Cenário ruim, Brasil pior... Editorial de O Estado de S.Paulo

Publicado em 10/07/2013 19:09 1148 exibições
edição desta quarta-feira, 10/7/13

Cenário ruim, Brasil pior

Editorial de O Estado de S.Paulo

O Brasil deixou de ser um gigante adormecido e tornou-se um gigante emperrado, impedido de crescer mais rapidamente pela qualidade baixa de sua política econômica. O contraste cada vez mais sensível entre a economia brasileira e a de outros países emergentes foi ressaltado mais uma vez na revisão das projeções globais do Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia mundial deverá crescer 3,1% neste ano e 3,8% no próximo - 3,3% e 4% no panorama divulgado há três meses. De novo o mundo será rebocado principalmente pelos países emergentes e em desenvolvimento, embora a expansão deste grupo (5% em 2013 e 5,4% em 2014) deva ser menor do que a projetada há três meses. A piora nas previsões para o Brasil foi bem mais acentuada, de 3% para 2,5% e de 4% para 3,2%.

Os números ainda são pouco maiores que os coletados na semana passada pelo Banco Central (BC) em consulta a cerca de uma centena de instituições financeiras e consultorias: 2,34% e 2,8%. O próprio BC já diminuiu de 3,1% para 2,7% o crescimento estimado por seus economistas para este ano.

Todos os grupos de países terão, segundo as novas contas, desempenho pior que o previsto no Panorama da Economia Mundial divulgado em abril, na reunião de primavera do FMI. Os emergentes da Ásia, incluídos China e Índia, também deverão crescer pouco menos do que se calculava. Agora se prevê para a China, a locomotiva mais dinâmica de um mundo em crise, um crescimento igual ao do ano passado, de 7,8%. A pior perspectiva continua sendo a da zona do euro: mais um ano de recessão. Agora se estima para 2013 uma contração de 0,6%, pouco menor que a do ano passado, quando o produto bruto do bloco encolheu 0,8%.

A melhor novidade no mundo rico é a recuperação, lenta, mas aparentemente firme, da economia americana, com expansão prevista de 1,7% neste ano e de 2,7% em 2014. Os dados de emprego e de investimento têm alimentado algum otimismo em relação aos Estados Unidos, apesar do aperto fiscal. Uma política mais expansionista poderia ser adotada, se governo e oposição chegassem a um acordo sobre o ritmo de ajuste da economia e sobre os critérios de cortes de gastos.

De toda forma, novos números positivos deverão funcionar como senha para o Fed, o banco central americano, iniciar a redução dos estímulos monetários ao crescimento. Nesse caso, todos terão de se ajustar a um ambiente financeiro internacional menos favorável, com menor oferta de recursos. A mera perspectiva de mudança na política do Fed já causou agitação nos mercados cambiais, com valorização do dólar e sinais de maior dificuldade para o financiamento das economias emergentes.

O Brasil já foi afetado por essas alterações no cenário financeiro. Também tem sido prejudicado, como todos os demais países, pela estagnação econômica no mundo rico e, de modo especial, pela desaceleração da economia chinesa. Mas a maior parte dos problemas do Brasil é de fabricação própria, embora o discurso oficial tenda a culpar o resto do mundo, principalmente os países ricos, pelos infortúnios brasileiros. Essa conversa, nesta altura, só pode convencer pessoas excepcionalmente mal informadas.

O Brasil, comentou nessa terça-feira o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, deve estar muito próximo de seu limite de potencial de crescimento. Nenhum número foi citado, mas vários estudiosos, tanto brasileiros quanto estrangeiros, têm apontado um limite próximo de 3%.

A economia até poderá crescer mais que isso, mas o esforço acabará resultando em desajustes mais graves - maior inflação, maior déficit nas finanças públicas e maior buraco nas contas externas. Não se evitará essa armadilha com mais estímulos ao consumo, mas com mais controle fiscal e mais investimentos - na infraestrutura e na formação de mão de obra, exemplificou Blanchard. Ele repetiu uma recomendação bem conhecida e até agora desprezada pelo governo. O custo dessa teimosia deve ser evidente para todos.

A sombra de Lula

O despudor da sugestão é chocante: o governo reduz o número de Ministérios para dar a impressão de que quer acabar com a gastança, mas deixa PT e companhia preencherem "de cima até embaixo" os cargos nos espaços que lhes couberem, na base da chamada "porteira fechada". Assim, o povo nas ruas para de reclamar da falta de austeridade do governo e a companheirada fica feliz e à vontade para gozar em paz os benefícios do poder.
 
Dilma Rousseff teve a sensatez de recusar essa maracutaia em reunião na última sexta-feira com 22 deputados do PT: "Se forem essas as concessões, não vou fazer!". Muito bem! Mas, cabe perguntar: há sinceridade nisso?

Logo nos seus primeiros meses de governo, diante de uma avalanche de denúncias de irregularidades em pelo menos seis Ministérios que, não por coincidência, eram comandados por ministros herdados de Lula, Dilma promoveu a tal "faxina" que lhe valeu índices de popularidade que nem seu antecessor conseguira alcançar. Mas a alegria durou pouco. Em nome da "governabilidade" - quer dizer, da necessidade de deixar os aliados satisfeitos a qualquer custo -, em pouco tempo a maior parte dos "faxinados" recuperou o poder de que haviam sido alijados em nome da moralidade pública.

De toda essa história podem ser extraídas duas conclusões. Primeira: é extraordinária a desfaçatez das lideranças do PT e do PMDB que levaram aquela sugestão à presidente. Segunda: se já cedeu uma vez ao fisiologismo, quando o governo ainda navegava em águas mansas e sua popularidade estava em alta, o que garante que Dilma não cederá de novo agora, quando a nau que pilota enfrenta mar crispado? Não é porque Lula, como canário na muda, anda de bico calado em público que a pupila vai ser poupada de sua "sabedoria".

A verdade é que Dilma Rousseff está diante de um dilema hamletiano: ser ou não ser (ainda) uma fiel discípula de seu mentor. Para impor um estilo de governo diferente - e divergente - daquele que seu patrono consagrou, Dilma precisaria ter, no mínimo, alguma habilidade política, algum poder de persuasão. Carisma, enfim. Não tem. Seu perfil é voluntarioso, autoritário. Lula, conciliador e tolerante, sempre teve sua liderança respeitada pelos companheiros e colaboradores. Dilma é, acima de tudo, temida. Não é à toa que o coro do "volta Lula" aumenta a cada dia, apesar do esforço de lideranças do governo e do PT para disfarçar o constrangimento.

A essa altura dos acontecimentos, por mais competente que seja o marqueteiro oficial, e por mais descaradamente atrevidos que se mostrem os mandachuvas do PT e do PMDB, não há fórmula mágica que recupere em quatro meses os altos índices de apoio popular ao governo, pela simples razão de que o povo descobriu aquilo que o carisma populista de Lula sempre soube dissimular: o governo não funciona. E continua assim sob Dilma porque o modelo de governo permanece e - ora vejam - todo mundo já percebeu que o lulismo sem Lula não funciona.

Para comandar um governo que possa chamar de seu, Dilma teria de ter a coragem de romper com a herança maldita que recebeu. Ou então entregar os pontos de vez, rendendo-se à grande obra petista - o neofisiologismo e a gestão incompetente - e à hipocrisia dos "aliados", que conhecem muito melhor do que ela as artes de manipular o poder.

A hipótese de Dilma romper com a herança lulopetista inexiste, até porque se o fizesse a presidente poderia manter o comando formal do governo, mas o perderia de vez e de fato. E a perda do comando político de fato não deixaria Dilma numa situação muito diferente daquela que enfrenta hoje, em que até a fidelidade das lideranças do PT decorre mais do dever de ofício do que de convicção genuína, pois os petistas já começam a ver ameaçado seu projeto de perpetuação no poder.

Não obstante Lula tenha decidido, com sua habitual malícia, permanecer ausente desse cenário conturbado, seu espectro paira, inamovível, sobre a realidade política brasileira. Dilma que o diga.

Tags:
Fonte:
O Estado de S. Paulo

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário