Na FOLHA: Argentina busca ganhar tempo para renegociar dívida

Publicado em 24/06/2014 09:52 216 exibições
na edição de hoje da Folha de S. Paulo

Argentina busca ganhar tempo para renegociar dívida

Governo pede para que corte dos EUA suspenda decisão que obriga pagamento de credor que não quis acordo

Com a maior disposição de administração de negociar com credores, Bolsa local sobe 8,7%, maior alta em 5 anos

(FELIPE GUTIERREZ)DE BUENOS AIRES

O governo argentino tenta ganhar tempo para negociar o pagamento de sua dívida com fundos de investimento.

Nesta segunda-feira (23), advogados pediram ao juiz americano Thomas Griesa para suspender a sentença que obriga o país a pagar, em 30 de junho, simultaneamente aos detentores de sua dívida renegociada e aqueles que ganharam, na semana passada, na Justiça dos EUA, o direito a receber o pagamento com valor integral.

O objetivo dos advogados não é discutir a decisão da Suprema Corte, mas sim tentar postergar a execução na Justiça e ganhar tempo para negociar com os fundos.

Com a maior disposição do governo argentino a negociar com os credores --demonstrada também pela presidente Cristina Kirchner em discurso na sexta-feira (20)-- a Bolsa argentina fechou em alta de 8,67% nesta segunda.

Com a maior valorização diária desde novembro de 2008, os investidores recuperaram as perdas da semana passada, quando a Bolsa argentina recuou 8,7%.

O ministro da Economia, Axel Kicillof, afirmou em um pronunciamento que "é essencial que o juiz dê essa medida para que a Argentina possa continuar pagando os detentores dos bônus reestruturados normalmente e levar adiante um diálogo que nós precisamos que seja em condições equitativas para 100% dos credores".

Os credores dessa parte da dívida são fundos que não aceitaram renegociar os valores em duas oportunidades que tiveram para isso (em 2005 e 2010). Juntos, eles têm cerca de US$ 15 bilhões em títulos, que representam cerca de 8% do total.

O país já afirmou que não consegue pagar tudo de uma vez, pois as reservas internacionais são de US$ 28 bilhões.

Se a suspensão for aprovada, a Argentina poderá pagar a parcela de seus credores que trocaram seus títulos em 2005 e 2010 no dia 30 de junho. Caso contrário, o dinheiro que o país depositar para essa parcela pode ser confiscado para pagar os fundos.

Há uma cláusula nesses títulos reestruturados que garante o direito a um tratamento igualitário caso alguma outra dívida consiga um melhor negócio. Trocando em miúdos: quem aceitou receber menos pode recuperar essa diferença caso aconteça uma renegociação mais vantajosa. Essa regra vale até o fim deste ano.

SETOR AUTOMOTIVO

Para tentar reanimar o mercado automobilístico do país, o governo argentino anunciou nesta segunda irá lançar um programa de financiamento para a compra de carros leves e pick-ups.

O programa irá reduzir o preço final dos veículos de 3% até 13%. O financiamento consiste em parcelamento em até 60 prestações.

Os carros que podem ser comprados com as linhas devem ser produzidos na Argentina. Ainda não está claro como a medida pode afetar as fábricas brasileiras. Mais de 80% das exportações de veículos leves do Brasil rumam para o país vizinho, mas elas caíram 38% até maio.

Com queda de 0,8%, PIB da Argentina encolhe pelo segundo trimestre seguido

DE BUENOS AIRES

Além da crise da dívida, a economia argentina dá sinais de fraqueza e voltou a encolher no primeiro trimestre. A queda do PIB, de 0,8% ante os últimos três meses do ano passado, foi a segunda consecutiva e a maior desde o segundo trimestre de 2012.

Alguns economistas consideram que um país entra oficialmente em recessão quando sua economia tem dois trimestres seguidos de retração.

A última vez que a economia argentina teve dois trimestres negativos consecutivos foi no início de 2002, quando enfrentava os efeitos do calote do ano anterior.

Nesse ritmo, a Argentina parece cada vez mais perto de perder para a Colômbia o posto de segunda maior economia da América do Sul, atrás do Brasil --o FMI projeta que isso vai ocorrer em 2015.

O PIB da Colômbia cresceu 2,3% de janeiro a março em relação ao quarto trimestre do ano passado, a maior alta em 14 anos.

OS VILÕES

Na comparação com o primeiro trimestre de 2014, o PIB argentino encolheu 0,2%.

As exportações de bens e serviços foram os maiores responsáveis pela caída do PIB. Elas foram 6,4% menor do que em relação ao primeiro trimestre de 2013. A demanda também caiu pelo consumo interno, que perdeu 1,2% ante igual período de 2013. O gasto governamental, no entanto, subiu: 3,4%. (FG)

 

ENTENDA A CRISE DOS ARGENTINOS

 

Como tudo começou?
Argentina começou os anos 1990 com hiperinflação. Em 1991, lançou o Plano de Conversibilidade para zerar a inflação: um peso valia US$ 1. Para crescer, se endividou

Crise dos títulos
Em 2001, durante grave crise, a Argentina parou de pagar as dívidas. Parte delas era na forma de títulos (papéis que o governo oferece a estrangeiros para se financiar)

Renegociação da dívida
Em 2005 e 2010, a Argentina procurou os credores e ofereceu valores menores e novos prazos de pagamento. A maioria deles (92%) aceitou os termos, o que significava receber menos

E quem não aceitou?
Credores que não aceitaram --e detinham 8% dos papéis-- venderam os títulos a fundos "abutres", que compram dívidas não honradas por preços baixos, para cobrar o valor integral

Derrota nos EUA
No dia 16, um desses fundos, o NML, venceu uma disputa com os argentinos na Suprema Corte dos EUA. Segundo a decisão, a Argentina tem de pagar ao fundo o valor integral mais juros e multas: US$ 1,3 bilhão

E daí?
A decisão pode se estender aos outros credores que também não aceitaram a renegociação, o que elevaria a dívida a US$ 15 bi, mas o governo só tem US$ 28 bi de reservas internacionais

Renegociação pelo ralo
O governo pode tentar chegar a um acordo com os credores com quem está em litígio. Mas, ao fazer isso, coloca em risco o acerto feito com os que aceitaram receber menos

Por quê?
Uma cláusula no acerto com os credores que aceitaram receber com desconto diz que eles podem optar por um acordo melhor que seja oferecido aos outros

Risco de calote
Em 30.jun, vence parcela da dívida renegociada lá atrás. Governo diz que poderá não pagar, pois dinheiro pode ser confiscado para os "abutres".

No ESTADÃO:

Calote da Argentina e possíveis consequências para o Brasil

YOLANDA FORDELONE

Quarta-Feira 18/06/14

Apesar de o governo argentino afirmar que pretende negociar com os credores, calote ainda é uma possibilidade; neste caso, peso pode se desvalorizar

Apesar de não estar envolvido diretamente na briga que corre na Justiça americana sobre o pagamento de títulos da Argentina, a crise no país dos hermanos, se aprofundada, pode respingar no Brasil, sobretudo na balança comercial. Nesta semana, a Corte dos EUA recusou o apelo da Argentina sobre a decisão que havia sido tomada em 2012 de que o país deveria pagar os US$ 1,3 bilhão que deve a alguns credores, os chamados fundos abutres. Tais investidores não aceitaram entrar no acordo de reestruturação da dívida promovido pela presidente Cristina Kirchner em 2010.

O grupo é liderado pelos fundos de hedge americanos Aurelius Capital Management e NML Capital Ltd, unidade do Elliott Management Corp, do bilionário Paul Singer. Caso todos os credores que não participaram das reestruturações recorram aos tribunais, a conta pode pode aumentar para US$ 18 bilhões, o que representa 64% da atual reserva internacional da Argentina (US$ 28 bilhões).  A Argentina já declarou ao longo da semana que não pretende dar calote e sim negociar com seus credores.

No passado, a imagem do Brasil já foi muito associada ao do país vizinho, mas atualmente passou-se a distinguir melhor as duas economias. Ainda assim, caso a crise se aprofunde e a Argentina declare calote, há algumas consequências para o Brasil:

Turismo. A invasão argentina vista no Maracanã deve demorar a ocorrer de novo, pois a moeda local, o peso argentino, irá se enfraquecer, tornando as viagens dos argentinos ao exterior mais caras. Por outro lado, viajar para lá pode se tornar ainda mais barato. Há três anos, o dólar equivalia a 4 pesos argentinos, cotação que atualmente já gira em 8 pesos. Isto porque estamos falando do câmbio oficial. Para viajar, argentinos têm recorrido ao mercado negro, já que há um limite de compra da moeda no mercado legal. Fora dos olhos de Cristina, o dólar varia entre 12 e 15 pesos. Com a desvalorização do peso quem ganha é o brasileiro que viaja para lá pois com a mesma quantidade de dólares conseguirá comprar mais moedas argentinas.

Vale ressaltar que os brasileiros são o principal público de turistas na Argentina. Em abril, somaram 30,1% dos passageiros que desembarcaram nos aeroportos de Ezeiza e de Jorge Newbery. Segundo o Ministério do Turismo argentino, em média, o turista brasileiro gasta US$ 148,2 por dia, o maior entre os visitantes que vão ao país.

Consumidor brasileiro. Em teoria, com a desvalorização do peso, os produtos da Argentina importados pelo Brasil tendem a ficar mais baratos. Assinalamos “em teoria” porque na prática todos sabem que nos últimos anos o comércio com o vizinho foi marcado por políticas protecionistas. Além disso, caso a crise se aprofunde diminuindo a produção, os preços pelo contrário poderiam entrar em tendência de alta. Os principais produtos importados da Argentina pelo Brasil são automóveis de passageiros (o país representa 37% das importações brasileiras) e partes e peças de veículos e tratores (10% vêm da Argentina).

Exportações. Se a indústria de automóveis no Brasil já não vai bem, a situação pode piorar. Do total de carros exportados, 88% têm como destino a Argentina. Se a renda e emprego dos consumidores de lá piorarem, os estoques do Brasil aumentam, o que pode significar redução de preços ao brasileiro.

Multinacionais. No ano passado, a JBS reduziu sua operação na Argentina de cinco para um frigorífico. A Deca resolveu fechar as portas no país após alguns anos de prejuízo. Depois da decisão da Justiça americana, a taxa de risco da Argentina disparou. Caso declare calote, sua imagem na praça piorará, o que irá dificultar a tomada de empréstimos. Sem crédito, o investimento cai, inclusive em setores como o de energia e petrolífero, importantes para o país. Empresas brasileiras que ainda permanecem na Argentina podem ter anos difíceis neste cenário.

Entenda a crise da dívida

No fim de 2001, Adolfo Rodríguez Saá, que ocupava a presidência apenas por uma semana, decretou o calote de US$ 81 bilhões da dívida pública, o maior calote da história mundial moderna. O presidente Néstor Kirchner reestruturou a dívida em 2005, mas 25% dos credores não aceitaram as novas condições dos títulos. Em 2010, a presidente Cristina Kirchner resolveu renegociar tais títulos, para tentar incluir os credores que ainda não haviam aceitado a troca de bônus, os “holdouts”. Ainda assim, 7% ficaram de fora e entraram na Justiça para tentar reaver seus investimentos. Cristina estava pagando os bônus daqueles que haviam aceitado a reestruturação, mas segundo a lei americana nenhum credor pode ser priorizado em prol de outro. Ou seja, todos devem ser pagos paralelamente.

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Fonte:
Folha de S. Paulo + Estadão

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