No EL PAÍS: Europa critica América Latina por se aproveitar do veto russo

Publicado em 12/08/2014 04:59 e atualizado em 13/08/2014 06:13 1124 exibições
Após o veto de Putin a alimentos dos EUA e da Europa, 89 estabelecimentos do Brasil foram liberados para a venda de carnes, aves e laticínios

A rapidez de vários Governos latino-americanos em se oferecerem como parceiros comerciais da Rússia não caiu nada bem em Bruxelas. A Comissão Europeia transmitirá aos representantes de “um grupo de países” do continente americano seu desacordo com a rápida reação depois das sanções russas aos produtos agrícolas dos EUA, Austrália, Canadá e Noruega, e começará a notificá-los para “reconsiderar” seus contratos em andamento com um parceiro “não fiável” como Moscou, segundo confirmaram fontes ligadas à UE na segunda-feira.

Com este movimento, a União Europeia procura chamar a atenção de um movimento que não considera leal, mesmo que seus 28 Estados membro não pretendam turvar suas boas relações diplomáticas e comerciais com países como Brasil ou Argentina.

“Podemos entender que produtores e exportadores, empresas privadas em última instância, busquem novas oportunidades. O que não compartilhamos é que haja Governos por trás disso”, afirmaram. Estas mesmas fontes enfatizaram que a UE não se imiscuirá em contratos privados, mas “lamentam” a atitude desse grupo de países e advertem da escassa integridade de Moscou como parceiro comercial. “Sacrificariam uma relação econômica em longo prazo por benefícios em curto prazo”.

Dessa atitude, Bruxelas recebeu na mesma segunda-feira outra boa mostra. Neste caso, de Buenos Aires: “A Argentina gerará as condições para que o setor privado, com o impulso do Estado, possa satisfazer a demanda do mercado russo”, afirmou o chefe de gabinete do Governo argentino, Jorge Capitanich, informa a agência Efe.

Com a assinatura desses acordos comerciais, a Rússia — o quinto maior importador de alimentos do mundo — procura suprir parte das carências que sua ruptura unilateral com a UE e os EUA poderia deixar em seu mercado interno. Apenas em 2013, as compras de alimentos europeus, agora vetadas, somaram 5,252 bilhões de euros (cerca de 16 bilhões de reais).

Em Bruxelas já havia caído especialmente mal que os embaixadores de Argentina, Chile, Equador e Uruguai em Moscou tenham se reunido com o maior responsável pelo Serviço de Inspeção Agrícola e Pecuária russo, Serguei Dankvert, poucas horas depois de o Kremlin decretar a proibição das importações.

O descontentamento europeu com as gestões de vários Governos latino-americanos com Moscou chega em um momento decisivo nas negociações para a assinatura de um tratado de livre comércio entre a EU e o Mercosul —o bloco regional que engloba Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. Depois de quase duas décadas de conversações, os países latino-americanos esperam uma proposta europeia e os próximos meses, com a chegada de um novo Colégio de Comissários a Bruxelas, serão fundamentais.

Mesmo que o Executivo comunitário prefira não relacionar o mal-estar da UE com o potencial acordo com o Mercosul, vários funcionários europeus contrastavam na segunda-feira sua atitude com a “lealdade manifesta” de países como Austrália, Canadá e Noruega, que fizeram suas as sanções contra a Rússia.

Apesar do mal-estar, o Executivo europeu optará por uma queixa de perfil baixo. Nos próximos dias, representantes diplomáticos europeus transmitirão o protesto aos seus homólogos latino-americanos e, por enquanto, o aviso não ultrapassará o âmbito político. A UE estuda canalizar a mensagem por meio das delegações desses países nas instituições comunitárias ou pelos escritórios de representação da Comissão Europeia nas capitais latino-americanas.

Bruxelas lida também com um mal-estar interno, o dos produtores agrícolas. Já está programada uma reunião para abordar o assunto, nesta quinta-feira, mas o comissário de Agricultura, Dacian Ciolos, afirmou na segunda-feira que, por enquanto, serão adotadas “medidas de apoio” aos produtores de pêssego e nectarina, que ao veto russo somam os efeitos de “condições meteorológicas adversas”.

Na 5a.-feira Rússia anunciou importação recorde de carne brasileira

O serviço sanitário russo autorizou nesta quinta-feira a liberação recorde de 89 estabelecimentos brasileiros para a exportação de carnes e laticínios à Rússia. A habilitação desses estabelecimentos se dá a toque de caixa no mesmo dia em que o presidente Vladimir Putin anunciou o veto à importação de alimentos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa. O veto é uma resposta às sanções desses países à Rússia, em função da crise ucraniana. A interrupção das relações comerciais com os antigos parceiros tem validade de um ano, podendo ser revista antes desse prazo.

A notícia animou o mercado exportador brasileiro. “Isso é surpreendente, nunca se chegou a tanto”, diz José Augusto Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. “A Rússia sempre foi reticente ao país, erguendo barreiras fitossanitárias”, explica. Castro prevê que o Brasil pode faturar 500 milhões de dólares com as exportações ao mercado russo. “O mais importante para os exportadores brasileiros agora é ganhar o mercado e mantê-lo depois desse um ano de sanção”, diz.

O vice-presidente de aves da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin, acredita que o episódio está mostrando que o Brasil é um porto seguro. “Temos condições de fornecer carne para a Rússia pelo período que eles precisarem, seja de um ano ou mais”, diz Santin. Apenas com a venda de carne suína e de frango os produtores devem garantir uma receita de 200 a 300 milhões de dólares.

A carne de frango é a que tem as melhores condições de ganhar mercado na Rússia. “Enquanto um suíno leva de oito a dez meses para ficar pronto para o abate, o frango precisa de cerca de 45 dias”, explica. Hoje, 36% da carne de porco brasileira que é exportada vai para a Rússia, enquanto o frango representa entre 4% e 5%. “Por isso há mais espaço para o crescimento”, diz.

A boa notícia para o comércio exterior, porém, pode afetar o mercado interno brasileiro, já que, se a demanda aumentar, o preço da carne no Brasil também deve subir. “Se tivermos um comprador retirando uma quantidade grande e inesperada de carne, haverá um reflexo [no mercado interno]”, avalia. “Mas a cadeia tem um estoque. Não vai faltar comida para o brasileiro, mas haverá sim uma readequação dos preços”.

Rússia já é o principal destino das exportações brasileiras de carnes suína e bovina. Apenas de carne bovina in natura, foram 303.000 toneladas em 2013, gerando 1,2 bilhão de dólares em receitas. De carne suína, foram exportados 134.000 toneladas, com receita na ordem de 412 milhões de dólares. Ao todo, a venda de itens agropecuários para o mercado russo - que inclui café, açúcar, soja, entre outros -, garantiu o ingresso de 2,72 bilhões de dólares.

Criação de gado em São Félix do Xingu, no Pará. / FERNANDO BIZERRA JR. (EFE)

A escassez e a inflação reduzem a alimentação básica na Venezuela

O Instituto de Estatística constata que no segundo semestre de 2013 houve uma queda na aquisição de produtos alimentícios. As vendas de farinha de milho, base da dieta cotidiana, caíram 16,5%

Instituto Nacional de Estatística da Venezuela impôs o segundo golpe duro ao Governo em menos de um mês. Em maio, a entidade havia revelado que 737.000 venezuelanos caíram para a pobreza extrema. E, neste mês, a Pesquisa de Acompanhamento do Consumo de Mantimentos concluiu que, entre o segundo semestre de 2012 e o mesmo período de 2013, houve uma queda generalizada no consumo diário de mantimentos básicos. Dos 43 itens incluídos no estudo, 41 tiveram redução do consumo. Em alguns casos, houve um desabamento notável, como no da farinha de milho (-16,55%), a base para o preparo das arepas – comida tradicional venezuelana no café da manhã e no jantar.

Por tabela, o INE desmentiu a nomenklatura chavista, cujos integrantes asseguraram, em diversas ocasiões, desde 2013, que a escassez e o desabastecimento crônicos se explicavam pelo fato de os venezuelanos agora poderem consumir mais. Já era um argumento difícil de acreditar, dada a queda brutal do poder aquisitivo, segundo analistas e comentaristas. A inflação anualizada entre maio de 2013 e o mesmo mês de 2014 ficou em 60,9%, apesar de o Governo ter aumentado o salário mínimo em 40% no período de um ano, a maior expansão de toda a era chavista até março, num esforço para tentar compensar a redução da renda. Esse salário mal cobre o custo da cesta básica de alimentos, que em janeiro de 2014 era estimada oficialmente pelo INE em 3.641 bolívares (162 reais, segundo a taxa mais alta do câmbio oficial). 

Essas cifras negativas não receberam na imprensa estatal a mesma cobertura dada anteriormente aos feitos do regime. Em outubro de 2005, por exemplo, o então presidente Hugo Chávez declarou a Venezuela como território livre do analfabetismo, depois de aplicar durante dois anos um programa concebido em Cuba. Durante muitos anos, o chavismo se queixou de que os meios de comunicação não oficiais costumam minimizar seus feitos e lutas.Além da farinha de milho pré-cozida, os outros oito mantimentos básicos que mais deixaram de ser consumidos na Venezuela, segundo esses dados, foram: arroz (-10,55%), bananas (-7,38%), massas (-7,55%), açúcar (-7,65%), carne bovina (-7,3%) mamão (-4,69%), pão de trigo (-1,8%) e batata (-2%). Também caiu o consumo de frango (-7,43%), peixe fresco (-5,83%), leite em pó integral (-7,5%) e leite líquido (-13,6%). As reduções abrangem 55 dos 62 produtos da cesta alimentícia.

Os resultados da pesquisa do INE podem ser explicados por dois pontos de vista: um, a impossibilidade de conseguir no supermercado todos os mantimentos da cesta básica, cujo preço está regulado pelo governo e não pode ser ajustado à velocidade da inflação. O índice de escassez reportado pelo Banco Central da Venezuela em março chegou a 26,2%, quase nove pontos a mais que no terceiro mês de 2013, quando foi de 17,7% O outro argumento é a queda do poder aquisitivo. Entre maio de 2013 e esse mesmo mês de 2014, a inflação dos mantimentos e bebidas não alcoólicas subiu 76,2%. 

As estatísticas são divulgadas num momento em que a Venezuela analisa uma nova desvalorização para tentar corrigir as distorções ocasionadas pelo controle cambial adotado há mais de 11 anos. Os gastos superam a arrecadação em quase 15% do PIB, e o Governo precisa de mais divisas por cada dólar que recebe pela venda de petróleo. No domingo, o jornal Últimas Notícias, adquirido recentemente por investidores chavistas, reproduziu em sua manchete principal declarações do vice-presidente da área econômica, Rafael Ramírez, numa reunião com operadoras do setor financeiro internacional em Londres. “Existe a necessidade de convergir para um novo sistema cambial em curto prazo”, afirmou.

Se for assim, é possível que se eliminem por completo as importações ao câmbio oficial de 6,3 bolívares por dólar, usado para a aquisição no exterior de alimentos básicos e medicamentos. A desvalorização aumentará o custo das matérias-primas e dos mantimentos e obrigará o Governo a elevar o preço dos produtos controlados. Mas, como acontece com o adiado anúncio do aumento da gasolina, essas decisões dependerão da situação interna.

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Fonte:
El País

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