"Por que é tão difícil entender?", por Luciano Trigo (e mais...)

Publicado em 11/07/2013 19:44 e atualizado em 12/07/2013 12:03 1055 exibições
Publicado no Globo desta quinta-feira (11).

A crise que o país atravessa desde a eclosão dos primeiros protestos contra o aumento das passagens de ônibus tem três componentes articulados:

1 ─ A sociedade quer transporte, saúde e educação de qualidade, pois ela paga caro por isso, por meio dos impostos, e não recebe em troca serviços públicos à altura. Simples assim. A sociedade não pediu nas ruas reforma política, nem plebiscito para eliminar suplente de senador.

2 ─ A sociedade quer o fim da impunidade, pois está cansada de ver corruptos soltos debochando de quem é honesto, mesmo depois de condenados.
Acrescentar o adjetivo hediondo à corrupção de pouco adianta se deputados e ministros continuam usando aviões da FAB para passear e se criminosos estão soltos, alguns até ocupando cargos de liderança ou participando de comissões no Congresso.

3 ─ A sociedade quer estabilidade econômica: para a percepção do cidadão comum, os 20 centavos pesaram como mais um sinal de que a economia está saindo do controle. A percepção do aumento da inflação é crescente em todas as classes sociais; em última análise, este será o fator determinante dos rumos da crise a médio prazo, já que não há discurso ou propaganda que camufle a corrosão do poder de compra das pessoas, sobretudo daquelas recentemente incorporadas à economia formal.

Esses problemas não são de agora, nem responsabilidade exclusiva dos últimos governos. Mas o que se espera de quem está no poder é que compreenda que a melhor maneira de reconquistar o apoio perdido é dar respostas concretas e rápidas às demandas feitas nas ruas (e não a demandas que ninguém fez).

Não é isso que vem acontecendo: todas as ações da classe política parecem movidas pela tentativa de tirar proveito da situação e desenhadas para que tudo continue como está.

É bom que se diga que não são somente os políticos que espantam pela surdez diante dos gritos coletivos de irritação e impaciência, dos protestos que não têm dono nem liderança. A julgar pelo que se viu em algumas mesas da Flip, muitos intelectuais também se entregam com facilidade à tentação leviana e arrogante de transformar a crise não em oportunidade para um debate consequente, mas em pretexto para oportunistas e demagógicas tentativas de embutir suas próprias agendas secretas e pautas obscuras nas bandeiras das manifestações populares: a tal “crise de representação”, por exemplo, se transformou em escudo para as propostas mais escalafobéticas, envolvendo extinção dos partidos e uma suposta “democracia direta”.

Essa crise não será resolvida por palavras mágicas como “plebiscito” ou “reforma”, nem por manobras da velha política que fazem pouco caso da inteligência das pessoas, nem pela demonização da mídia, nem por espertezas toscas de bastidores, nem por tentativas de cooptação e de controle do movimento social, nem por frases de efeito.

As verdadeiras bandeiras da população que foi às ruas não têm nada a ver com guinadas à esquerda ou à direita, nem com palavras de ordem radicais ou fascistas, nem com a paranoia do golpismo. As verdadeiras bandeiras do grosso da população que foi às ruas têm a ver, isto sim, com um anseio urgente e definitivo por eficiência e ética na atuação de todos os políticos, de todos os partidos, de todos os poderes, de todas as esferas do poder. Aliás, todos são pagos para isso, com o nosso dinheiro.

Por que isso é tão difícil de entender?

Por Luciano Trigo

Uma crise em busca de um governo

Por José Serra

"Estou convencido de que nada é mais necessário para os homens que vivem em comunidade do que ser governados: autogovernados se possível, bem governados se tiverem sorte, mas, em qualquer caso, governados". W. Lippmann

Ninguém está exigindo da presidente da República ou mesmo do PT que façam um grande governo. Só se está pedindo que façam algum governo. Quem está no poder tem o direito de errar. E o eleitor julga. Mas não tem o direito de não governar.

Quando, em 2010, fui candidato à Presidência, sabia bem que por trás da euforia de consumo do fim do governo Lula estava o espectro de grandes dificuldades para seu sucessor, fosse quem fosse. A inusitada bonança externa que cercava a economia brasileira não se prolongaria indefinidamente. Não daria para conciliar por muito mais tempo o crescimento rápido do PIB, puxado pelo consumo, com desindustrialização e investimentos baixos. Tampouco seria possível, para uma economia de crescimento lento, manter a combinação do aumento acelerado das importações com o desempenho modesto das exportações sem que voltasse o fantasma do desequilíbrio externo.

Mesmo assim, essa estratégia foi levada adiante, sob aplausos quase unânimes. Não se enganem: um erro da magnitude do que foi cometido no Brasil não se faz sem o apoio de muita gente. Alguns colunistas, naquele ano, chegaram a lançar a tese do "risco Serra", segundo o qual eu não poderia vencer a eleição porque representaria uma ameaça - imaginem! - à estabilidade da economia...

Ora, eu procurava então advertir para o que aconteceria caso não houvesse uma mudança de rumo na gestão governamental. Não era uma questão de opinião, mas de fato econômico e de lógica. Como poderia crescer de maneira sustentada um país que tinha as menores taxas de investimentos governamentais, o câmbio mais valorizado, os maiores juros do mundo e a maior carga tributária entre os países emergentes? Todos sabem que, para mim, a política consiste em ampliar os limites conhecidos do possível. Já os que insistem, na vida pública, em ampliar os limites comprovados do impossível estão apenas jogando com a sorte alheia.

Não se trata agora de ser engenheiro de obra feita. Algumas das atuais dificuldades estavam mesmo escritas na estrela do PT. Mas o encantamento basbaque com as circunstâncias da economia, que não tinham como perdurar, tornou o novo governo impermeável à realidade. Não vou dizer que ele ficou cego e surdo, porque as pessoas com essas problemas desenvolvem outras faculdades para perceber o que vai à sua volta.

O mal do governo foi mesmo a arrogância e, não sei em que medida, a ignorância, somada a uma excepcional inaptidão executiva. Tudo amenizado pela boa vontade até da oposição. O marketing e a publicidade exacerbados se encarregaram de inflar resultados e expectativas.

Foi assim que o governo navegou sem rumo durante a primeira metade do mandato, sem chegar a lugar nenhum, como é típico de quem não sabe para onde vai. No início da segunda metade veio o estalo criativo: definir um rumo não para o Brasil, mas para o PT, com a antecipação da campanha eleitoral de 2014. Ou seja, não sabiam o que fazer com o Brasil, mas sabiam o que queriam para si: levar o País a se engalfinhar na luta político-partidária e desviar a atenção dos problemas e frustrações, confundindo promessas com realizações.

Mas o ciclo econômico lulopetista chegou a fim: lento crescimento da economia, desaceleração do consumo e da criação de empregos e aumento da inflação. As pessoas vão-se dando conta das ilusões vendidas nestes últimos 11 anos nas áreas de saúde, educação, transportes - e mesmo na moralização da vida pública. Quando as ruas pedem "hospitais e escolas padrão Fifa", estão a exigir efetividade nas politicas públicas. Eis que surge, então, a líder insegura, incapaz de lidar com as expectativas das ruas e do empresariado.

Longe de mim reduzir as manifestações apenas a essa reversão do quadro econômico. Mas é fato que elas não ocorrem no vazio. Uma faísca é inócua se produzida ao ar livre; se, no entanto, em meio a barris de pólvora... Os protestos serviram para evidenciar a todos que o governo não governa, que lhe falta a faculdade fundamental de atuar para diminuir o tamanho das crises. Ela e seus maus conselheiros fizeram o contrário.

A Nação assistiu, então, a uma presidente desorientada. Sua primeira reação foi deslocar-se para São Paulo à procura das luzes de Lula, seu criador. Em companhia da chefe da Nação, seu marqueteiro... Seguiram-se duas falas desconexas em redes nacionais, em tom de campanha eleitoral. O País esperava que ela transmitisse segurança, compreensão, disposição e liderança. Em vez disso, promessas vagas e a ideia de transformar os médicos brasileiros na caveira de burro dos problemas da saúde. Contra as evidências, a presidente até negou que o governo injete dinheiro público a fundo perdido na Copa do Mundo.

No auge da alienação, foi proposto instaurar uma Assembleia Constituinte só para a reforma política e, posteriormente, de se fazerem mudanças na legislação político-eleitoral via plebiscitos. Algo espantoso: a presidente e seus assessores mais próximos não tinham lido a Constituição. O Planalto tentava responder à crise que está nas ruas demonizando o Congresso Nacional e propondo saídas inconstitucionais.

Dilma passou dois anos envolta pela "bolha de Brasília", conferindo-se ares de majestade, impermeável à realidade. Mas essa bolha estourou, como evidenciou o cerco aos três Poderes. E pasmem: não obstante a voz clara das ruas e a voz rouca da economia sob estagflação, o governo ainda encontrou tempo para reiterar o bilionário e inútil trem-bala, o mais alucinado projeto da era petista e não petista.

Um governo não tem o direito de não governar. E o atual passou a ser governado pelos fatos. A presidente não conduz, mas é conduzida.

* José Serra é ex-prefeito e ex-governador de São Paulo. 

A era da incompetência e demagogia acabou

Por Giuseppe Tropi Somma

A inteligência nacional passou da intolerância para a exigência

Aparentemente nunca se lutou tanto por tão pouco. As tarifas de ônibus baixaram! Mas se ficassem com o aumento seria a mesma coisa.  Na verdade, a tarifa de ônibus foi usada como uma “gota d´água” para começar um movimento popular.  O valor da tarifa é o que menos importa.

Ele serviu para que o povo ingênuo, da ignorância nacional, aquele que gera o voto de cabresto, se sentisse protegido pelo movimento e não deixasse espaços para demagogos virem a público declarar que tudo isso não passaria de coisa da elite nacional, do capitalismo escravizador etc. 

O pequeno grupo de estudantes que iniciou o movimento, sem querer, acertou na mosca. Eles jamais imaginaram que estavam abrindo a tampa de uma gigantesca panela que estava pronta para explodir. Os movimentos de protesto tiveram tamanho e expansão nunca vistos neste país.

Mas o Brasil da revolta não é apenas isso; o que vimos não representa nem 5% do Brasil indignado e ao mesmo tempo tolerante.Hoje os movimentos serviram para que os políticos colocassem o “rabo entre as pernas”, acuassem e entendessem que “povo” não é composto só de favelados, bolsa-família e ignorância nacional; “povo” é, acima de tudo, este Brasil quieto, tolerante, inteligente e propulsor, que representa 90% da população.  

Mas tolerância tem limite. Por isso, queridos políticos, basta!Comecem a ouvir este Brasil real e passem a mudar o conceito de governar. O governo precisa voltar a trabalhar para o povo (como antigamente) e não exigir que o povo continue a trabalhar exclusivamente para o governo.Exigir tanto da sociedade sem dar quase nada em troca não é coisa de sociedade civilizada.Para nós é muito pior do que ser dominado pelas Farc.

Muitos leitores e amigos me perguntam o que eu acho dessa situação explosiva. Ora, mesmo não sendo um guru, posso afirmar que, por enquanto, quase nada mudará, porque o buraco é muito mais embaixo. Mas o importante é começar. Desde já podemos afirmar que a nossa história dividirá o Brasil em “antes e depois do despertar de junho de 2013”.

A partir de agora nossos políticos prestarão muito mais atenção à voz do cidadão consciente do que à classe inconsciente que sempre foi usada como voto de cabresto. Sem esquecer que essa classe dos mais humildes, hoje, graças aos meios de comunicação, da mídia, da internet e das redes sociais, é muito bem informada.Não obstante, como já me referi em textos anteriores, todas essas manifestações sozinhas não resolverão nosso problema.

As várias promessas da presidenta Dilma nada acrescentaram de bom, a não ser o uso da velha terapia anestésica chamada “me engana que eu gosto!”. A meu ver, a presidenta, quando promete algo, deve levar em conta a inteligência dessa nova plateia que instantaneamente identifica o verdadeiro conteúdo das palavras e a possibilidade dos fatos.

É impossível para ela atender todas as reivindicações de nossos protestos, a não ser em um item: a corrupção, mas aí teria que começar a apunhalar quase todos os seus velhos companheiros. A verdadeira solução dos problemas continuará nas mãos do povo e levará um pouco de tempo, porque precisa criar e obedecer etapas. É necessário que nas próximas eleições o povo entre numa campanha maciça para induzir o eleitor a votar somente em gente nova. Bom seria determinar um partido mais ético já existente ou até criar um novo e canalizar os votos parapessoas inteligentes, cultas e honestas. Pessoas sem nenhum vínculo com o passado político de nosso país.

Chega de sermos governados por pessoas que, não tendo capacidade de progredir no setor produtivo, apelam para a aventura política! Com um novo Parlamento, aí sim poderemos pensar em Constituição. Para resolver nossos problemas, precisamos jogar no lixo a atual Constituição para dar lugar a uma completamente nova. Para ser justa e imparcial, a nova Constituição não pode nascer da cabeça dos políticos, mas da cabeça de nossos jovens universitários de direito e de um concurso público, até premiado, de “Melhor Constituição do Brasil”.

Uma Constituição verdadeiramente justa e inequívoca, na qual todos sejam iguais perante a lei de direito e de dever, em que as leis sejam realmente respeitadas com punições rígidas e igualitárias, em que o emprego público não seja portador de privilégios.Uma Constituição que ponha o governo a serviço do povo e não vice-versa. Precisamos decepar, reduzir o tamanho do governo em mais de 70%, com cortes de privilégios, abolição de muitos empregos fantasmas e empregos políticos inúteis.

O emprego público deve obedecer às leis do mercado e ser regido pelas mesmas normas do emprego privado: pela competência, produtividade e meritocracia. A possibilidade de uma pena de morte também não deve ser vista como uma simples execução humana. Ela, além de diminuir drasticamente os assassinatos, reduzirá em muito os pequenos crimes, pois, para  preservar a vida, a vigilância paterna aumentaria muito sobre o comportamento dos filhos. A nova Constituição precisa estabelecer critérios para aprovar candidatos à eleição para cargos legislativos e executivos.

Precisamos proibir candidaturas de pessoas sem conhecimento, sem capacidade, com maus antecedentes etc. Por mim, exigiria até o currículo dos filhos do candidato, porque, se a pessoa não teve competência de cuidar da própria família, jamais a terá para cuidar da nação. Isso não é discriminar, assim como não é discriminar quando nós vamos  ao hospital e não aceitamos que um curioso qualquer queira fazer em nós uma intervenção cirúrgica, ou um sapateiro queira fazer o projeto estrutural de nossa casa. Chega de demagogia!

Governar também é cuidar de milhões de vidas. Não fosse pela ignorância e pela demagogia no poder, nosso país há muito tempo seria o segundo mais rico e avançado do mundo. Essa mudança radical só é possível de duas maneiras: por meio de uma forte e indesejável ditadura ou por meio do povo, maciçamente mobilizado, unido numa gigantesca campanha, talvez lançando um novo partido (Partido Brasil Novo), elegendo somente pessoas novas, sem vínculo com a política anterior, e por meio desses eleitos disponibilizar uma grande maioria no Parlamento para promover uma radical reforma constitucional, séria e democrática, como o brasileiro realmente sonha.

Mas, para unir democraticamente um povo numa só voz, é necessário ter um líder, coisa dificílima numa sociedade civil e apolítica. Afortunadamente, hoje a democracia brasileira teria esse líder, chamado Joaquim Barbosa, único merecedor da admiração de todos os brasileiros. O exímio juiz hoje prestaria muito mais serviço ao país se abdicasse do cargo de ministro do STF e, democraticamente alçado ao poder, limpasse a bandidagem, transformando o Brasil no melhor país do mundo para viver e com uma sociedade exemplar. 

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Fonte:
NA + O Globo

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1 comentário

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Pô ! Reinaldo !! Pô ! Pô ! Serra !! O PT está a 10 anos no país e o que fez ???? Hein ???? Uma década !!!

    Quem faz 10 e erra 3 tá desculpado !! Porca miséria !!!

    Quem faz 10 e erra 8 não tem desculpa é incompetente mesmo !!! E quem além disso engana o povo com mentiras e promessas que não serão cumpridas e ainda encomenda pesquisas fajutas dizendo que são "uótimos" devia tomar um sonoro "impeachment" pela cara !!!

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