pedindo sua renúncia.

Na terça-feira, o Exército vazou alguns detalhes de seu plano para o "futuro do Egito”, que incluíam eleições presidenciais, a suspensão da Constituição aprovada em dezembro passado e a dissolução do Parlamento. 

Ao mesmo tempo, centenas de milhares de pessoas estão reunidas neste momento na Praça Tahrir, em volta dos dois palácios presidenciais no Cairo, aguardando a saída de Mursi. Em sua conta no Twitter, o porta-voz da Irmandade Muçulmana, Gehad Al Haddad, disse que um golpe militar está em andamento no Egito - o Exército havia ameaçado uma intervenção militar caso Mursi não chegasse a um acordo com a oposição para partilhar poderes. “Tanques começaram a se mover nas ruas”, escreveu al Haddad.

Mobilização - As manifestações atingiram o mais alto nível de participação no último domingo, quando Mursi completou um ano no poder e milhões foram às ruas para pedir sua renúncia. Há um ano, o membro da Irmandade Muçulmana assumiu o poder, que estava nas mãos de uma Junta Militar desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro de 2001.

No período em que os militares estavam no comando do país, os manifestantes os acusavam de minar os esforços para a construção da democracia. Mas, antes mesmo de largar o poder, a junta negociava para manter alguma relevância dentro do novo governo. Mursi assumiu a Presidência, mandou para a reserva os generais mais influentes e substituiu-os por outros simpáticos à Irmandade.

30 de junho de 2012

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Mohamed Mursi toma posse após vencer as eleições presidenciais com mais de 50% dos votos, superando o general Ahmed Shafiq, último primeiro-ministro do regime de Hosni Mubarak. A revolta popular derrubou a ditadura de três décadas de Mubarak em fevereiro de 2011 e uma Junta Militar tendo à frente o chefe das Forças Armadas, Mohamed Hussein Tantawi, comandou o país até a posse de Mursi. 

 

A reação

Reagindo

Dia estranho para citar Margaret Thatcher, mas vamos lá. Certa vez, ao perguntada se era uma reacionária, a ex-primeira-ministra britânica rebateu: “Bem, existe muita coisa contra a qual reagir”. Os militares egípcios reagiram, pegando carona nos protestos contra o governo de Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana. Este governo que acabara de completar um aninho de vida se mostrou um fracasso completo para transcender sua estreita agenda ideológica-islamista e gerenciar o país.

No raciocínio um pouco maroto de muita gente, Mursi foi eleito legitimamente, mas perdeu a legitimidade ao longo de um longo primeiro ano de governo. Well, como diria Mrs. Thatcher, muita coisa contra a qual reagir. Nada é perfeito nestas transições, muito menos em um país convulsionado como o Egito. Não dá para fazer leituras muito legalistas. Nestas horas, vai que vai. E os militares e uma turba decidiram que Mursi deveria ir. Faltou paciência.

Curiosamente, a Irmandade Muçulmana, um grupo paciente, conspiratório e cauteloso, foi com sede ao pote, depois da queda de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011, quando prometera que não iria abusar de sua melhor organização na infância de uma sociedade mais aberta, que explodira com aPrimavera Árabe.

Vale lembrar que a Irmandade pegou carona com atraso nos protestos contra a ditadura Mubarak. Depois tentou manobrar os miitares e agora foi manobrada por eles. Pagou pela sofreguidão. No poder, a Irmandade foi um fracasso. No entanto, no decorrer de décadas, antes da Primavera Árabe, ela mostrou uma incrível persistência para sobreviver, ora reprimida, ora tolerada.

Vamos ver como a Irmandade Muçulmana irá reagir nas próximas horas e dias. Em tese, a organização também tem muita coisa contra a qual reagir. Tem sua base organizada, mas não tanques e a maioria do país do seu lado.

(por Caio Blinder)

 

03/07/2013

 às 6:27

Egito e as flores do mal: Quando milhares vão às ruas para pedir que o Exército dê um golpe para impedir a ditadura islâmica

APOIO – Helicópteros do Exército levando a bandeira do Egito sobrevoam a Praça Tahrir, no dia 1º de julho, durante manifestação pedindo a saída do presidente Mohamed Mursi (Foto: Suhaib Salem/Reuters)

Milhares de egípcios estão de volta à praça Tahrir. Só nesta terça-feira, houve 16 mortos. O Exército deu um ultimato ao presidente Mohamed Mursi: ou busca o diálogo e pacifica o país ou… Bem, fala-se abertamente numa intervenção. Na segunda-feira, o mundo assistiu ao, até então, inimaginável: helicópteros do Exército sobrevoavam a praça carregando bandeiras do Egito. Estavam ameaçando o povo da praça? Ao contrário: ofereciam-lhe proteção. A massa delirava e aplaudia, pedindo abertamente a intervenção dos militares. Que estranha história é essa? Nada de novo sob o sol. Vamos ver.

Uma das belezas da Internet é a disponibilidade de arquivo. Assim, vocês poderão, se tiverem um tempinho, recorrer à área de busca para saber o que andei escrevendo, ao longo do tempo, sobre “Primavera Árabe”. Deixei aqui registrado umas duzentas vezes que se tratava de uma invenção do jornalismo ocidental. Tentou-se emprestar àqueles levantes ares de revolta democrática. Pois é… Recentemente, apanhei bastante porque escrevi aqui que a Turquia, que não é árabe, era “a prova dos noves de que é impossível haver, a um só tempo, um regime islâmico e democrático”, a nãos ser que inventem feitiçarias como “democracia ileberal”, na formulação de alguns intelectuais do miolo mole. A “democracia iliberal” deve ser a irmã gêmea da “ditadura suave”…

A Turquia evidencia, assim, que o problema, obviamente, não é étnico. Não existe incompatibilidade sanguínea de árabes com o regime democrático. A questão é o Islã. Ou um estado é teocrático — ainda que exerça uma forma velada e branda da teocracia — ou é democrático. País em que o estado — e, por consequência, os cidadãos — obedecem a comandos dos que se apresentam como intérpretes da ordem divina não têm como atender às demandas plurais da sociedade nem como abrigar a divergência. Afinal, que sentido faz brigar com Deus, não é mesmo? Tanto pior se as correntes hoje influentes dessa religião convivem mal com a diferença e com a pluralidade.

A crise estava contratada. Recomendo um excelente artigo sobre a crise publicado em seu blog por Adam Garfinkle, que edita The American Interest. Ele lembra que o Exército é a única força realmente organizada do país e a mais afinada com o mundo moderno. E é assim há mais de 60 anos — ao menos desde 1952. Ora, como vamos nos esquecer — e chamei tantas vezes a atenção par isso aqui — que Hosni Mubarak foi deposto por aquilo que se poderia chamar, tecnicamente, de golpe de estado? Depois de alguns confrontos de rua (e não foram tantos assim para os padrões de uma ditadura; compare-se com a Síria…), os militares deram um chega pra lá em Mubarak e assumiram o comando, preparando, então, o terreno para as eleições.

Mursi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito, e o Exército tentou se apresentar como o condestável também do novo regime. O presidente fez de conta que aceitou, mas não demorou a destituir a cúpula da Força e a promover uma grande troca de oficiais do comando por outros simpáticos à Irmandade. E deu início — e era fatal que o fizesse porque é quem é — à chamada islamização do país. O Egito é um país esmagadoramente muçulmano, sim, mas a ditadura Mubark era laica. Garfinkle lembra que o país entrou em colapso porque a turma recrutada por Mursi não tem a menor ideia do que seja governar. Bagunça semelhante está em curso na Líbia, só que este país tem pouco mais de 6 milhões de habitantes; no Egito, eles passam dos 80 milhões.

Citando um outro autor, Garfinkle observa que a “Síndrome IBM” marca a cultura política no Egito e no mundo árabe. Ele explica. O “I” designa a palavra “inshallah”, o tomara-Deus — uma espécie de fatalismo passivo. O “B” remete a “bokr”, que quer dizer “amanhã de manhã”, ou só “amanhã”. Trata-se, diz o autor, de uma noção pré-moderna do tempo. Há uma obsessão em empurrar tudo com a barriga. O “M” remete a “Malesh”, algo como “deixa pra lá”., “ninguém se importa”, “tanto faz”… Some-se a isso um estado inteiramente aparelhado pela Irmandade Muçulmana, e está dada a receita do caos. O Exército, diz Garfinkle, é a única instituição profissionalizada do país, que não sofre da “Síndrome IBM”.

O prazo dado pelos militares a Mursi termina nesta quarta-feira. O presidente foi à televisão, disse que não renuncia, e isso correspondeu a um convite para que seus aliados, que também são muitos milhões, saiam às ruas. Muitos entenderam o chamamento como um convite à guerra civil caso as Forças Armadas, agora com o apoio dos setores laicos, deem um chega pra lá no presidente. Golpe? Pode-se dizer que sim, a exemplo daquele dado para derrubar Mubarak. “Ah, mas, agora, estariam depondo um presidente eleito.”

Chegamos ao “x” da questão. Eleição é condição necessária para que um regime seja democrático, mas não condição suficiente, como evidencia o Irã — que é uma ditadura teocrática. Mursi foi eleito com o compromisso de fazer um governo laico, respeitando as minorias. Não está cumprindo a palavra. Tentou alijar os militares do poder e acabou flertando com a bagunça.

Segundo informa AFP, o site do jornal Al-Ahram, que é ligado ao governo, afirma que os militares pretendem suspender a atual Constituição, montar um conselho presidencial composto por três pessoas, liderado pelo presidente da Suprema Corte, e convocar um grupo de especialistas para redigir uma nova Carta, que seria submetida a referendo. Essa nova Constituição levaria em conta “as necessidades dos diferentes componentes do povo”. O Exército, claro!, seria a garantia do cumprimento desses passos — na prática, seria o poder. Ao fim de um período de nove meses a um ano, marcar-se-iam, então, eleições gerais. E, saibam, o plano conta com o apoio dos movimentos que estão nas ruas contra Mursi.

Pois é… Que dispositivo haveria na nova Constituição que pudesse impedir a Irmandade Muçulmana de vencer de novo as eleições e reiniciar os esforços de islamização do país? Não sei! O que sei é que a “Primavera Árabe” resultou no inverno de Mohamed Mursi, que, tudo o mais constante, vai rivalizar com Mubarak em número de mortos. O que sei que o Exército volta a ser o protagonista da cena, agora com o apoio de milhares de civis que rejeitam uma ditadura islâmica, ainda que nascida das urnas.

Por Reinaldo Azevedo

 

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