Em VEJA: Por que o suco de laranja custa tão caro no Brasil

Publicado em 10/08/2014 09:22 e atualizado em 05/03/2020 18:58 1145 exibições
por Marília Carrera, matéria especial em veja.com

Consumo

Por que o suco de laranja custa tão caro no Brasil

Custo de produção e carga tributária elevados fazem com que o suco natural em caixinha fique bem longe da casa da maior parte dos brasileiros

Marília Carrera
Suco de laranja

BRASIL - maior exportador mundial de suco de laranja, mas não vende para o mercado interno (Getty Images/iStockphoto/VEJA)

A dinâmica de exportações de muitos países produtores de alimentos mostra um comportamento curioso: não raro exportam-se os bons produtos e impõe-se ao mercado interno uma oferta de qualidade inferior. O custo Brasil, que consiste na fórmula nociva de alta carga tributária, infraestrutura ruim e burocracia, é uma das explicações para tal discrepância, pois onera e torna muitos ítens inacessíveis. Um ambiente de baixa concorrência, com poucos players de mercado, também funciona como desestímulo à comercialização de bons artigos. No Brasil, são incontáveis os exemplos de produtos e serviços de preço alto e baixa qualidade ofertados aos consumidores. O setor de alimentos é onde se encontram os casos mais emblemáticos: do café à carne, da soja à cachaça. Contudo, nenhum produto ilustra tão bem essa dinâmica quanto o suco de laranja. Mesmo sendo o maior exportador mundial, com uma produção anual de mais de 850 mil toneladas, o Brasil comercializa, sobretudo, bebidas com pouca fruta e muitos ingredientes artificiais. O consumo do suco verdadeiro — aquele feito com 100% da laranja e sem conservantes ou corantes — é ínfimo: não passa de 59 milhões de litros por ano (o equivalente a um copo de 300 ml por habitante, por ano) enquanto na Grã-Bretanha, por exemplo, chega a 634 milhões. O país europeu é um dos grandes compradores do suco brasileiro, ao lado da Alemanha e da França.

Ainda que o baixo custo da laranja estimule os brasileiros a fazerem em casa seu próprio suco, a praticidade da bebida em caixinha poderia ganhar mais adeptos não fosse seu preço. Levantamento da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) aponta que o valor médio da caixinha ultrapassa 6 reais. Mas, nas gôndolas das grandes cidades, facilmente se encontra um litro por cerca de 10 reais. Na França, por exemplo, um litro de suco integral pode sair por menos de 1 euro (algo em torno de 3 reais). A alta carga tributária, de 27,5% (apenas em ICMS, PIS e Cofins, sem contar os tributos cobrados ao longo do processo produtivo), e a margem de ganho dos varejistas (mark up, no jargão do setor), de 51%, transformam a bebida num verdadeiro artigo de luxo. Na França, esses dois porcentuais são de 5% e 25%, respectivamente.

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Alternativa mais barata é o néctar, que contém um porcentual de 20% a 50% de suco concentrado, e o restante não passa de água, corantes, conservantes e açúcar. Não à toa, consumidores confundem o néctar com o suco verdadeiro. Para se ter uma ideia, o principal envasador de néctar no Brasil é a Coca-Cola, dona da marca Laranja Caseira, cujo preço nas gôndolas está em torno de 5 reais. Já na França, a Coca-Cola comercializa a marca Minute Maid, de sucos 100% naturais, provenientes de um dos três maiores fornecedores brasileiros do produto: a Cutrale. Aos franceses, a Coca não vende néctar, apenas suco. No Brasil, é dona ainda da Del Valle, a marca de néctar mais vendida do país. Procurada pela reportagem, a Coca-Cola não quis comentar por que não vende suco natural no Brasil. “A indústria engarrafadora produz o néctar porque essa bebida tem margem maior. O suco de laranja integral é um produto que precisa de matéria-prima nobre e cara. E, quanto maior o preço, menor o consumo. No Brasil, se o consumo já é baixo e o preço continua subindo, entra-se num círculo vicioso”, explica Ibiapaba de Oliveira Martins Netto, diretor-executivo da CitrusBR, que representa os maiores fornecedores brasileiros de suco concentrado — a commodity usada tanto para fazer o suco, quanto o néctar e o refresco.

VEJAArte - suco de laranja


​As marcas de sucos 100% naturais em caixinha no Brasil são escassas e sua distribuição é limitada aos grandes centros. Entre as principais estão Do Bem, Xandô e Fazenda Bela Vista. Para Marcos Leta, presidente da Do Bem, o consumidor está predisposto a consumir produtos naturais com praticidade. Exemplo disso é que o segmento cresceu 32% apenas em 2013, segundo a Makerstrat. Mas, o preço elevado decorrente dos altos impostos e o fato de muitos confundirem néctar com suco são entraves de difícil solução. “Passamos por dificuldades para fazer varejistas e as próprias pessoas entenderem o que é o suco integral. Quando se falava néctar, imaginava-se que néctar era a coisa mais pura que existia. E é exatamente o contrário", afirma. Refrescos, que possuem ainda menos fruta, e têm preço muito menor, são mais consumidos pelos brasileiros que o próprio néctar — cerca de 854 milhões de litros ao ano, contra 126 milhões de litros. A diferença é que os consumidores dos refrescos são mais conscientes de que se trata de uma bebida artificial. O que não ocorre no caso do néctar.

O professor de Economia e Administração da FEA/USP, Marcos Fava Neves, explica que ainda que o mercado interno de suco de laranja seja pouco desenvolvido, tem potencial de crescimento influenciado, sobretudo, pelo aumento da renda da população e a migração para hábitos de consumo mais saudáveis, substituindo refrigerantes por suco. Outro fator de estímulo é a grande produção local para exportação. "O Brasil tem 50% da produção mundial e 80% do comércio mundial de suco de laranja. Isso significa que temos como abastecer o mercado brasileiro", afirma Netto, da CitrusBR. Para reduzir o preço do produto, a CitrusBR quer que o governo autorize a isenção fiscal — pleito, digamos, audacioso em tempos de arrecadação desacelerada e crescimento econômico próximo de zero. Caso contrário, os brasileiros que quiserem tomar suco natural continuarão com duas opções nem sempre viáveis: pagar caro ou espremer as laranjas.

Comércio exterior

Governo se contradiz ao avaliar impacto das exportações para a Rússia

Enquanto no Ministério do Desenvolvimento o tom é de cautela, na pasta da Agricultura há comemoração e previsão de "nova revolução agrícola"

A Presidente Dilma Rousseff durante cerimônia oficial de chegada do Presidente russo, Vladimir Putin, no Palácio do Planalto, em Brasília

Dilma e Putin: proximidade diplomática após ataque a voo da Malaysia beneficia exportações (Wilson Dias/Agência Brasil/VEJA)

O Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Mauro Borges, minimizou nesta quinta-feira, o impacto de um acordo bilateral entre o país e a Rússia para ampliar as exportações de carnes e outros produtos agrícolas. O país europeu havia anunciado na quarta-feira que busca ampliar suas trocas comerciais com parceiros latino-americanos para compensar a retaliação russa às sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia, em função da crise na Ucrânia. De acordo com Borges, o mercado mundial de alimentos já é "propício" ao Brasil. "Acredito que esse efeito não é significativo para ampliação do mercado brasileiro. Já temos amplo mercado de exportação agrícola para o mundo, então não acredito que essa medida bilateral de retaliação da Rússia em relação a seus parceiros da União Europeia e Estados Unidos vá afetar o mercado brasileiro", afirmou. Contudo, no Ministério da Agricultura, o tom é de comemoração. Prevê-se, inclusive, "uma nova revolução agrícola" no Brasil

O decreto russo foi baixado como resposta às sanções impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia à Rússia, depois que o abatimento de um avião da Malaysia Airlines por míssil disparado por separatistas ucranianos apoiados por Vladimir Putin matou 298 pessoas. Segundo o Kremlin, o veto terá validade de um ano. O Itamaraty sustentou um constrangedor silêncio ao não condenar a responsabilidade russa no ataque. Como resultado, terminou indiretamente beneficiado pela situação.  

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O secretário executivo do Mdic, Daniel Godinho, afirmou que uma missão brasileira do Ministério da Agricultura retorna nesta quinta-feira da Rússia com detalhes sobre as negociações. Os russos também buscam parcerias com Argentina, Chile e Equador — países que tampouco se posicionaram diplomaticamente em relação ao ataque.

Godinho ressaltou, entretanto, que a proposta depende de análise da indústria local sobre a capacidade para atender à nova demanda. "O mercado russo é enorme, mas é um momento de serenidade. É preciso fazer um estudo para saber quais produtos podemos oferecer no curto prazo. Vamos conversar com o setor privado", reforçou.

Agricultura celebra — O posicionamento do Mdic foi mais cauteloso que o do secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Seneri Paludo, que celebrou a decisão russa."Sem dúvida, do ponto de vista de commodities agrícolas, é positivo. A Rússia tem um potencial de grande consumidor de commodities agrícolas, não só de carne" disse. Eufórico, Paludo afirmou que o decreto assinado por Putin abre portas para uma "revolução" nas exportações brasileiras de carne e grãos (milho e soja). 

Paludo foi mais além, afirmando que o movimento político do Kremlin "pode ter um efeito parecido com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2011". "O embargo é uma grande oportunidade para mercado e governo trabalharem para exportar milho e soja. Talvez estejamos vendo um processo que pode causar uma revolução na exportação brasileira", afirmou.

Depois do anúncio do embargo, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, afirmou que a indústria de carne de frango do Brasil tem condições de atender "tranquilamente" uma demanda adicional da Rússia. Ele afirmou, durante evento do setor, que o Brasil teria condições de exportar adicionalmente 150.000 toneladas de carne de frango ao ano para a Rússia, cobrindo cota fornecida pelos EUA. No ano passado, as vendas do país à Rússia atingiram cerca de 60.000 toneladas.

(Com Estadão Conteúdo)

 

Rússia quer Brasil no lugar dos EUA no fornecimento de frango

LISANDRA PARAGUASSU - AGÊNCIA ESTADO

 

Agricultores europeus, no entanto, acusam brasileiros de 'oportunistas' e, em meio à crise, podem levar episódio à OMC

BRASÍLIA - Em reunião na tarde de hoje em Moscou, o governo russo informou a representantes brasileiros que pretende que o Brasil ocupe o lugar dos Estados Unidos no fornecimento de frango ao país, uma importação que chega a 200 mil toneladas do produto. A Rússia já pretende aumentar a importação de carnes brasileiras - além do frango, suínos e bovinos - a partir de setembro. 

Conforme divulgou o Estadoagricultores europeus acusam os exportadores brasileiros de "oportunistas" diante da crise na Rússia

Durante o encontro,  o governo russo também informou que planeja comprar frutas e legumes brasileiros, a depender da disponibilidade dos produtores nacionais. Ainda não se falou em números, mas o Ministério da Agricultura deve começar um levantamento sobre a capacidade de fornecimento o agronegócio nacional.

 Também foi acertada a participação de uma missão brasileira na World Food 2014, uma feira internacional de alimentos que acontece em Moscou entre 15 e 18 de setembro. A intenção é apresentar produtos nacionais que possam ocupar o espaço deixado pelo boicote russo a importações dos Estados Unidos, União Europeia e Austrália. 

A Rússia decidiu bloquear a importação de carnes, frutas, legumes, leites e derivados e nozes como resposta às sanções econômicas impostas por americanos, europeus e australianos pela ação russa na Ucrânia. O bloqueio entrou em vigor este mês e vale por um ano, ou até que as sanções sejam revistas. 

O Brasil já é um dos principais fornecedores de carne para a Rússia e deve aumentar sua participação com a ampliação da concessão de certificados sanitários a frigoríficos nacionais, definida essa semana pelo governo russo. 

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veja.com.br + estadao

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