Chico Bento e a imagem do campo, por Xico Graziano

Publicado em 20/08/2013 19:14 e atualizado em 21/08/2013 09:08
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publicado na pag. 2 (opinião) do jornal O Estado de S. Paulo, desta terça-feira, 20/8/2013

Chico Bento e a imagem do campo

Terminou com farol baixo o Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado recentemente na capital paulista. Seus participantes ficaram com a impressão de estar discutindo os mesmos problemas há anos, sem avanço na agenda. Percebem o enfraquecimento do Ministério da Agricultura. Parece até que a agricultura não tem importância na vida nacional.

Essa frustração pega longe. Nas fronteiras do Centro-Oeste, onde mais brilha a produção agropecuária, os produtores rurais não conseguem entender por que razão as ferrovias, hidrovias e rodovias nunca saem do papel. Estatísticas são conhecidas e consequências, avalizadas: sem boa logística os ganhos de produtividade dentro da porteira se esvaem pelos tortuosos e esburacados caminhos pós-colheita. Fora os discursos, nada acontece.

Assim como não anda, ao contrário, regride, a agricultura energética. Avançam as energias renováveis em todo o mundo, com decidido apoio público; por aqui, no país campeão mundial da fotossíntese, se estimulam os combustíveis fósseis. Mata-se o etanol, nossa "galinha dos ovos de ouro". Nos grãos, anuncia-se com estardalhaço crédito farto para o plantio, mas o seguro rural continua fora do jogo. Resultado: mais endividamento, menos garantia na renda agrícola.

A pesquisa com biotecnologia, que deveria deslanchar, encontra-se freada no acesso aos recursos genéticos da biodiversidade. Problemas variados. Fiscais do trabalho enxergam escravos onde bem entendem. Indígenas aculturados, apoiados pelo governo, tornam-se invasores de terras lavoradas, enquanto verdadeiros índios, abandonados pelo mesmo governo, desfalecem nas aldeias. Aumenta a insegurança jurídica da propriedade rural.

Se não fosse a pujança do campo, a economia brasileira estaria bem pior. No primeiro trimestre de 2013 o setor rural cresceu 9,7%; os serviços, 0,5%; e a indústria mostrou queda de 0,3%. A balança comercial do agronegócio no ano passado apresentou um superávit de US$ 79,4 bilhões, no mesmo período a indústria registrou déficit de US$ 94,9 bilhões. Quer dizer, os agronegócios pagam as contas externas do País. Em retribuição, migalhas.

Na geração de empregos, cerca de 15 milhões de pessoas trabalham nas atividades agrícolas, quase 20% da população economicamente ativa (PEA). Para comparação, nos EUA apenas 2,7% da PEA milita no agro. Embora o avanço da tecnologia, principalmente a mecanização, poupe emprego, a demanda por gente qualificada segue firme, principalmente nas recentes zonas de expansão agropecuária, onde faltam tratoristas, mecânicos, serviçais variados. Existe um verdadeiro "apagão de mão de obra".

Por que a agricultura brasileira, sendo tão importante, recebe pouca atenção da sociedade? Por que a política pública desmerece o campo? As respostas devem ser buscadas em sua representação simbólica: a imagem. Aqui reside o xis da questão. Na Europa e nos EUA a sociedade olha o campo de forma positiva, sabendo que sua permanência na terra propicia a segurança alimentar. Ademais, manter a população no campo significa menos disputa pelo emprego na cidade.

No Brasil, infelizmente, ao invés de valorizar, a urbe desdenha o campo. Em que pese a modernidade ter avançado, a opinião pública nacional ainda mantém uma imagem atrasada, quase sempre negativa, do mundo rural. Que razões levam a sociedade brasileira a menosprezar, a quase esquecer sua agricultura? Por que, ao contrário dos países desenvolvidos, nosso setor rural se encontra tão estigmatizado?

Difíceis são as respostas. Primeiro, a ocupação histórica. O Brasil iniciou sua agricultura com base no latifúndio e na escravidão. Os coronéis do sertão e, depois, a oligarquia agrária formaram um contraste marcante da opulência com a miséria rural. Mais tarde, já nos anos 1950, ao latifúndio, juntamente com o imperialismo, se imputou todo o mal que freava o progresso da Nação. Essa carga histórica, e ideológica, pejorativa permanece até hoje na consciência coletiva, sendo cultivada nos rançosos livros escolares. A imagem repudiada de outrora ofusca o brilho do presente.

Envolve, também, razões culturais. O Brasil rapidamente transitou de sociedade agrária para industrializada. O violento êxodo rural inchou as cidades. Novos valores, urbanos, passaram a predominar fortemente, sem tempo para acomodações. Resultado: a agricultura virou sinônimo de passado. Os famosos filmes de Mazzaropi, a começar do impiedoso Jeca Tatu (1959), ajudaram a substituir a imagem bucólica pelo preconceito.

No ambientalismo também se encontram justificativas. O Brasil ainda incorpora fronteiras agrícolas - e, portanto, derruba florestas e cerrados - numa época em que a consciência ecológica domina a elite da civilização pós-industrial. Antes, desmatar era sinônimo de progresso; agora, de destruição. Para não falar do uso descuidado de agrotóxicos, que macula a estampa da agricultura.

Como mudar essa situação? Como mostrar à sociedade que a agricultura não é problema, e sim solução para o Brasil?

O desafio passa pela melhoria da comunicação. Mas, com ela, deve-se implementar a lição de casa, e esta atende pelo nome de "agricultura sustentável". Mais, ainda: o ruralismo precisa renovar suas lideranças para se conectar com a juventude, trocar o discurso tradicional, chorão, pela atitude proativa. Investir no marketing para fortalecer sua posição na sociedade.

Maurício de Souza anunciou recentemente que Chico Bento vai estudar Agronomia. Que legal! Tomara que a inspiração dos quadrinhos traga uma mensagem positiva sobre nossa agricultura. Pode manter o sotaque puxado. Não pode discriminar.

*Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: [email protected]

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Fonte: O Estado de S. Paulo

8 comentários

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    E nessa coluna ficam dois tontos falando aquilo e mandando um para o outro elogios. Deem esse depoimento para esses tontos lerem. Neste país só tem simplório !!!!
    Voces acham que um partido que defende a estatização de empresas tipo Petrobras, e mete nas nossas fuças uma mentira gigantesca tipo Pré-Sal, para o qual nem temos tecnologia certificada e apropriada nem os US$ 600 bi para financiar essa miragem, antes de torná-la realidade, e até já está dividindo os royalties dela,
    vai pensar em etanol ?? Energia renovável ?? E as boquinhas, e as comissões de empreiteiras, para os partidos políticos, dos lobistas, e outros tipos de safados ?? Vão ficar na saudade ??? Vamos acordar gente fina !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  • marco possenti melnek san albero paraguay - PR

    Sabe porque o povo da cidade nao da a minima para a agricultura porque o agricultor produs de mais os agricultores tei que diminui a produsao para de ta toda ora compramdo maquina nova. E investindo tanto cuanto mais produsirmos menos presos vamos ter cuanto mais investimos para produsir mais caro fica o custo. Nos mesmos somos responsaveis pelo oque esta c pasando sabemos que o governo nao ta nei ai para agricultura e mesmo asin exemos os armaseis e ce nao basta temos que jogar no tempo. Nao vamos mais ce umilhar para eles vamos diminuir o plantiu so do safrinha ei cincuenta porcento. Vamos deixar eles virei atras de nos agricultores. Nos no campo nao vamos pasar fome ce plantarmos so uma veis ao ano

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Com os milhões arrecadados pela contribuição sindical obrigatória , uma parcela importante deveria ser usada em marketing esclarecedor no horário nobre da tv ,com fatos verdadeiros oriundos do campo... que tal produzir uma novela das oito baseada na saga dos gaúchos que transformaram o Centro Oeste em um novo Brasil ,tem muita historia bonita, romântica, aventureira,com pitadas de suspense e tragédias ,felizmente com final interessante,creio que poderia sim abrir os olhos da urbe para a importância do agronegócio...

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Parabéns Xico,o senhor falou toda verdade em um artigo verdadeiro que precisaria ser lido e compreendido por todos aqueles que se dizem nossos líderes.Ontem estivemos em Belo Horizonte para mostrar aos nossos deputados (audiência sobre o código ambiental mineiro)... que o alimento não chega à mesa do povo sem que alguém os produza, numa discussão coloquei que quando um córrego nasce no campo e corta várias propriedades ele carrega VIDA ,ao atravessar o primeiro aglomerado urbano ele começa a perecer e vai morrendo aos poucos ,sendo que alguns destes cursos d'água se transformam em fétidos moribundos ,não sem antes consumir milhões de dólares em revitalização e despoluição ... os ambientalistas urbanos capitaneados pelo greenpeace ,pelo wwf e pelo farsante al gore se acham e por incompetência nossa em esclarecê-los viram nossos adversários,saudações mineiras , uai!

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  • OTAVIO BEHLING Cuiabá - MT

    A sociedade urbana brasileira nunca esteve nem aí para a agricultura. Para ela quem produz é o Supermercado, a Mercearia, a Padaria, a Conveniência, as Lojas e as Boutiques.
    Eventualmente ela se lembra quando o tomate o chuchu ou a carne estão mais caros. Mas só para reclamar

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  • MABEL GIARETTA DALASTRA Palotina - PR

    É muito frustrante ver como a maioria da população brasileira encherga a agricultura, como povo "caipira""do sítio""colonos". Não tem consciencia de onde vem a verdadeira sustentabilidade, de onde vem o alimento de cada dia. Crianças que não fazem idéia do que é feito o cereal matinal, o pãozinho de cada dia. Todos ligados de alguma forma ao setor agrícola, precisam falar incansavelmente de sua atividade e mostrar sua importancia ao país.

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  • amarildo josé sartóri vargem alta - ES

    Parabéns pelo artigo. Poucas vezes encontramos de forma tão simplificada, algo que nós produtores rurais, gostaríamos de poder dizer para a sociedade, seja ela rural ou urbana. Um texto que retrata fielmente a importância da agricultura para a sobrevivência da nossa nação e ao mesmo tempo tão execrada por interesses difusos. Xico Graziano pela sua história e experiência profissional, é considerado um dos grandes ícones na defesa da agricultura sustentável. Foi muito bom começar o dia lendo este artigo.
    Um grande Abraço.

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  • wilfredo belmonte fialho porto alegre - RS

    A maioria dos brasileiros veem a agricultura como um
    último recurso de trabalho, como os pequenos agriculto-
    res e as pequenas propriedades é a maioria no país, há a
    visão de um trabalho árduo, pobre, sem futuro. Mas a alta tecnologia aplicada nos [últimos anos vem demonstrando o quão importante é a agricultura para o de
    senvolvimento econômico do País. E, esta tecnologia deverá ser aplicada também para os pequenos, pois são es
    tes que produzem a maioria dos alimentos de nosso dia a
    dia. Uma coisa é a agricultura para consumo interno, outra coisa é a agricultura de exportação e, nenhum é mais ou menos importante que o outro, sendo o que realmente falta é um "marketing de informação". Uma informação da importância dos pequenos produtores rurais
    sua importância no bem estar do dia a dia das pessoas principalmente nos grandes centros urbanos, que dependem
    diretamente destes milhões que vivem e trabalham no inte
    rior do Brasil afora, bem como dos grandes produtores ru
    rais que são responsáveis por uma boa parcela da balança
    comercial do Brasil.

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