Petistas repaginam discurso sobre 'mau humor' das elites

Publicado em 27/06/2014 05:01 e atualizado em 27/06/2014 05:33 559 exibições
Puxados por Lula, integrantes do partido admitem que insatisfação se espalhou e fazem mea culpa por não terem agido antes, POR RICARDO GALHARDO - O ESTADO DE S. PAULO

Puxados pelo ministro Gilberto Carvalho e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os petistas resolveram mudar o discurso adotado logo após os xingamentos dirigidos Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo. Ao invés de atribuírem o mau humor com a presidente apenas “às elites”, passaram a admitir que ele se espalhou e que tanto o partido quanto o governo tiveram sua parcela de responsabilidade para que isso acontecesse.

Segundo pesquisa CNI/Ibope, a avaliação positiva do governo é de apenas 31% e a rejeição à Dilma chegou a 43%. Logo após os xingamentos dirigidos a Dilma no estádio em São Paulo, Lula culpou a “elite” e os petistas passaram a apostar em um discurso que dividia o eleitorado entre “nós”, o “povo”, o PT, o governo e seus aliados, contra “eles”, a “elite branca” e os adversários políticos. O ex-presidente chegou a falar em “ódio entre classes” fomentado pela “elite” com incentivo da imprensa.

Lula na Eurocâmara em SP

Lula em evento na capital paulistaFelipe Rau/Estadão

Carvalho, titular da Secretaria-Geral da Presidência, foi o primeiro a apontar a para a direção oposta em conversa com blogueiros, na semana passada, quando disse que a insatisfação já chegou a parcelas importantes da população, e que o PT estava errando no diagnóstico. 

Na quarta-feira, em entrevista ao Jornal do SBT, Lula mudou o discurso e admitiu que o PT teve culpa por não “cuidar disso (do clima de insatisfação) com carinho”. Na quinta, dirigentes do partido acompanharam o ajuste no discurso do ex-presidente.

“Não temos conseguido fazer um debate político. Ficamos apanhando muito tempo sem responder adequadamente. Isso inclui o PT, o governo e tudo mais”, disse o líder do PT no Senado, Humberto Costa. 

Segundo ele, pesquisas mostram que a insatisfação é difusa, não tem motivos objetivos, partiu da elite mas chegou às camadas mais populares da sociedade. “O diagnóstico está concluído. Agora estamos fazendo o debate que não fizemos”, disse.

Alberto Cantalice, vice-presidente do PT e responsável pela ação do partido nas redes sociais, disse que a ordem é não deixar acusação sem resposta. “Durante um bom período aguentamos calados todos ataques que sofremos. Nossa luta agora é para resgatar a imagem”, disse o dirigente. 

‘Óbvio’. O secretário nacional de comunicação do PT, José Américo Dias, classificou como “óbvio” o descontentamento em relação ao governo. Os ajustes no discurso petista ocorreram um dia depois de uma reunião do comando da campanha dilmista em Brasília. Dessa reunião participaram, além de Dilma e Lula, ministros do governo, dirigentes petistas e o marqueteiro João Santana. 

Segundo fontes do partido, a avaliação é que o discurso de vitimização de Dilma, usado depois do episódio dos palavrões na abertura da Copa, “rendeu o que tinha que render” e agora é hora de defender o legado do governo, em especial no combate à corrupção. Isso não impede, porém, que a vitimização da presidente volte a ser usada, caso necessário, segundo petistas.

Embora as declarações de Carvalho tenham causado mal estar e críticas entre seus companheiros por supostamente desmontar o discurso de “nós” contra “eles” construído por Lula, a avaliação do ministro foi considerada correta e pesou no ajuste do discurso. “É a opinião de um companheiro valoroso”, disse o presidente do PT, Rui Falcão.

NA VEJA:

Acuado, o PT decide acionar a tecla da intolerância, com decreto bolivariano e lista negra de jornalistas

José Serra escreveu no Estadão de ontem um excelente artigo sobre a decadência do petismo e sua guinada autoritária — dentro do autoritarismo que já está na sua origem. Explica a razão do desarvoramento do partido e aponta como evidências do destrambelhamento o decreto bolivariano da presidente Dilma e a lista negra de jornalistas. Leiam trechos:
*

O PT não é um partido muito tolerante já a partir de seus próprios pressupostos originais e de seu nome: quem se pretende um partido “dos” trabalhadores, não “de” trabalhadores, já ambiciona de saída a condição de monopolista de um setor da sociedade. Mais ainda: reivindica o poder de determinar quem pertence, ou não, a essa categoria em particular. Assim, um operário que não vota no PT, por exemplo, não estará, pois, entre “os” trabalhadores; do mesmo modo, o partido tem conferido a “carteirinha” de operário padrão a pessoas que jamais ganharam o sustento com o fruto do próprio trabalho.

A fórmula petista é conhecida: a máquina partidária suja ou lava reputações a depender de suas necessidades objetivas. Os chamados bandidos de ontem podem ser convertidos à condição de heróis e um herói do passado pode passar a ser tratado como bandido. A única condição para ganhar a bênção é estabelecer com o ente partidário uma relação de subordinação. A partir daí não há limites. Foi assim que o PT promoveu o casamento perverso do patrimonialismo “aggiornado”, traduzido pela elite sindical, com o patrimonialismo tradicional, de velha extração.
(…)
Não tendo mais auroras a oferecer, não sabendo por que governa nem por que pretende governar o País por mais quatro anos, e percebendo que amplos setores da sociedade desconfiam dessa eterna e falsa luta do “nós” contra “eles”, o petismo começa a adentrar terrenos perigosos. Se a prática não chega a ameaçar a democracia – tomara que não! –, é certo que gera turbulências na trajetória do País. No apagar das luzes deste mandato, a presidente Dilma Rousseff decide regulamentar, por decreto – quando poderia fazê-lo por projeto de lei –, os “conselhos populares”. Não por acaso, bane o Congresso do debate, verticalizando essa participação, num claro mecanismo de substituição da democracia representativa pela democracia direta. Na Constituição elas são complementares, não excludentes. Por incrível que pareça – mas sempre afinado com o bolchevismo sem utopia –, o modelo previsto no Decreto 8.243 procura substituir a democracia dos milhões pela democracia dos poucos milhares – quase sempre atrelados ao partido. É como se o PT pretendesse tomar o lugar da sociedade.

Ainda mais detestável: o partido não se inibe de criar uma lista negra de jornalistas – na primeira fornada estão Arnaldo Jabor, Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Guilherme Fiuza, Danilo Gentili, Marcelo Madureira, Demétrio Magnoli e Lobão –, satanizando-os e, evidentemente, expondo-os a riscos. É desnecessário dizer que tenho diferenças, às vezes severas, com vários deles. Isso é parte do jogo. É evidente que o regime democrático não comporta listas negras, sejam feitas pelo Estado, por partidos ou por entidades. Mormente porque, por mais que se possa discordar do ponto de vista de cada um, em que momento eles ameaçaram a democracia? Igualmente falsa – porque há evidência dos fatos – é que sejam tucanos ou “de oposição”. Não são. Mas, e se fossem? Num país livre não se faz esse tipo de questionamento.

Acuado pelos fatos, com receio de perder a eleição, sem oferecer uma resposta para os graves desafios postos no presente e inexoravelmente contratados para o futuro, o PT resolveu acionar a tecla da intolerância para tentar resolver tudo no grito. Cumpre aos defensores da democracia contrariar essa prática e essa perspectiva. Não foi assim que construímos um regime de liberdades públicas no Brasil. O PT está perdendo o eixo e tende a voltar à sua própria natureza.
Leia a íntegra aqui

Por Reinaldo Azevedo

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O Estado de S. Paulo + veja

2 comentários

  • HAROLDO FAGANELLO Dourados - MS

    Existe uma sabedoria que diz: "Pelas AÇÕES as pessoas tentam dizer o que são ou o que pensam, mas são pelas REAÇÕES que elas realmente mostram o que são. Vejam o que Lula e a petesada protagonizaram no caso da VAIA DA DILMA. A REAÇÃO foi própria do apedeuta e da companheirada doentes de coração, carregadas de rancor, porém agora vem a AÇÃO própria de quem tenta dizer como sempre; "OLHA NÓS NÃO SOMOS ASSIM"... E VAMOS EM FRENTE!!!

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  • Edison tarcisio holz Terra Roxa - PR

    ja se foi o tempo que revertiam com mentiras tudo a seo favor

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