Atrasadíssimos, por Kássia Caldeira (sobre logística no agronegócio)

Publicado em 14/09/2013 22:04 e atualizado em 16/09/2013 08:35
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Artigo publicado na página de opinião de O ESTADO DE S. PAULO (edição de sábado, 14 de setembro)

O Brasil acaba de colher nova safra de grãos e mais uma vez o campo mostrou que fez seu dever de casa. A produção foi recorde no período 2012/2013, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento: 186,15 milhões de toneladas. Um aumento de 12,1% em relação a 2011/2012 (166,20 milhões de toneladas). Desde que teve condição para trabalhar com planejamento - quando o "monstro" da inflação ficou sob controle e a macroeconomia adquiriu certa estabilidade -, o agronegócio arregaçou as mangas e aumentou ano a ano a produtividade das lavouras brasileiras.

Embora com safra de grãos recorde, na hora de estocar ou escoar a produção o produtor perde a competitividade que obteve na lavoura - os avanços pontuais alcançados pelo Brasil não acompanharam o processo de transformação do agronegócio. O País perdeu a chance de melhorar, e muito, sua infraestrutura e sua logística quando sua situação macroeconômica e a externa viviam em céu de brigadeiro. Enquanto a deterioração econômica rondava, nada foi feito, e quando finalmente se aceitou que ela aterrissou nestas paragens, promessas e mais promessas de "solução" pipocaram.

Mas infraestrutura e logística não surgem de um simples grão de milho, como na alquimia que o transforma em pipoca. E foi assim que o Brasil perdeu oito posições, de 2012 a 2013, no Ranking Global de Competitividade. Caiu de 48.º para 56.º dos 148 países analisados no relatório, editado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) - no Brasil o estudo é feito em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC) e o Movimento Brasil Competitivo. Com o resultado, voltou-se à condição de 2009, atrás de México, África do Sul e Costa Rica.

Segundo o ranking do WEF, dos cinco países do grupo dos Brics, a China está em 29.º lugar e continua liderando na competitividade. Em seguida vem a África do Sul, que caiu uma posição e está em 53.º, enquanto o Brasil ocupa um constrangedor 56.º lugar. A Índia, em 60.º, também caiu uma posição. Já a Rússia foi a única que subiu no ranking e está em 64.º lugar.

O governo traiu quem investiu no agronegócio crendo nas promessas (na maioria, eleitoreiras) de recursos para melhoria em infraestrutura e logística do País. E o fundo do poço parece não ter fim. Atrasadíssimos. Essa é a palavra para a situação de estradas, ferrovias, portos, aeroportos e armazéns.

A eterna expectativa do povo brasileiro, de viver num país desenvolvido, continua eterna. As atitudes dos atuais comandantes do Estado nacional brasileiro sugerem um único comprometimento: o de se perenizarem no poder. Para debaixo do tapete, o "pibinho", a inflação e a falta de reformas. E a carestia voltou à mesa da família brasileira.

Enquanto isso, o custo do escoamento da safra da fazenda até o porto dificulta a comercialização dos produtos, como a soja, e vem dando prejuízo, comprometendo 13,1% da receita das empresas brasileiras, de acordo com o estudo Custos Logísticos no Brasil, da FDC, do final de 2012. O levantamento foi feito com 126 empresas de diversos setores que representam 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O estudo ainda apontou que o custo logístico do Brasil é de 12% do PIB. Nos EUA, essa relação é de 8% do PIB. Se a logística brasileira tivesse o mesmo desempenho da americana, o Brasil economizaria R$ 83,2 bilhões ao ano. O investimento em infraestrutura logística não passou de 2% do PIB ao longo dos últimos anos. O pico foi nos anos 70, quando foram feitos grandes investimentos em rodovias. E é exatamente o transporte de longa distância o que mais contribui para o custo logístico brasileiro. Ele responde, segundo as empresas ouvidas no estudo, por 38% do gasto, seguido de armazenagem (18%) e distribuição urbana (16%).

Diante de todas as evidências de colapso na infraestrutura e logística, cabe a pergunta: se havia recursos e nada foi feito, será por falta de vontade política?

Jornalista, é doutora em socioeconomia do desenvolvimento pela Ehess de Paris. E-mail: [email protected]

O governo pode festejar o consumo de julho, mas o crescimento econômico neste ano, e principalmente nos próximos, vai depender mesmo da indústria, o patinho feio da economia nacional. Os últimos números do varejo surpreenderam o mercado financeiro, foram celebrados pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e forçaram os analistas quebrar a cabeça. Como explicar o aumento das compras, num ambiente, segundo as sondagens, de muito pessimismo e insegurança crescente? Várias respostas parciais foram propostas e todas contêm, provavelmente, alguma verdade: o recrudescimento do frio, os novos financiamentos de móveis e utensílios para casa, o adiamento de compras em junho, primeiro mês das passeatas, o recuo da inflação e a boa oferta de crédito pessoal. Economistas mais entusiasmados admitiram rever as estimativas do produto interno bruto (PIB) do terceiro trimestre. Mas a pergunta permanece: a produção industrial crescerá o suficiente, na segunda metade do ano, para sustentar um resultado geral bem melhor que o estimado até há pouco tempo?

O consumo vai bem, mas o investimento vai mal

por Rolf Kuntz, jornalista (articulista de o Estado de S. Paulo)

Na sexta-feira, um dia depois da celebração do consumo de julho, saiu o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br): houve queda de 0,33% em relação a junho, descontadas as variações sazonais. O indicador praticamente voltou ao nível de março e ficou 2,6% acima do estimado para julho de 2012. Em 12 meses o crescimento sobre o período anterior chegou a 2,3%. Considerado uma prévia do PIB, o IBC-Br continua apontando uma recuperação lenta e oscilante, explicável principalmente pela trajetória da indústria.

Em julho, a produção do setor foi 2% menor que a de junho e 2% maior que a de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O crescimento acumulado em 12 meses ficou em apenas 0,6%. Além disso, o emprego industrial diminuiu 0,2% de junho para julho, de acordo com o IBGE.

O levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), restrito ao setor de transformação, apontou um aumento de 0,3% no emprego. Os primeiros dados de agosto surgiram já na quinta-feira, quando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) anunciou a redução de 0,3% no contingente empregado. O terceiro trimestre é normalmente um período de contratações, por causa do consumo do fim de ano, mas 2013, pelos números conhecidos até agora, está fora desse padrão.

A balança comercial combina com esse quadro. De janeiro até a primeira semana de setembro a receita de exportações, US$ 161,4 bilhões, foi 1,6% menor que a de um ano antes, enquanto o valor das importações, US$ 164,9 bilhões, foi 9,9% maior que o de igual período de 2012. Parte substancial da demanda interna vem sendo suprida com mercadorias estrangeiras - tanto matérias-primas quanto bens intermediários e produtos finais. A participação dos importados no consumo nacional de produtos industriais chegou a 21,1% no segundo trimestre, conforme a CNI, 0,1 ponto mais que um ano antes. A fatia dos importados já cresceu por 13 trimestres consecutivos, mesmo sem maior abertura do mercado e até com algum aumento de barreiras nos últimos anos.

Só por teimosia se pode continuar apontando o câmbio como o único ou o mais importante problema da indústria. Tem alguma relevância, inegavelmente, mas a maior parte dos obstáculos é de outra natureza. Entre 2000 e 2009, a produtividade do trabalho na agropecuária cresceu em média 3,8% ao ano, enquanto a da indústria de transformação diminuiu à taxa anual de 0,8%, de acordo com estudo recente dos economistas Fernanda de Negri e Luiz Ricardo Cavalcante, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Quando se considera o conjunto da economia, podem-se dividir as últimas duas décadas em duas fases bem distintas. Entre 1992 e 2001, as curvas de aumento da produtividade do trabalho e do PIB per capita praticamente coincidem. Na fase seguinte, a maior parte do crescimento do PIB per capita passou a depender da incorporação de trabalhadores.

Dadas as perspectivas do mercado de trabalho, a expansão econômica dependerá, nos próximos anos, de novos ganhos de produtividade, muito mais que da oferta de mão de obra, Isso será muito importante para a indústria de transformação e, naturalmente, para o comércio exterior e para a segurança das contas externas, em clara deterioração.

Ganhos de produtividade, para a indústria e para o conjunto da economia, dependem de vários fatores, como educação, formação de mão de obra e investimentos em capital fixo, como equipamentos, máquinas, instalações fabris e construções de infraestrutura. Entre os industriais, a intenção de investir diminuiu nos últimos meses, segundo pesquisa divulgada nesta semana pela Fundação Getúlio Vargas.

Em abril-maio, 45% das empresas consultadas informaram haver investido mais que nos 12 meses anteriores e 25% indicaram diminuição. Em julho-agosto, 36% reportaram investimentos maiores que no ano anterior e 25%, menores. Em relação aos 12 meses seguinte os sinais também pioraram. A parcela com planos de investir mais diminuiu de 51% para 34%.

Na área da logística, a evolução dependerá da competência do governo no planejamento e na condução das licitações, nas formas de mobilização do capital privado e na execução dos projetos financiados só pelo setor público. Cada um pode fazer suas apostas, de acordo com seu grau de confiança. O retrospecto é pouco entusiasmante, mas o governo tem-se mostrado pouco propenso à autocrítica e à busca de maior eficiência na formulação e na condução de políticas.

(por Rolf Kuntz, jornalista)

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Fonte: O Estado de S. Paulo

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