Na FOLHA: "Campanha postiça"

Publicado em 23/08/2014 06:36 e atualizado em 24/08/2014 21:24 1090 exibições

Campanha postiça, editorial da Folha

Nessa primeira semana de programas políticos e inserções no rádio e na TV, candidatos apresentam aos eleitores um Brasil artificial

Em sua vida de privações, a trabalhadora rural Marinalva Gomes Filha pode se considerar uma mulher de sorte. Escolhida para participar de uma gravação de imagens para a campanha da presidente Dilma Rousseff (PT), dona Nalvinha, como é chamada pelos conhecidos, foi agraciada, na véspera, com uma prótese dentária.

A moradora do sertão baiano também se viu contemplada com melhorias em sua casa: o velho fogão a lenha foi ampliado e ganhou um muro de proteção. Beneficiária do programa Água para Todos e de um convênio firmado entre o governo federal e o da Bahia, ela mereceu tratamento preferencial para representar o povo na TV.

A prótese e as obras domésticas que favoreceram dona Nalvinha estão em perfeita sintonia com os cânones da propaganda eleitoral. É também um Brasil postiço que se tem visto nessa primeira semana de programas e inserções dos candidatos no rádio e na TV.

Enquanto Dilma Rousseff apresenta gente feliz e um país transformado em canteiro de obras, a avançar como nunca na infraestrutura, os seus oponentes, sobretudo Aécio Neves (PSDB), carregam nas tintas para pintar um Brasil fracassado, que parece caminhar rumo a um futuro de trevas.

De Marina Silva, cuja campanha na TV começa de fato hoje, dificilmente se poderá esperar mensagens menos fantasiosas. Suas promessas de realizar uma "nova política", por exemplo, esbarram não apenas nos inevitáveis acordos eleitorais como na evidência de que é impossível governar de um palácio imaculado e flutuante, acima dos embates da realidade.

A campanha do PSB, aliás, também já havia sido vítima de efeito semelhante ao ilustrado pela trabalhadora rural. Edivaldo Manoel Sevino, dono de uma casa em Osasco que serviria como "comitê voluntário" da coligação, surpreendeu ao explicar os motivos que o levaram a oferecer sua residência.

Questionado durante uma gravação, foi ao ponto: "Me prometeram unzinho'", disse, enquanto fazia com a mão um gesto que indicava a expectativa argentária. O vídeo, claro, foi engavetado.

Transformados em produtos publicitários no modelo vigente do horário eleitoral gratuito --na realidade remunerado com recursos públicos--, os candidatos repetem um padrão postiço que mais investe em truques de marketing do que na discussão realista de propostas.

Nessa toada, os verdadeiros derrotados são os eleitores --até mesmo a agradecida dona Nalvinha e o sincero Edivaldo.

FERNANDO RODRIGUES

Dois dentes e um fogão

BRASÍLIA - É possível que Dilma Rousseff não tenha sido consultada quando alguém decidiu dar dois dentes novos a Marinalva Gomes. Moradora de Batatinha, na Bahia, dona Nalvinha ganhou a prótese um dia antes de a petista passar em sua casa para gravar um comercial.

Não concebo um assessor levando o assunto a Dilma: "Presidenta, encontramos uma sertaneja na Bahia. Ela vai recebê-la e gravar imagens para a campanha. É a dona Nalvinha, que é banguela. Mas vamos dar a ela os dois dentes da frente antes de a sra. chegar. Tudo bem?"

Parece evidente que ninguém teria coragem de vocalizar tal ideia de jerico para a presidente. Só que esse não é o ponto. A atitude errada prosperou porque o ambiente a favorece.

Áulicos sentiram-se à vontade. Colocaram o plano em execução. A equipe de TV dilmista talvez tenha chegado a Batatinha com antecedência. A maquiagem estava em curso. Além dos dois dentes, como relatou o jornalista João Pedro Pitombo, dona Dalvinha também ganhou um fogão à lenha ampliado. Imagem é tudo.

O assistencialismo é um dos traços mais retrógrados da rudimentar democracia brasileira. Evoca o pior do país. Os dois dentes e o fogão de dona Dalvinha carimbam em Dilma a marca do atraso que um dia o PT combateu. Até ontem à tarde, o fogão à lenha de Batatinha era exibido num vídeo no site Dilma Muda Mais. Cabe perguntar: muda mais o quê?

O governador da Bahia, o petista Jaques Wagner, produziu a melhor frase sobre o episódio: "Todo mundo bota roupa bonita para receber a presidenta". É verdade. Quem não tem dentes ganha alguns na véspera.

Com avanço da tecnologia, as imagens das propagandas de candidatos governistas mostram um mundo idílico. O céu de São Paulo nunca é tão azul como no horário eleitoral. As rodovias de Dilma parecem estar na Alemanha, de tão lindas e perfeitas.

Pena que seja impossível morar dentro da propaganda do governo.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

1 comentário

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. João Olivi, pelo andar da carruagem, o governo petista vai editar uma MP (medida provisória) para ser realizado um “RECALL NOS RELÓGIOS”. A nova ordem será:

    TODOS OS RELÓGIOS DEVEM GIRAR OS SEUS PONTEIROS À ESQUERDA!! Os ponteiros vão girar no sentido anti-horário, pois no sentido horário, os ponteiros giram “à direita”.

    ....”E VAMOS EM FRENTE” ! ! !....

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