No EL PAÍS: Delação de ex-diretor da Petrobras abala a campanha eleitoral

Publicado em 07/09/2014 19:17 e atualizado em 05/03/2020 16:56 668 exibições
Paulo Roberto Costa relata propinas pagas a políticos do PT, PMDB e outros partidos. Nome de Eduardo Campos é citado, por CARLA JIMÉNEZ (+ Merval Pereira, de O Globo)

Paulo Roberto Costa, ex diretor de abastecimento da estatal petroleira Petrobras, onde trabalhou por 35 anos, começou a ser chamado de “homem bomba” nos bastidores da política brasileira. Preso em março na operação Lava Jato, da Polícia Federal, que apurava lavagem de dinheiro, Costa é acusado de desvios de dinheiro da estatal, e de destruição e ocultação de documentos que ajudariam na investigação. Foi detido inicialmente em março, e desde então suas informações passaram a ter peso de ouro.

Quando saiu da Petrobras, em 2012, o engenheiro criou a empresa Costa Global, uma consultoria que intermediava negócios entre a Petrobras e seus fornecedores. Por isso, teria os nomes de personagens que estariam envolvidos em pagamentos de propina para facilitar obras da empresa. Nesta sexta-feira, foram conhecidos alguns dos nomes que supostamente estariam pagando propinas. De Eduardo Campos, do PSB, ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB de Alagoas), além de deputados do PT estariam envolvidos no esquema, segundo a revista semanal Veja. Ao todo, seriam dezenas de políticos de cinco partidos, dos quais três integram a base aliada da presidenta Dilma Rousseff: além do PT, o PMDB, o Partido Progressista (PP), e o Partido da República (PR).

Além de lideranças, como Henrique Alves (PMDB do Rio Grande do Norte), presidente da Câmara, estariam também envolvidos ministros, como o titular das Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB do Maranhão), e governadores como Roseana Sarney, também do PMDB maranhense, e Sergio Cabral, ex-governador pelo PMDB do Rio de Janeiro, que deixou o cargo no primeiro semestre deste ano. João Vaccari Neto, tesoureiro nacional do PT, seria a ponte de Costa com nomes do seu partido.

As denúncias de diretor da Petrobras, que voltou a ser preso desde junho, começaram a ser levantadas no último dia 29 pela Polícia Federal, a partir de um acordo de delação premiada. Seu depoimento cai como uma bomba durante a corrida eleitoral brasileira, faltando apenas um mês para o pleito de 5 de outubro. Segundo o jornal O Globo, as denúncias estão sendo tratadas com muito cuidado pelos investigadores, pois precisam ser checadas e devem durar algum tempo.

O assunto demandará explicações do PSB, por envolver o nome de Campos, morto no dia 13 de agosto num acidente de avião, mas complica ainda mais a campanha do PT para a reeleição. Além dos nomes da sua base aliada, o caso reforça as críticas dos adversários da presidenta Rousseff sobre o desmazelo com a gestão da estatal, que está sob forte pressão, em função dos resultados financeiros aquém do esperado, e agora sob denúncias de um esquema fraudulento de desvio de dinheiro.

A suposta ligação do ex-governador pernambucano com o esquema teria como elo a Refinaria Abreu e Lima, que começou a ser construída em Pernambuco em 2005, e cujos valores de execução alcançaram 20 bilhões de dólares, quase dez vezes mais que o orçamento previsto inicialmente. Ela deve ser concluída em 2015.

O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, disse neste sábado que o Brasil acordava perplexo com graves denúncias de um “mensalão 2”, em referência ao processo que levou para a prisão diversos integrantes do PT por financiar por caixa 2 diversos integrantes do partido. Neves afirmou que disputava a eleição contra “um grupo que utiliza o dinheiro sujo da corrupção para manter-se no poder”.

A secretaria nacional de Finanças do PT negou também as acusações de que seu titular, João Vaccari Neto, seria uma interface no esquema de propinas. Por meio de nota, o partido afirmou que nunca tratou de assunto relativo ao partido com o senhor Paulo Roberto Costa. “Assim, é absolutamente mentirosa a declaração de que tenha havido qualquer tratativa, seja pessoal, por e-mail ou mesmo telefônica, com o referido senhor a respeito de doações financeiras ou qualquer outro assunto”.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Costa contou que políticos e partidos receberiam o equivalente a 3% de comissão por cada contrato firmado com a Petrobras.

Em nota oficial, o PSB diz que desde as primeiras denúncias de corrupção na Petrobras defendeu, sob a liderança de seu então presidente, Eduardo Campos, a instalação de uma CPI para "investigar as denúncias de negócios escusos". Afirmou ainda que "não há acusação digna de honesta consideração" e apenas "malícia". "O esquema perverso engendrado para desgastar a imagem de Eduardo Campos tem origem no espectro da derrota próxima daquelas forças que há 20 anos sustentam uma polarização política artificial", acusou o partido.

Um incômodo doleiro

A Polícia Federal chegou a Paulo Roberto Costa quando investigava uma operação de lavagem de dinheiro de 10 bilhões de reais chefiada pelo doleiro Alberto Youssef, deflagrada em março deste ano. Natural da região de Londrina, no estado do Paraná, Youssef começou a ser monitorado depois de uma denúncia de um empresário da sua cidade, que havia teria sido lesado em negócios com o doleiro. Durante a investigação, foram apuradas evasão de divisas, e envio de dinheiro para o Exterior, de importações fictícias de empresas operadas por laranjas. Entre essas remessas, entretanto, haveria também recursos da Petrobras. Costa estaria envolvido com estas operações.

Um dos destinos do dinheiro era a Suíça. Em colaboração com o Brasil, a justiça suíça identificou contas tanto de Youssef como de Costa, que foram bloqueadas para investigações. O doleiro tinha trânsito livre com políticos de diversos partidos, como foi constatado em diversas gravações e mensagens trocadas pelos investigadores. Um deles era André Vargas, ex vice-presidente da Câmara dos Deputados, do PT do Paraná, que renunciou ao cargo e se desfiliou do partido em abril deste ano.

O Ministério Público Federal investiga ainda supostas irregularidades cometidas pelo ex-diretor com a compra da refinaria Pasadena, em 2006, pela Petrobras. O negócio trouxe prejuízos à petroleira brasileira, que foi obrigada a comprar 50% da refinaria da belga Astra Oil por um preço oito vezes maior do que a belga havia pago no ano anterior pela unidade inteira. Costa teria articulado a execução do negócio, cujo pagamento teria irrigado o caixa de partidos.

 

O fato novo, por Merval Pereira, de O Globo

Marina tem no episódio a prova material de que a “velha política” transformou o Congresso em um balcão de negócios, mas a confirmação de suas denúncias veio junto com a inclusão do ex-governador Eduardo Campos na lista dos beneficiários das negociações do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Esse é um empecilho e tanto para a exploração do caso, mesmo que esteja implícito que a candidata não tem nada a ver com os fatos acontecidos antes de ela, por constrangimentos políticos que lhe foram impostos, aderir ao PSB, inclusive o jato que veio junto, ao que tudo indica, nesse mesmo pacote.

Se fosse a candidata da Rede Sustentabilidade, Marina estaria hoje livre, leve e solta para empunhar a bandeira da nova política em contraponto às nebulosas transações que seus adversários comandam nos bastidores políticos de Brasília. Mas terá que pisar em ovos para usar a artilharia pesada que lhe caiu no colo sem que o fogo amigo a atinja.

Quem poderá se beneficiar da situação é o candidato do PSDB Aécio Neves, que precisava de um fato novo para turbinar sua campanha, e ele chegou pela delação premiada do ex-diretor da Petrobras. Não é possível dizer agora se mais essa denúncia de roubalheira institucional será suficiente para recolocá-lo na disputa, mas ele tem a vantagem no momento de poder atacar tanto Marina como Dilma, reforçando a ideia central de sua campanha de que ele é a mudança segura.

A presidente Dilma dificilmente perderá votos do núcleo duro petista, que vota nela mesmo de olhos e narizes fechados, e considera normais esses esquemas corruptos. Veremos agora de que tamanho é o apoio da candidata Marina Silva, e qual a intensidade da revolta de eleitores que estavam fora da eleição por vontade própria e retornaram devido à sua presença.

Aécio poderá tentar retomar eleitores que foram para Marina, que também receberá eleitores que voltaram para Dilma e poderão ficar sensíveis a mais esse escândalo. Tudo dependerá de como Marina usará esse episódio. Quem é Marina de fato, desde a eleição de 2010, já estará convencido de que ela foi apanhada em uma armadilha montada pela “velha política” de que Eduardo Campos se utilizava antes de romper com o governo petista. E a perdoará por isso, entendendo que não tem condições de romper agora com o esquema político que a acolheu em momento difícil.

Ainda mais tendo como vice um político orgânico do PSB. Muitos que foram para ela em busca de um refúgio poderão se convencer de que Aécio Neves é a melhor oposição, e muitos outros podem desistir mais uma vez de votar, convencidos pelos fatos de que são todos farinha do mesmo saco.

O certo é que a presidente Dilma, que ensaiava uma reação levada pela máquina partidária e pelos militantes petistas, está novamente enredada em um esquema político deletério. Se é verdade que ensaiava retirar do fundo da gaveta a imagem da faxineira ética do início de seu governo para reforçar o combate à corrupção, agora vai ter que desistir da ideia.

Já era uma proposta desesperada, pois as contradições são evidentes entre a faxineira e a atual presidente que colocou de volta no ministério praticamente todos os que enxotara, e agora é inviável. Também fica sem sentido a tentativa do presidente do PT Rui Falcão de insinuar que Marina pretende privatizar a Petrobras e os bancos públicos, uma acusação reciclada que por si só mostra a falta de argumentos do partido na disputa política com Marina.

O novo escândalo vai reviver a ideia de Aécio Neves de reestatizar a Petrobras, que foi tomada de assalto por forças políticas da base aliada governista, sob o comando do PT. Como disse muito bem o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, aliás um dos acusados de estar envolvido no esquema de corrupção, “a Petrobras é petista”.


PT fará das eleições de 2014 um caminho para a volta de Lula em 2018

O partido começa a trabalhar os dois cenários possíveis, com Dilma ou Marina vitoriosa, para reposicionar o ex-presidente

A militância do PT é formada por eleitores do partido, muitas vezes ligados a sindicatos de trabalhadores, que vestem literalmente a camisa. Sempre foram facilmente identificados pela camiseta vermelha e o boton em forma de estrela com o nome do PT. Na noite de sexta-feira, em um encontro do PT estadual em São Paulo, esses evangelizadores do partido foram convocados para um encontro com as lideranças, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A menos de um mês das eleições de 5 de outubro, a ideia do encontro era incentivar os militantes a ir às ruas para defender os candidatos da legenda, com material de campanha que o partido disponibiliza.

Quando o presidente do PT de São Paulo, Emídio de Souza, pegou o microfone para abrir o encontro, disse aos presentes que os panfletos, bandeiras e material em geral de campanha já estavam disponíveis, incluindo “as cédulas de Lula... quer dizer, de Dilma”, corrigiu-se Souza, para continuar falando que o “o caminho mais fácil do Lula voltar ao poder é a Dilma ser eleita”, explicou.

O ato, que acontecia ao mesmo tempo em que informações sobre adelação premiada do ex-diretor da Petrobras, José Roberto Costa, eram vazadas para a imprensa, tinha como foco principal fortalecer a candidatura de Alexandre Padilha a governador de São Paulo, que está em terceiro nas pesquisas eleitorais, com mirrados 7% das intenções de voto, segundo os institutos Datafolha e Ibope. Muito atrás do tucano Geraldo Alckmin e de Paulo Skaf (PMDB).

O plano B, por sua vez, seria aguardar a vitória de Marina Silva para então o PT voltar a mostrar sua força já a partir de 2015, quando os problemas sociais começarem a aparecer num ano que será difícil para qualquer um dos presidenciáveis que assumir o Palácio do Planalto em janeiro. Os movimentos sociais e sindicais poderiam ser mais enfáticos em suas cobranças no ano que vem, quando a economia ainda estará em marcha lenta. Diante de eventuais paralisações, o ex-presidente colocaria sua habilidade de negociação à prova. Seria uma oportunidade para que Lula retomasse seu papel de liderança. Assim, a legenda já estaria se mobilizando de olho nas eleições municipais de 2016, que serviriam de trampolim para 2018.Mas serviu para sentir as angústias das lideranças petistas, que têm uma disputa acirrada pela frente, com uma candidata da situação que precisa saciar a sede de mudanças do eleitorado brasileiro. Segundo especialistas, o plano A para o PT seria reeleger a presidenta Dilma Rousseff agora, que por sua vez precisaria corrigir os erros deste primeiro mandato, de modo a reverter o desgaste do partido, principalmente com as derrapadas na economia.

Essa seria, para alguns especialistas, a razão por que Lula preferiria não dar ênfase a ataques a Marina em suas aparições públicas. Durante o encontro em São Paulo, na sexta à noite, o ex-presidente disse aos presentes que “Marina é um caso à parte”. Com o microfone na mão, disse que estava destrinchando o programa [de governo] dela, “porque não terei divergência pessoal com Marina”. A estratégia de Lula é focar nas diferenças de conceitos adotados por cada um para os desafios nacionais que esperam o próximo presidente.

E a ordem do PT agora é mirar nas ideias já propagadas por Marina, como a independência do Banco Central, que deixaria a instituição livre, por exemplo, para subir juros quando a inflação sai do controle, sem levar em conta outras orientações do Executivo. “É fácil contar a inflação com redução de empregos e salários”, disse ele, numa clara provocação sobre o programa econômico de Marina, que carrega nas tintas neoliberais.

O problema é que o governo de Rousseff também não soube calibrar a dose para lidar com esse eterno fantasma brasileiro. Ela foi duramente criticada por ter reduzido os juros entre outubro de 2011 e março de 2013, quando a taxa Selic passou de 11,5% para 7,25%. Era uma boa intenção, que tinha o foco de baratear o custo para que os empresários tivessem acesso a dinheiro mais barato para investir, e os consumidores pudessem ter crédito mais barato para comprar.

Economistas viam ali um risco muito grande de a inflação voltar, ou persistir, diante de um consumo aquecido no período. A demora para elevar a taxa de juros se transformou num dos calcanhares de Aquiles de Rousseff, pois a inflação resiste até hoje no teto da meta estabelecida pelo BC – 6,5% ao ano.

Mesmo com a presidenta sinalizando mudanças num eventual segundo mandato, que incluiria a troca de ministros, não se sabe ao certo se a própria mandatária mudaria seu estilo, não esperando demais para tomar medidas, talvez antipopulares, mas que teriam efeitos no longo prazo.

Há, ainda, o desafio de retomar a confiança do empresariado para voltar a investir, e uma postura mais efetiva diante da Petrobras que se tornou alvo de ataques permanentes, diante de denúncias de corrupção e de dificuldades de cumprir suas metas.

Não por acaso, Lula e outros dirigentes do PT afirmaram que esta era a eleição mais difícil do partido desde a sua fundação, nos anos 80. De um lado está a missão de apoiar a reeleição de Rousseff para defender o legado de 12 anos do PT. De outro, contar com as mudanças necessárias para não desgastar o partido, frustrando as chances de Lula voltar em 2018.

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Fonte:
brasil.elpais.com + O Globo

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1 comentário

  • Edison tarcisio holz Terra Roxa - PR

    se deus quizer ajudar obrasil eele estara na papuda em 2018

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