A mágica do mercado interno virou fumaça, por ROLF KUNTZ - O ESTADO DE S.PAULO

Publicado em 17/08/2014 00:36 569 exibições
em O ESTADO DE S. PAULO, artigo publicado na pagina 2 da edição deste sábado

Perdido o primeiro semestre, o governo terá de rezar com muito fervor para fechar o ano com o mísero crescimento econômico previsto há dois meses pelo Banco Central (BC), 1,6%. No setor privado as apostas há muito tempo estão abaixo desse número. No dia 8 a mediana das projeções do mercado, coletadas entre instituições financeiras e consultorias, já estava em 0,81%. Quatro semanas antes havia chegado a 1,05%. Só no fim do mês o IBGE divulgará os novos números do produto interno bruto (PIB) e mostrará, de acordo com os padrões oficiais, o tamanho do desastre nos primeiros seis meses. Por enquanto, a informação mais aproximada é o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Publicados na sexta-feira, os dados mostraram queda mensal de 1,48% em junho e crescimento de apenas 0,08% no semestre. Esses números são da série depurada de efeitos sazonais.

A Copa das Copas tem sido usada como desculpa, ou meia explicação, para o emperramento da atividade em junho: menos dias de trabalho, adiamento de compras e coisas parecidas. Mas a Copa das Copas, também anunciada como a melhor de todos os tempos, durou umas quatro semanas. A economia, no entanto, foi mal durante seis meses - sem contar, é claro, o período entre o começo de 2011 e o fim de 2013. A presidente Dilma Rousseff e sua equipe cuidaram de manter em 2014 um desempenho econômico à altura dos três anos anteriores. Não tomaram, pelo menos até agora, uma única e solitária medida para renegar o padrão. Seu sucesso é confirmado pelos principais indicadores - contas públicas em frangalhos, inflação ainda ameaçadora, investimento baixo e balanço de pagamentos esburacado.

O baixo investimento é explicável tanto pela má condução dos programas oficiais quanto pela desconfiança dos dirigentes da indústria. Muitos podem até apoiar politicamente o governo e aplaudir o protecionismo e os favores setoriais, mas aplicar dinheiro em máquinas, equipamentos e instalações é outra história. A produção de bens de capital no primeiro semestre foi 8,3% menor que a de um ano antes, segundo o IBGE. Os empresários terão substituído máquinas e equipamentos nacionais por estrangeiros? Nem isso. O valor gasto com a importação desse tipo de produto, entre janeiro e julho, foi 6% menor que nos sete meses correspondentes de 2013, pela média diária.

Apesar disso, fabricantes estrangeiros de bens de capital até podem ter ocupado uma parcela maior do mercado interno. Mas, no balanço geral, tudo indica, por enquanto, um corte do investimento em bens de produção. A pior situação, de toda forma, é a dos produtores nacionais, pressionados pela combinação de procura em queda e custos em alta. Com dificuldades para competir no mercado externo, têm de enfrentar, ainda, a retração dos compradores nacionais.

Na maior parte dos últimos seis anos, desde o começo da recessão internacional, o governo brasileiro alardeou o vigor e a dimensão do mercado interno como fator de segurança contra a crise. A insistência nos estímulos ao consumo foi uma consequência dessa concepção - e da percepção errada, naturalmente, do problema e das soluções possíveis.

Se a presidente e sua equipe fossem mais atentas aos fatos, teriam percebido há muito tempo os erros de sua estratégia. Apesar dos incentivos fiscais a alguns setores, da expansão do crédito e da elevação da renda dos consumidores, a indústria brasileira teve um desempenho muito fraco durante os últimos anos. Alguns setores mais beneficiados pelos incentivos conseguiram boas vendas e lucros, durante algum tempo, porém nem esses aproveitaram as vantagens para ganhar poder de competição. Mas até a mágica do mercado interno parece estar acabando, como indicam os últimos números do comércio varejista. De janeiro a junho, as vendas foram 4,2% maiores que as do primeiro semestre do ano anterior, sem contar veículos, componentes e material de construção. Com a inclusão desses itens, a diferença fica em apenas 0,1%.

O mercado interno está sendo incapaz de acompanhar a produção de automóveis, disse na quarta-feira o vice-presidente da associação nacional das montadoras, Antônio Carlos Botelho Megale. A solução, segundo ele, é exportar mais. Outros segmentos mal acompanharam - ou nem acompanharam - a expansão da procura, nos últimos anos, como indica o aumento de importações. Todos estariam agora em melhor situação, e com melhores perspectivas, se houvessem cuidado mais do poder de competição e da ocupação de espaços dentro e fora do País.

Para exportar a indústria automobilística depende amplamente do mercado argentino, estagnado e protegido. A maior parte das indústrias, com algumas exceções notáveis, acostumou-se a exportar principalmente para os vizinhos. Agora nem esse mercado é garantido, por causa da invasão da turma da Ásia. Até no Mercosul esses competidores têm deslocado os brasileiros. Mas a concorrência vem também de economias desenvolvidas, facilitada pelos acordos comerciais dos latino-americanos com as potências da América do Norte e da Europa.

Esnobar o mundo rico foi uma das espertezas da diplomacia comercial brasileira a partir de 2003. Boa parte da indústria aceitou esse jogo e se acomodou como fornecedora de países da vizinhança. Alguns exportadores continuaram batalhando pelos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Mas tiveram problemas crescentes de competitividade. O ambiente de ineficiência - tributação irracional, logística ruim, inflação elevada, intervencionismo desastrado, etc. - prejudicou também as empresas bem organizadas e equipadas. Nos últimos 12 anos o País foi orientado para jogar na segunda ou na terceira divisão. Falta explicar esse detalhe ao resto do mundo e pedir compreensão. 

Quais os riscos econômicos com Marina presidente?, por FERNANDO DANTAS

Riscos de uma eventual presidência de Marina são circunscritos: estão menos na macroeconomia e mais no agronegócio e no setor energético. Agricultura, porém, é forte e resiste a restrições. Já o panorama de energia é frágil, e dogmatismo militante pode ser grande empecilho ao crescimento.

Não há certeza ainda de que Marina Silva será candidata no lugar de Eduardo Campos, vítima do trágico acidente da quarta-feira (13/8/14), mas esta possibilidade está crescendo e é impossível deixar de pensar no cenário em que ela encabece a chapa do PSB. Afinal, Marina é uma das grandes lideranças políticas do Brasil, com uma história de vida emblemática no bom sentido, uma ambição ética acima do normal na política brasileira e um comprometimento forte com as questões ambientais, um dos temas definidores da nossa época. É difícil encontrar um perfil mais presidenciável e, diante da oportunidade histórica derivada de uma situação dramática, seria bastante frustrante para seus potenciais eleitores que ela não assumisse o projeto que vinha tecendo a dois com Campos.

Em termos econômicos, a candidatura de Marina pode implicar mudanças na chapa até quarta-feira (13/8) encabeçada por Campos. O ex-governador de Pernambuco desperta mais confiança no empresariado que a ex-petista. No momento em que a economia brasileira está quase parando por um fenômeno explicado em boa parte pela crise de confiança, a troca do candidato por Marina na chapa do PSB pode ter algum efeito negativo nas expectativas, caso ela desponte como uma contendora competitiva e com chances de ganhar.

Nesse sentido, é interessante rememorar o recente debate entre assessores econômicos na Globo News, mediado pela jornalista Monica Waldvogel, e que reuniu Marcio Holland, secretário de Política Econômica do governo Dilma; Mansueto Almeida, assessor de Aécio Neves; e Eduardo Gianetti da Fonseca, conselheiro da chapa Campos-Marina.

Apesar de todo o esforço de Campos de aparecer como uma terceira via entre petistas e tucanos, o que se viu na discussão dos assessores – e que é válido ao menos para o campo da política econômica – foi que a plataforma de Aécio e da candidatura socialista era praticamente idêntica.

Almeida e Gianetti uniram-se nas críticas a Holland, o que, em princípio, poderia ser um mero arranjo tático de conveniência – duas candidaturas postulantes abrem fogo conjunto contra os favoritos. O interessante, porém, é que o ponto de partida das fustigadas dos dois assessores da oposição era indistinguível. Ambos buscaram mostrar como a política heterodoxa do governo de Dilma Rousseff estava errada e causara os atuais problemas do País. Ambos defenderam um retorno a um arranjo mais ortodoxo, com resgate da austeridade fiscal, combate à inflação e fim do excesso de intervencionismo.

A grande questão é saber se Gianetti (e André Lara Resende, outro economista que pende para a ortodoxia nos temas macro) seria tão ouvido por Marina como aparentemente estava sendo por Campos. Alguns no mercado financeiro temem o alegado radicalismo de Marina, caso ela venha a se tornar uma candidata com chances, mas é bom lembrar que já na campanha de 2010 ela teve boa interlocução com economistas ortodoxos, e sinalizava que a política macroeconômica teria uma condução técnica, e mais centrista do que à esquerda.

Na verdade, o radicalismo de Marina, se de fato existe, é circunscrito a temas específicos ligados ao seu ativismo ambiental. No agronegócio, é certo que ela crie áreas de atritos caso chegue à presidência. Este é, contudo, o setor mais potente da economia brasileira, e é difícil imaginar que quaisquer ônus adicionais de caráter ambiental ou de respeito às populações indígenas que Marina impinja aos empresários do campo será capaz de descarrilar uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Uma questão particularmente delicada são os transgênicos. A biotecnologia é dos poucos setores em que o Brasil reúne condições para estar no estado da arte global, e isso já vem sendo retardado pelas atuais restrições legais à engenharia genética na alimentação. Evidentemente, esta é uma questão que depende da perspectiva de cada um – para muitos eleitores, é melhor viver num país com mínimos riscos à saúde pelo consumo de transgênicos do que promover um setor de ponta tecnológica no país. De qualquer forma, mais restrições nesta área deverão tornar ainda mais difícil para o Brasil transformar em realidade o seu protagonismo potencial neste segmento da economia do conhecimento.

Uma questão talvez mais séria em termos sistêmicos para a economia brasileira, numa eventual presidência de Marina, é a área energética. O País tem dificuldades de investir com seu setor público e em agilizar a parceria com a iniciativa privada em grandes projetos de infraestrutura, e já está bastante atrasado em termos de compatibilizar a capacidade energética instalada com a demanda, mesmo com uma economia que cresce pifiamente.

As iniciativas da presidente Dilma para baratear as tarifas, aliadas ao clima desfavorável, agravaram o desequilíbrio entre as trajetórias da oferta e da demanda em energia. Se o setor for agora alvejado por novas restrições ambientais, desenhadas mais pelo sectarismo militante do que pelo bom-senso técnico, este pode vir a ser um dos maiores gargalos a bloquear a retomada da economia brasileira.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast ([email protected])

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/8/14, quinta-feira.

 

Qual é o grau de vulnerabilidade do Brasil?

FERNANDO DANTAS

Duas importantes questões, de consequências encadeadas, estão no radar dos investidores e participantes do mercado financeiro envolvidos com o Brasil. A primeira é se e quando o cenário de altíssima liquidez internacional vai se reverter de maneira definitiva, com uma recuperação irreversível da economia norte-americana. A segunda é o grau de vulnerabilidade da economia brasileira [...]

Duas importantes questões, de consequências encadeadas, estão no radar dos investidores e participantes do mercado financeiro envolvidos com o Brasil. A primeira é se e quando o cenário de altíssima liquidez internacional vai se reverter de maneira definitiva, com uma recuperação irreversível da economia norte-americana. A segunda é o grau de vulnerabilidade da economia brasileira a esse cenário de liquidez mais restrita, no qual os capitais tenderão a retornar ao centro, dificultando ou até talvez impossibilitando o financiamento de países deficitários. Um risco paralelo é uma desaceleração mais forte da China, que reduza a capacidade de produtores de commodities como o Brasil de acumular divisas exportando matérias-primas.

A segunda questão, sobre a fragilidade do Brasil, é objeto de forte debate entre o governo e seus críticos. Em fevereiro deste ano, o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) publicou um box, em seu Relatório de Política Monetária, sobre as vulnerabilidades das economias emergentes em cenário de estresse financeiro internacional. O Brasil figurava como o segundo mais frágil entre 15 países analisados.

Na época, o governo e a equipe econômica reagiram à análise do Fed, considerando-a inadequada. De lá para cá, outras visões semelhantes à do BC americano foram veiculadas, e a reação do governo foi parecida.

O economista Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, está entre os que considera o Brasil particularmente vulnerável a uma reviravolta da liquidez internacional. Ele vem se debruçando sobre o tema e revisitou o box do Fed de fevereiro.

Castelar fez um exercício de medição de vulnerabilidade a partir do que foi realizado pelo Fed, mas incluiu três outros países (Hungria, Peru e Polônia) e três outros indicadores (além dos utilizados pelo BC americano): o resultado nominal das contas do governo geral, a taxa média de crescimento do PIB nos últimos três anos (2011-13) e o investimento direto estrangeiro como proporção do PIB. Ele nota que o próprio ministro Mantega citou o crescimento como uma variável importante, ao criticar a classificação do Brasil no indicador do Fed, e o investimento estrangeiro direto para o País é recorrentemente citado pelos que discordam da tese da vulnerabilidade brasileira.

Os indicadores usados pelo Fed foram o saldo em conta corrente como proporção do PIB; a dívida bruta do setor público como proporção do PIB; a inflação anual média do último triênio; a variação no último quinquênio do crédito bancário ao setor privado como proporção do PIB; a relação entre a dívida externa total e as exportações; e a razão entre reservas internacionais e o PIB.

Os países incluídos pelo Fed foram África do Sul, Brasil, Chile, China, Colômbia, Coreia, Filipinas, Índia, Indonésia, Malásia, México, Rússia, Tailândia, Taiwan e Turquia.

O Fed não detalhou a metodologia do indicador de vulnerabilidade.

Castelar criou uma escala para os indicadores, e agregou-os em um único índice, em que zero é o melhor resultado teoricamente possível e 100 é o pior (também teoricamente, nenhum país ficou nos extremos no índice agregado). De qualquer forma, quanto maior o índice agregado, pior.

Depois disso, Castelar ranqueou cada país pelo grau de vulnerabilidade em duas versões: usando apenas os seis indicadores do Fed (mas para os 18 países, isto é, os selecionados pelo FMI mais os três acréscimos citados); e utilizando o conjunto de nove indicadores com o acréscimo mencionado de outros três.

No primeiro ranking, com 72,3, o Brasil é o segundo país mais vulnerável, perdendo apenas para a Turquia, com 77,4. Quando se agregam os nove indicadores, o Brasil fica com 62,9, mas, neste novo ranking, figura como o mais vulnerável entre os 18 países.

Para o pesquisador do Ibre, o governo deveria levar a questão da vulnerabilidade brasileira a sério, em vez de contestar as análises que a apontam: “Melhor do que brigar com os números seria fazer as reformas necessárias para corrigir esse quadro”.

A análise completa e mais detalhada de Castelar está neste link.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast ([email protected])

Tags:
Fonte:
O Estado de S. Paulo

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário