Na política, por enquanto "desinteresse", por MERVAL PEREIRA

Publicado em 19/04/2014 20:09 514 exibições
de O Globo
POLÍTICA

Desinteresse, por Merval Pereira

 

Merval Pereira, O Globo

As pesquisas eleitorais que estão sendo divulgadas recentemente refletem ambiente político bem diverso daquele com que se depararão os candidatos a partir de julho, quando os partidos já terão definido oficialmente seus escolhidos, e começarão os debates na televisão e a propaganda eleitoral, em agosto.

No momento, a pesquisa do Ibope mais recente registrou que nada menos que 56% dos entrevistados têm pouco ou nenhum interesse nas eleições de outubro. O fato de que 37% dos pesquisados optaram por “nulo ou em branco” ou “não sabe”, já devidamente registrado aqui, mostra que boa parte dos desinteressados escolheu a resposta mais condizente com seu estado de espírito no momento.

Não é provável que esse número se sustente nas eleições, embora possa ser maior do que o registrado em 2010 — de 8,6% no primeiro turno —, pelo aumento da frustração do eleitorado com a classe política.

 

 

Da mesma maneira, os eleitores que estão deixando, com certa regularidade, de escolher o nome da presidente Dilma nas pesquisas dos últimos dias devem acabar optando por um dos nomes da oposição, caso o governo não consiga reverter a tendência de descrédito que no momento o atinge.

Os especialistas em pesquisas eleitorais dizem que o movimento mais habitual dos eleitores desiludidos é fazer uma parada nos indecisos (ou branco ou nulo) para depois escolher a melhor alternativa.

Tanto o candidato do PSB, Eduardo Campos, quanto o do PSDB, Aécio Neves, ainda têm espaço para serem conhecidos pelos eleitores, e para eles o programa eleitoral na televisão antes da campanha pode ser a bala de prata. Não funcionou, aparentemente, para a dupla Eduardo Campos-Marina, que apareceu na televisão nos dias em que a pesquisa do Ibope foi realizada.

Campos não saiu do lugar, e Marina ainda não demonstrou ser capaz de transferir seus votos, ou parte deles, para sua chapa. Já Aécio Neves teve seu programa de televisão transmitido depois do fechamento da pesquisa do Ibope, embora a reação a algumas inserções publicitárias possa ter sido captada. Continua com a esperança de que uma exposição maior lhe dará um reconhecimento do eleitorado que até agora se mostrou restrito.

Os candidatos do PSDB tinham neste momento, nas campanhas anteriores, índice maior do que os 15% que as pesquisas dão a Aécio Neves. Mas tanto José Serra quanto Geraldo Alckmin tinham a exposição que os governos de São Paulo e federal dão aos seus titulares, enquanto Aécio passou os últimos quatro anos como senador.

De positivo para ele há a constatação de que uma das teses mais caras a seu principal rival na oposição, o ex-governador Eduardo Campos, não está se revelando eficaz até o momento. A terceira via, para acabar com a polarização entre PT e PSDB, não parece empolgar o eleitorado.

Um trabalho da equipe da PUC do Rio de Janeiro que o cientista político Romero Jacob coordena aponta que a terceira via não tem se mostrado viável, pois não se observa nada em comum, do ponto de vista eleitoral ou geográfico, entre os terceiros colocados nas eleições anteriores: Brizola (1989), Enéas (1994), Ciro (1998), Garotinho (2002), Heloísa Helena (2006) e Marina (2010).

Ele chama de “a maldição do terceiro colocado” o destino político desses candidatos que surgiram como opção alternativa aos líderes das corridas presidenciais e não deram certo em nível nacional.

A ex-senadora Marina Silva poderia ter quebrado essa “maldição” se tivesse conseguido registrar seu partido político, mas teve que adiar seu sonho para 2018 e embarcar no sonho de Eduardo Campos este ano.

 

NO ESTADÃO: 

Com aprovação em queda, Dilma pede que auxiliares divulguem 'marcas' sociais

Em reação à popularidade em baixa e seguindo orientação de Lula, presidente determina que ministros usem discursos para multiplicar difusão dos programas federais; campanha sobre o Mais Médicos vai ao ar na próxima semana

19 de abril de 2014 | 2h 08

por Vera Rosa / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

Com a popularidade em queda, o patrimônio de “gerente” corroído e sob ameaça de uma CPI da Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff determinou aos ministros que adotem a estratégia da multiplicação das marcas do governo. A ordem é para que todos os auxiliares, sempre que fizerem discursos públicos, citem programas sociais como Mais Médicos, Pronatec, Prouni, Brasil Sem Miséria e Minha Casa, Minha Vida.

Presidente põe em prática os conselhos de Lula - Ed Ferreira/ Estadão
Ed Ferreira/ Estadão
Presidente põe em prática os conselhos de Lula

O roteiro de reação deve ser seguido mesmo se o tema da cerimônia não estiver relacionado a esses assuntos e os ministros forem de outras áreas. Pressionada por eleitores que exigem mudanças, como revelou a última pesquisa Ibope divulgada na quinta-feira, Dilma quer destacar que muitos dos programas mencionados hoje por seus adversários são conquistas da administração do PT e representam “só um começo”.

Uma campanha publicitária sobre o Mais Médicos entrará no ar na próxima semana. Para rebater as críticas da oposição de que o governo Dilma investe no “trabalho escravo” de médicos cubanos, a propaganda na TV mostrará como o programa, com cerca de 14 mil novos profissionais, tem mudado a vida dos mais pobres, principalmente no interior. A meta é que, até a Copa do Mundo, o plano dê assistência a 49 milhões de pessoas.

"O principal cabo eleitoral do seu governo é você mesma”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conversa com Dilma, no início do mês. “Os ministros têm que divulgar as ações do governo, dar respostas mais rápidas e traduzir todos esses números para a vida real. Ninguém sabe o que é PIB. A pessoa quer saber o que pode comprar no supermercado, se a vida melhorou ou não.”

Dilma começou a pôr em prática os conselhos de Lula, mas a pesquisa Ibope acendeu a luz amarela no Palácio do Planalto. Embora o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), pré-candidatos ao Planalto, não tenham capitalizado a insatisfação com o governo do PT, Dilma caiu em todos os cenários. A presidente ainda venceria no primeiro turno, se a eleição fosse hoje, mas a desaprovação a seu modo de governar subiu de 43%, em março, para 48% neste mês.

Reduto. Além disso, a pesquisa captou um desejo crescente de mudança. O índice de brasileiros que querem alterações profundas no governo chegou a 68% em abril, segundo o levantamento. O descontentamento com o governo Dilma aumentou muito entre os jovens e também entre tradicionais eleitores do PT, como beneficiários do Bolsa Família. A avaliação negativa da gestão, feita por pessoas que moram na periferia, subiu 11 pontos, passando de 27% no mês passado para 38% agora. São índices próximos ao que Dilma obteve no período posterior aos protestos de junho do ano passado.

O “inferno astral” do governo é atribuído, nos bastidores do PT, a turbulências na economia, com o aumento da inflação, e à “desconstrução” da imagem da Petrobrás, abalada por denúncias de corrupção e sob ameaça de uma CPI no Congresso. “A oposição continua sendo hipócrita. Nem o mais ingênuo dos políticos vai acreditar que uma CPI transcorrerá de forma técnica e sem contaminação política, principalmente começando em abril ou maio, com prazo de 180 dias, para acabar no período eleitoral”, afirmou aoEstado o ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini.

No Planalto, Berzoini já começou a seguir a recomendação de Dilma para multiplicar as marcas do governo. “Essa é uma eleição para fazer um debate profundo do que foi o Brasil no passado e do que o Brasil é hoje em termos de desemprego, renda, salário mínimo, Minha Casa Minha Vida, Prouni e Bolsa Família”, insistiu ele.

Para Eduardo Campos, a estratégia indica que o PT vai apostar no “terrorismo eleitoral”, acusando a oposição de querer acabar com programas sociais. “Eles sabem que sabemos fazer. Não podemos ficar sem alternativas nesse debate do presente e do passado”, argumentou o ex-governador, ao formalizar a ex-ministra Marina Silva como vice de sua chapa.

“O problema não é o Brasil; é o governo que está aí”, afirmou Aécio no programa de TV do PSDB, exibido na quinta-feira. O tucano abriu ofensiva contra o PT ao dizer que o governo “não reconhece que a inflação está saindo do controle”.

Economia. Além das previsões de menor crescimento feitas recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e também pelo Banco Central, os juros básicos estão hoje em 11% ao ano, acima do patamar de quando Dilma assumiu o governo, e há risco de racionamento de energia.

A “agenda positiva” da presidente até a Copa, porém, prevê “vacinas” contra as más notícias da economia, com discursos sob medida para estancar a queda de sua popularidade entre eleitores de várias faixas de renda.

Na lista dos antídotos produzidos para a nova classe média constam a entrega de mais moradias do Minha Casa, Minha Vida e a ampliação da bolsa do Pronatec. Dados do Ministério da Educação indicam que 40% das matrículas do Pronatec são de jovens oriundos de famílias com renda mensal de até três salários mínimos. 

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O Globo + ESTADÃO

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