Na VEJA: Usinas de etanol em crise pela política de subsídios do governo à Petrobras

Publicado em 24/08/2014 21:10 1505 exibições
Endividado e achatado pela política de subsídios do governo à Petrobras, setor passa por sua pior crise; mas se tivesse melhorado sua eficiência no momento de euforia, tudo poderia ter sido diferente, diz a veja.com

Agronegócio

O problema do etanol não é só a Petrobras — mas a produtividade

Endividado e achatado pela política de subsídios do governo à Petrobras, setor passa por sua pior crise; mas se tivesse melhorado sua eficiência no momento de euforia, tudo poderia ter sido diferente

Naiara Infante Bertão e Ana Clara Costa
Canavial em Pedro Afonso (TO)

Canavial em Pedro Afonso (TO): usineiros investiram em terra, não em mudas mais produtivas (Cristiano Mariz/VEJA)

A crise no setor sucroalcooleiro virou assunto de campanha eleitoral. Depois de sete anos em que o setor permaneceu à margem dos interesses e da política industrial dos governos petistas (desde o anúncio do pré-sal, em 2007), agora, os empresários do setor começam a ouvir um rosário de promessas de todas as esferas da República. Afinal, no tudo ou nada da política, convém aos candidatos buscar apoio dos mais necessitados. E, no campo empresarial, nem mesmo a indústria de transformação vai tão mal quanto as usinas de etanol. A derrocada tem sido atribuída pelos próprios empresários à Petrobras e, indiretamente, ao governo. Mas não é bem assim. É verdade que, depois do pré-sal, o estímulo à energia limpa que vinha sendo empreendido nos primeiros anos do governo Lula foi colocado de escanteio, abrindo espaço para uma preferência declarada por combustíveis fósseis e uma veneração descabida do PT pela Petrobras. A situação se agravou quando o governo Dilma passou a interferir nos reajustes de preço da gasolina, tornando o preço do etanol cada vez menos competitivo. Mas, se 70% dos grupos usineiros do país estão em recuperação judicial, muito se deve, também, à fragilidade da gestão e a investimentos errados. Nos últimos quinze anos, o setor sucroalcooleiro assistiu a uma aceleração não só na demanda por etanol, mas também na modernização do processo produtivo. Num período curto, um segmento dominado por empresas familiares se viu obrigado a buscar profissionalização, melhorar a gestão e investir pesado em maquinário, ao mesmo tempo em que melhorava a produtividade. Com ou sem as trapalhadas do governo, poucas souberam seguir o caminho certo.

O bonde passou — Apesar de ter saído do radar do governo desde 2007, o setor começou a titubear dois anos depois, com os efeitos da crise financeira minando o crédito para empresas no Brasil e no exterior. Mesmo endividados, empresários conseguiram manter a produção até 2011 porque vinham investindo, sobretudo, no aumento da área plantada de cana-de-açúcar — nas não em produtividade ou melhoria das mudas. "As usinas começaram a se profissionalizar, mas ainda tinham muita interferência familiar. Muitas aproveitaram a euforia para investir em terra num momento de explosão do agronegócio, em que a terra estava muito cara. Além disso, arrendaram terras a preços altos e, depois, não conseguiam pagar pela cana", afirma Lars Schobinger, da consultoria Kleffman. Ao passo que faziam investimentos ousados no aumento das plantações, as usinas passaram a cortar custos e, consequentemente, a perder qualidade no manejo da lavoura. “Muitas não usam, desde então, mudas de qualidade, não planejam seus viveiros, não fazem uma gestão adequada da lavoura, não investem na infraestrutura da própria usina e prezam mais a quantidade do que a qualidade”, resume Virgílio Vicino, do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), entidade responsável por trabalhar a inovação nas mudas da planta. 

VEJAProdutividade no etanol

Segundo Vicino, mudas novas têm um potencial genético 13% mais produtivo, se o manejo for adequado. O ideal é que, anualmente, 20% do canavial seja renovado para que se consiga, em cinco anos, substituir todas as mudas e avançar em produtividade. Contudo, por falta de caixa, as usinas costumam renovar apenas 10% anualmente. O resultado, segundo o CTC, é de uma perda em produtividade de 5% entre 2006 e 2013. No caso da soja, por exemplo, houve avanço de 2% no mesmo período. Para o milho, a alta é de 36% no mesmo intervalo. Mudas de melhor qualidade e mais produtivas são resultado de investimentos bilionários em inovação. E, neste caso, é preciso reconhecer que os usineiros estão em desvantagem. Enquanto os grandes produtores de grãos contam com o apoio da Embrapa e de grandes tradings como a Monsanto e a Cargill para financiar a melhoria genética, no caso da cana-de-açúcar, a inovação fica totalmente sob o respaldo dos grupos endividados.

Quem dá certo — Os grupos que aproveitaram o período de euforia para se capitalizar, em vez de acumular mais dívidas, estão em situação confortável. Os lucros auferidos diminuíram em relação ao final da última década, mas não se transformaram em prejuízo. Exemplo é o grupo São Martinho, com capital listado na bolsa, que lucrou 128 milhões de reais no ano passado. Já o grupo europeu Tereos, dono do açúcar Guarani, teve ganhos de 41 milhões de reais no período. Segundo a Kleffmann, há cerca de 30 grupos no Brasil com capacidade para atravessar a crise. Seu lucro acumulado chega a 700 milhões de reais. Já os grupos endividados somam quase 100: são cerca de 60 usinas que fecharam e quase 40 em recuperação judicial. A dívida acumulada pelas empresas em crise chega a 2 bilhões de reais. O grupo Aralco, de Araçatuba, no interior de São Paulo, apresentou em julho o maior pedido de recuperação judicial do setor, com dívidas no valor de 1,35 bilhão de reais com bancos e o Fisco. Segundo o plano, o que explica a crise na empresa são fatores macroeconômicos (a desvalorização cambial), climáticos (a forte estiagem), e a baixa produtividade de suas usinas. Enquanto na São Martinho, a produtividade é de 99,5 toneladas por hectare, no caso da Aralco não passa de 63,3 toneladas. "Quem aproveitou a euforia pra se capitalizar, se deu bem. Afinal, o momento de investir é na crise, não na euforia", diz Schobinger. 

VEJAUsinas de etanol na bolsa

O fator Petrobras — Os preços da gasolina estão sendo controlados pelo governo desde 2011, com o objetivo de ajudar a conter o avanço da inflação. Com isso, abastecer com etanol ficou mais caro e, na maior parte dos estados, deixou de compensar. Só entre janeiro e maio deste ano, a relação entre o preço médio do etanol hidratado e o da gasolina ficou em 71,35%. Contudo, abastecer com o produto só vale a pena se essa relação for menor que 70%. “O setor deixou de faturar 10 bilhões de reais por causa disso”, afirma Elizabeth Farina, presidente da Unica, associação que representa o setor sucroalcooleiro. Por causa da falta de reajuste na gasolina, os produtores tiveram de achatar margens e não tiveram como repassar aumento de custo ao preço do produto. Por ora, o consumidor sai ganhando, pois paga menos. Contudo, há toda uma cadeia industrial que gera empregos sofrendo as consequências de uma política antimercado. “Os custos não podem ser repassados, senão a demanda desaparece. Não é uma competição com alguém mais eficiente que você, é contra subsídios”, completou o diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues.

Sem poder controlar a mão do governo nem repassar os custos, a reação lógica para as sucroalcooleiras seria trocar a produção do etanol pela de açúcar. Mas, não só muitas usinas têm limitações técnicas para mudar a planta, como também os preços do açúcar no mercado internacional estão em queda. “Essa, sem dúvida, é a pior crise do setor”, diz Ricardo Pinto, da RPA, consultoria de Ribeirão Preto (SP) especializada em açúcar e álcool. Segundo o especialista, trata-se de um círculo vicioso do qual, diante da atual conjuntura, é impossível sair. “Muitas usinas tomaram crédito barato, expandiram sem planejamento suas operações, estavam muito alavancadas e não conseguiram pagar. Como consequência, tiveram problemas de receita e, para piorar, não conseguiram repassar para os preços”, explica.

Ainda que a própria Petrobras pleiteie o fim do controle de preços da gasolina — afinal, o ônus é arcado por seu próprio caixa —, dificilmente o novo governo que se iniciará em 2015 conseguirá tirar todos os subsídios de uma só vez, caso assim queira. Por isso, o que o setor espera para o futuro é uma política que, pelo menos, não atrapalhe a tentativa de recuperação das usinas. Cid Caldas, coordenador geral do segmento de açúcar e etanol do Ministério da Agricultura, não ousou criticar os subsídios à gasolina, mas disse acreditar, ao menos, na retomada da produtividade a partir do ano que vem, quando termina o ciclo de adaptação da indústria à mecanização. Segundo ele, mais de 90% dos produtores do Estado de São Paulo já estão mecanizados e as lavouras avançaram no ciclo de renovação. “A partir de 2015 não teremos mais colheita manual”, afirma. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também percebeu o vácuo de inovação do setor e lançou há três meses, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) um novo programa de incentivo. O objetivo é ajudar o desenvolvimento de projetos nas áreas industrial e agrícola. Contudo, a avaliação dos especialistas é categórica: com incentivos ou não, se não houver um planejamento de longo prazo para o setor, o etanol não sobreviverá.

Itamaraty

Dilma retarda envio de diplomatas ao exterior e atrapalha o agronegócio

Adidos agrícolas, que trabalham em embaixadas na interlocução entre exportadores brasileiros e compradores estrangeiros, esperam há dois meses a assinatura da presidente para iniciar trabalhos em seus respectivos postos

Luís Lima
Ritmo de negociação para ampliar exportações de proteína para a Rússia é prejudicado pela ausência de adido

Ritmo de negociação para ampliar exportações para a Rússia é prejudicado pela ausência de adido (Liane Neves/VEJA)

Os exportadores do agronegócio brasileiro contam, desde 2010, com uma turma de diplomatas para representar seus interesses nos principais mercados importadores: trata-se dos adidos agrícolas. O primeiro grupo, que partiu ainda durante o governo Lula, voltou ao Brasil em junho deste ano. Desde então, a segunda turma está pronta para assumir. O problema é que a presidente Dilma Rousseff, por razão desconhecida, não assinou o decreto autorizando a partida do grupo. E, segundo a Casa Civil, não há previsão de que autorize tão cedo. Isso significa que, no caso do aumento das exportações de carne brasileira para a Rússia, por exemplo, não há um diplomata do setor no posto de Moscou apto a conduzir as negociações.

Os novos adidos foram escolhidos pelo Ministério da Agricultura para ocupar sete representações diplomáticas brasileiras no exterior: em Buenos Aires, Bruxelas, Genebra, Moscou, Pretória, Tóquio e Washington. Segundo a assessoria de imprensa da Casa Civil, o processo de nomeação ainda se encontra em tramitação e "não há previsão para a conclusão". A demora resultará na descontinuidade do trabalho dos primeiros adidos, segundo uma fonte do alto escalão da pasta. 

Um dos trabalhos mais importantes a ser executado por um adido no atual momento é a negociação com a Rússia sobre o aumento da exportação de carne brasileira. No início deste mês, Moscou impôs um embargo à importação de alimentos e produtos agrícolas da União Europeia e dos Estados Unidos, o que, segundo o ministro da Agricultura do país, Nicolai Fyodorov, poderia ser compensado, em partes, com um maior fornecimento de carne do Brasil. “Empresas como JBS e Marfrig estão de olho nesse mercado. E, num momento como este, não há um adido para facilitar a interlocução com o governo russo”, afirmou a fonte.

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Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, o atraso pode prejudicar a costura de um acordo entre os dois países no âmbito do aumento das exportações. “Esta é uma oportunidade em que um adido deveria estar trabalhando 24 horas por dia na Rússia. O adido tem um papel fundamental na costura e no entendimento das negociações que envolvem o agronegócio. Eles recebem as demandas de empresas, do governo do Brasil e do país em que estão”, disse Rodrigues, que também é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro).

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De acordo com outra fonte do Ministério da Agricultura, o progresso nas negociações com os Estados Unidos para a venda de carne suína e de abertura de mercado para a carne bovina in natura são outros pontos que já poderiam estar sendo trabalhados. “Além disso, temos a questão do acordo comercial entre o Mercosul e União Europeia. A falta de um adido que esteja na linha de frente na Europa prejudica a velocidade com que as decisões são tomadas”, disse.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) realizou um encontro, em Brasília, para reunir os adidos agrícolas selecionados em 2010 e 2014. Durante o evento, Tatiana Palermo, superintendente de Relações Internacionais da entidade, ressaltou que os adidos são responsáveis, dentre outras atribuições, pelo início das negociações de protocolos fitossanitários. Sem eles, nós não podemos vender para o exterior, pois esses documentos são como ‘passaportes’ de nossos produtos agropecuários, que atestam a qualidade do serviço sanitário brasileiro”, explicou.

Política

A ilusão dos tecnocratas no Brasil

Governo ‘técnico’ de Dilma Rousseff não passou de crença esperançosa num Brasil mais eficiente, mas que jamais se concretizou

Ana Clara Costa e Gabriel Castro
A presidente Dilma Rousseff toma café da manhã com jornalistas credenciados no Palácio do Planalto

Dilma Rousseff: o governo que deveria ser técnico não saiu do discurso (Ueslei Marcelino/Reuters/VEJA)

O ano de 2011 foi marcado por uma crise sem precedentes na Europa. Foi o período em que o peso das dívidas públicas de países como Grécia, Irlanda, Portugal e até mesmo a Itália chegou a ameaçar a existência do próprio euro. Com a missão de recobrar a confiança externa e a saúde de suas contas, alguns governos europeus — em especial Itália e Grécia — dispensaram grandes oligarcas da política, como Silvio Berlusconi, e colocaram no poder os chamados tecnocratas. Com perfil técnico e pouca paixão pela política, esse estrato da elite do capitalismo tende a propor saídas pragmáticas para problemas de gestão pública. Naquele ano, tecnocracia era o jargão da vez no mundo econômico — e a chanceler alemã Angela Merkel era sua principal expoente. Por obra da máquina de propaganda petista, não demorou para que Dilma Rousseff, antes mesmo de ser eleita, fosse alçada ao posto de técnica exímia. Nove entre dez artigos sobre a presidente em seus primeiros meses de mandato retratavam-na como gestora experiente e "gerentona" — características que a distanciavam de Lula, que nada sabia de gestão, mas mantinha notório apreço pela arte do conchavo. Após a "faxina ministerial" que Dilma se viu forçada a empreender no início de seu governo, além de tecnocrata, também passou a ser vista como "pouco tolerante" com a corrupção. Quase quatro anos depois, inúmeros são os fatos que mostram que avaliação que se tinha não passava de ilusão. 

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Ao acomodar todos os aliados nos 39 Ministérios da Esplanada, Dilma escolheu um time restrito que deveria cercá-la — e no qual concentraria todas as suas ordens. Trata-se de um perfil específico de petista que permitiria que ela exercesse seu papel de "gestora" sem grandes protestos. Miriam Belchior, ex-secretária do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), e Gleisi Hoffmann, que assumiu a Casa Civil após a queda de Antonio Palocci, se tornaram os dois nomes de confiança da presidente. Mais técnicas que políticas, reforçaram a imagem de um "novo" governo eficiente e livre (ou quase) de nomes perniciosos ligados ao mensalão. O problema é que, ano após ano, houve uma deterioração em praticamente todas as fronteiras do Executivo — sobretudo nas pastas ligadas à economia. O Planejamento, responsável pelo Orçamento engessado da União, foi praticamente reduzido a uma secretaria. A Casa Civil, departamento que outrora guardava poderes equivalentes ao da Presidência, como nos temos do mensaleiro José Dirceu, de Erenice Guerra ou da própria Dilma, tornou-se mera antessala. As decisões econômicas, discutidas em gabinete diretamente entre Dilma, Guido Mantega e Arno Augustin, passavam à margem de qualquer interferência técnica. Os próprios ministros, diante da palavra da gestora, funcionavam como executores de ordens. Por fim, o pragmatismo e a tecnocracia que se imaginava reinar por ali deram lugar a um emaranhado de decisões de cunho ideológico que fariam Merkel desfalecer. 

Não por acaso, a economia se encontra em seu pior momento dos últimos 15 anos. Se, até meses atrás, os dados econômicos apontavam para o pior cenário fiscal e industrial desde 2009, período da crise financeira internacional, agora a régua está mais baixa. A criação de emprego de julho foi a pior desde 1999, apontou o Caged. Já o resultado primário de junho, que consiste na economia do governo para pagar os juros da dívida, foi o pior desde 2000, mostram os dados do Tesouro Nacional. O governo atribui os problemas domésticos à crise internacional — o que fica difícil de provar diante do crescimento da economia americana, que foi de 4% no segundo trimestre e deve fechar o ano com avanço de 3,5%. No caso do Brasil, como resultado das trapalhadas de gestão, o PIB não deve crescer mais que 0,5% — os analistas mais realistas apontam, na verdade, a recessão.

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Faxina — No cenário político, a "pouca tolerância" com a corrupção também é contestável. É verdade que sete ministros caíram. Em julho de 2011, VEJA revelou como o PR havia transformado o Ministério dos Transportes em uma fonte de recursos para abastecer o caixa dois do partido. A presidente acabou demitindo o ministro Alfredo Nascimento. Antes disso, Palocci já havia caído por não conseguir explicar um espantoso e repentino aumento patrimonial. Outros cinco ministros seriam demitidos por causa de denúncias de corrupção em menos de um ano.

Merecidamente ou não, a presidente tentou vender a imagem de que não tolerava corruptos (apesar de ter sido responsável pela nomeação de todos eles). Mas nem mesmo o rótulo sobreviveu: conforme o período eleitoral se aproxima, o nível de exigência da presidente parece cair. Neste ano, ela demitiu César Borges do Ministério dos Transportes unicamente para agradar o PR, que pedia a volta de Paulo Sérgio Passos. O próprio Alfredo Nascimento deu o recado a Dilma, ou seja, o mesmo partido que havia sido retirado do comando da pasta pressionou - de forma bem sucedida - para que a presidente nomeasse alguém de seu interesse. Antes disso, Dilma havia negociado com o demitido da pasta do Trabalho, Carlos Lupi, do PDT, a indicação de Manoel Dias para o comando do Ministério. Em junho, no Rio de Janeiro, ela subiu no palanque do pedetista e fez elogios a seu ex-ministro, que disputa uma vaga no Senado. Em entrevista ao Jornal Nacional, no início da semana, a presidente se negou a opinar sobre a postura acolhedora do PT em relação aos mensaleiros presos — tratados como heróis pelo partido.

Ombro-amigo — Quando é a Petrobras quem está no centro de graves denúncias, Dilma também tem se mostrado um ombro-amigo. A presidente da estatal, Graça Foster, pode ter os bens bloqueados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por causa de irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Além disso, a executiva se encontra na delicada posição de ter de explicar porque doou seus bens aos filhos logo depois que o escândalo de Pasadena deu indícios de que acabaria no Congresso. Contudo, para Dilma, está tudo bem. "A presidente Graça Foster respondeu perfeitamente sobre a questão dos seus bens numa nota oficial. Eu repudio completamente a tentativa de fazer com que a Graça se torne uma pessoa que não possa exercer a presidência da Petrobras", afirmou a petista, na quinta-feira. À defesa quase fraterna da presidente soma-se seu silêncio sobre a farsa da CPI da estatal, revelada por VEJA, que mostrou a articulação de nomes do alto escalão do Palácio do Planalto e da estatal para combinar com os investigados as respostas às perguntas dos parlamentares.

As imagens vendidas nas eleições de 2010 se perderam ao longo do caminho. Os números declinantes do cenário econômico, as más escolhas para postos-chave de sua equipe, o inchaço proposital da máquina pública e o fracasso na missão de dinamizar a economia tiraram de Dilma - que nunca foi uma boa política - um de seus principais trunfos de quatro anos atrás. Não há indícios, até o momento, de que um segundo mandato traga mudanças.

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veja.com

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