BRASIL: PIB fraco e mercado de trabalho começa a sentir o baque

Publicado em 15/09/2014 15:15 e atualizado em 16/09/2014 20:48 699 exibições
Apesar do discurso eleitoral de pleno emprego, há sinais de esgotamento e corte de vagas em alguns segmentos; o momento é de rever o modelo. (Pesquisa Focus mostra PIB caindo...) Na veja.com

O mercado de trabalho começa a sentir o baque

Apesar do discurso eleitoral de pleno emprego, há sinais de esgotamento e corte de vagas em alguns segmentos; o momento é de rever o modelo

Luís Lima e Naiara Infante Bertão
Expedição Veja: Manutenção da BR - 230

Mercado de trabalho: desaceleração acompanha o arrefecimento econômico (Cristiano Mariz/VEJA)

O economista austríaco Friedrich Hayek escreveu certa vez que quando se usa o estado como ferramenta para estimular a criação de vagas, uma série de desequilíbrios é desencadeada. O Brasil vive essa realidade. A cantilena repetida à exaustão em época eleitoral é a de que o pleno emprego que se vê hoje leva a assinatura dos governos petistas. O outro lado da moeda é que os desequilíbrios criados pela política econômica da gestão de Dilma Rousseff se tornam cada vez mais patentes e afetam não só a renda dos brasileiros, mas também o mercado de trabalho. Com a inflação no teto da meta, os juros começaram a subir e o emprego, consequentemente, deu sinais de esgotamento. A criação de vagas com carteira assinada em 2014 (até agosto) é a mais baixa desde 2002, início da série histórica disponibilizada pelo Ministério do Trabalho. Apesar da desaceleração, a taxa de desemprego mais recente, que remonta a abril, está em 4,9% — um dos resultados mais baixos da história. Especialistas ouvidos pelo site de VEJA explicam que a menor geração de postos só não impactou a taxa de desemprego porque a oferta de mão de obra diminuiu: passou de 24,32 milhões em abril do ano passado para 24,11 milhões no mesmo mês deste ano, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que leva em conta as seis maiores regiões metropolitanas do país.

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Levantamento feito a pedido do site de VEJA pelo economista Hélio Zylberstajn, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), com base na PME, mostra outro fator estatístico que impede o aumento da taxa de desocupação. O estudo constata que, entre abril do ano passado e deste ano, 528 mil brasileiros em idade ativa preferiram não trabalhar. Esse número é equivalente à população de uma cidade como Ribeirão Preto (SP).  No jargão econômico, esses brasileiros são conhecidos como ‘nem-nem’: aqueles que não estudam, nem trabalham. De acordo com o cálculo de Zylberstajn, se estivessem trabalhando, a taxa de desemprego saltaria dos 4,9% atuais para 7%. “Ao retornarem para um mercado de trabalho desaquecido, procurando emprego, esses indivíduos devem engordar as estatísticas de desemprego. A tendência é que não preencham novas vagas, que agora estão mais escassas”, alerta o economista e professor da Universidade de São Paulo (USP), José Paulo Chahad.

VEJAEmprego - gráfico

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, em 2014, alguns segmentos já registram mais demissões do que contratações. É o caso do Comércio, quefechou mais de 6 mil vagas nos oito primeiros meses deste ano. Não à toa, justamente o setor varejista, que foi o que mais cresceu durante o boom econômico dos últimos anos, é a ponta mais sensível à variação no bolso da população. Com a inflação acima do teto da meta (de 6,5% ao ano) e os juros em seu maior patamar desde 2011 (11% ao ano), a renda se arrefece e o consumo titubeia. Neste exemplo enxerga-se a teoria de Hayek de forma clara. Ele defende que políticas de governo que estimulam o consumo trazem dois resultados: o aumento do emprego em determinados setores e o avanço da inflação. Mas, quando medidas anti-inflacionárias são aplicadas, como é o caso do aumento dos juros, esses mesmos empregos são fechados. "Quanto mais a inflação durar, maior será o número de trabalhadores cujas vagas dependerão da continuidade da inflação", diz o economista austríaco em seu livro Full Employment at Any Price (Pleno Emprego a Qualquer Preço, em tradução livre).

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Outro setor que vinha sendo a âncora do mercado de trabalho nos últimos anos é o de Serviços, que criou 490 mil vagas até agosto deste ano, 65% do total. Em 2010, esse número era de 1 milhão. No setor industrial, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta queda de 2,6% no emprego até julho deste ano, o que equivale ao fechamento de 11 mil vagas. “Como a indústria representa apenas 15% do emprego total, mesmo com as demissões, o nível de emprego ainda não foi afetado. Mas, do ponto de vista qualitativo, é um desastre, porque os melhores empregos estão na indústria”, afirma Zylberstajn, da Fipe.

Um indicador que inspira os economistas a projetarem taxa de desemprego superior a 7% no ano que vem é o investimento. No primeiro semestre, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede o peso dos investimentos na economia brasileira, acumula queda de 6,8% em relação a 2013. Não à toa, a economia está em recessão técnica no primeiro semestre — e não são poucos os analistas que já projetam o encolhimento do PIB no consolidado do ano. “O investimento de hoje é o emprego de amanhã. E, se o investimento continuar baixo, do jeito que está, mesmo com todo o benefício demográfico que temos, a taxa de desemprego não vai permanecer baixa”, afirma o economista José Pastore, da Universidade de São Paulo (USP).

Diante da situação de alerta, o governo, em vez de mergulhar num exercício de autocrítica para descobrir como reverter os muitos erros cometidos, insiste no discurso de que “tudo vai bem, obrigado”.  Após a divulgação dos dados do Caged na última quinta-feira, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, afirmou que o Brasil “é campeão na geração de empregos” e que os resultados de setembro e outubro serão ótimos. "Todo o conjunto da economia está em recuperação e o emprego faz parte", disse. Dias afirmou que o Brasil terá um saldo de criação de 1 milhão de vagas este ano – o que seria, na série com ajustes, o pior resultado desde 2003, o primeiro ano do governo Lula. O problema é que os economistas esperam menos que isso. Segundo Zylberstajn, pelo menos 450 mil vagas serão fechadas em dezembro por fatores sazonais. “O resultado de 2014 será pífio. Mas ainda não se pode afirmar que será negativo”, diz o economista.

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Para que haja uma criação sustentável de vagas, é preciso investimentos pesados em educação e inovação, além da abertura do mercado para estimular a concorrência entre as empresas e melhorar, assim, a produtividade. E justamente nesta segunda etapa mora o erro do governo petista: a inovação foi relegada a último plano e o protecionismo da indústria tornou-se a regra básica. Os efeitos negativos estão aí: o setor recuou 2,6% em 2014, ainda que o governo negue a ineficácia de seu modelo. Segundo dados do Relatório de Competitividade do Fórum Econômico Mundial, um dos problemas mais graves do Brasil é sua capacidade de inovar. Num ranking de 144 nações, o país, que é a sétima maior economia do mundo, ocupa a 62ª posição em Inovação. Em produtividade no trabalho, está em 109º.

Todos os políticos que chegam ao Palácio do Planalto desejam que seus governos sejam marcados pela criação de emprego. O que os difere é o caminho que adotam para alcançar tal objetivo. Há os que criam um bom ambiente regulatório e concorrencial para que floreça o empreendedorismo, o investimento, a inovação e, por consequência, a criação de vagas. Outra opção é usar o estado como indutor do consumo e intervir em setores escolhidos a dedo para beneficiá-los, não importando os desequilíbrios que as políticas possam criar. Esse foi o caminho escolhido pela presidente Dilma. O desempenho econômico ruim e a desaceleração do emprego deixam claro que essa escolha não é sustentável. Caso Dilma não se reeleja, o governo que se iniciará em 2015 terá a missão árdua de rever os erros e buscar o equilíbrio estrutural. Para que se alcance esse objetivo, o emprego nos setores beneficiados ao longo dos últimos anos pode ser sacrificado num primeiro momento. A profundidade desse impacto só será conhecida, no entanto, quando também vier à luz o tamanho do problema econômico criado pela equipe da presidente. Quanto antes o bom caminho for retomado, melhor.

Mercado corta para 0,33% a estimativa de expansão do PIB em 2014

A projeção anterior era de avanço de 0,48%. Para 2015, a projeção recuou de 1,10% para 1,04%

As expectativas dos economistas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 não para de cair, conforme mostra o Relatório de Mercado Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central. Os novos números também já impactam as perspectivas para 2015.

Pelo documento, a economia brasileira crescerá apenas 0,33% este ano ante projeção anterior de avanço de 0,48% e de expansão de 0,79% esperada um mês atrás. Esta é a décima sexta semana consecutiva em que o mercado revisa suas planilhas para baixo. Para 2015, a taxa mediana da Focus também recuou, passando de 1,10% para 1,04%. Quatro semanas antes, a estimativa de crescimento para o próximo ano estava em 1,20%.

As mudanças ocorreram mesmo com a parada nas correções que o mercado fez esta semana em relação ao desempenho negativo da indústria. Conforme a pesquisa, o setor manufatureiro terá retração de 1,98% este ano, como já era esperado na semana passada. Vale lembrar que um mês antes, a expectativa era de uma diminuição da atividade da ordem de 1,76%. Para 2015, a previsão é de recuperação do setor, que deve ter expansão de 1,50% - mesma taxa do documento anterior. 

Inflação — A pesquisa revelou que as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficaram congeladas em 6,29% tanto para o final deste ano quanto para o fim de 2015. Há um mês, as estimativas para esse índice eram de 6,25% também nos dois casos. Já a previsão suavizada para o IPCA para os 12 meses à frente subiu de 6,24% para 6,28% - quatro semanas atrás estava em 6,21%.

Selic — Os economistas mantiveram a projeção de que a taxa encerrará 2014 em 11,00% ao ano pela décima quinta semana seguida. Mas voltaram a fazer mudanças para 2015. O boletim revelou que, ao final do ano que vem, a taxa básica de juros ficará em 11,50% ao ano, e não mais em 11,63%, como apontado na semana anterior. Como a taxa de 11,63% não é viável para o Copom, que faz movimentos apenas de 0,25 ponto porcentual para cima e para baixo, a pesquisa demonstrava que os analistas estavam claramente divididos em relação ao patamar do juro ao final de 2015. Agora, está na frente a corrente que projeta uma taxa menor.

Dólar — Ao contrário do movimento de alta que se viu nas mesas de operação do mercado financeiro nos últimos dias, a Focus prevê uma cotação menor para o dólar tanto ao final deste quanto do próximo ano. Pela segunda vez consecutiva, a mediana para dezembro de 2014 caiu e agora está em 2,30 reais. No levantamento anterior, a mediana era de 2,33 reais e, há um mês, estava em 2,35 reais.

(Com Estadão Conteúdo)

OCDE: Brasil vai crescer menos que emergentes e desenvolvidos

Órgão cortou previsão de crescimento econômico de 1,8% para 0,3% num intervalo de apenas quatro meses

A presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, concede entrevista coletiva no Palácio da Alvorada, em Brasília (DF), na tarde desta quarta-feira (10)

Presidente Dilma Rousseff, em Brasília: presidente atribui PIB fraco à crise internacional (Ueslei Marcelino /Reuters)

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cortou drasticamente a previsão para o crescimento da economia brasileira em 2014. Atualização do cenário macroeconômico global divulgado na manhã desta segunda-feira mostra que a nova expectativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do país neste ano é de apenas 0,3%. Há apenas quatro meses, em maio, a entidade esperava expansão de 1,8% da economia brasileira.

O relatório da OCDE revela que o Brasil deverá ter desempenho econômico muito diferente dos países emergentes. Em 2014, enquanto o PIB brasileiro deve ficar apresentar ligeira expansão, é esperado crescimento de 7,4% para a China e de 5,7% para a Índia.

O levantamento aponta ainda mais uma contradição ao discurso da presidente-candidata Dilma Rousseff, que vem sustentando que o baixo crescimento econômico do Brasil se deve à crise internacional que atingiu os países desenvolvidos. Segundo a OCDE, até mesmo grandes economias desenvolvidas deverão ter ritmo de crescimento superior ao brasileiro: Reino Unido crescerá 3,1%, Canadá terá expansão de 2,3%, Estados Unidos terão avanço de 2,1% e Alemanha, 1,5%, prevê a entidade. O Brasil crescerá menos até que a combalida zona do euro, que deve ter expansão de 0,8% este ano.

A redução de 1,5 ponto porcentual na previsão para o crescimento brasileiro foi o maior corte feito pela entidade que atualizou as perspectivas das 11 maiores economias do mundo no relatório divulgado na manhã desta segunda. Com a diminuição do ritmo de crescimento, o Brasil deve terminar o ano com desempenho econômico melhor apenas que a Itália, país que deve ter contração de 0,4% este ano, prevê a entidade.

É válido lembrar que a OCDE reúne cerca de 30 países, que produzem mais da metade de toda a riqueza do mundo. O Brasil não faz parte da organização. Para 2015, as estimativas da OCDE para o Brasil também pioraram. A previsão para o crescimento da economia brasileira diminuiu de 2,2% para 1,4%.

Em 2015, a diferença para os emergentes diminuirá um pouco, mas seguirá relevante. Enquanto o Brasil deve crescer 1,4%, é esperado avanço de 7,3% para a China e 5,9% para a Índia. Entre as grandes economias centrais, EUA devem ter crescimento de 3,1%, Reino Unido avançará 2,8% e Alemanha, 1,5% no próximo ano, prevê a OCDE. Em conjunto, a zona do euro deve acelerar para 1,1%, estima a entidade.

Investimentos — A queda do investimento foi destacada negativamente pela OCDE como um problema da economia brasileira. O relatório destaca que queda do investimento exerceu papel importante na piora da economia. "O investimento tem sido particularmente fraco e minado pela incerteza sobre a direção das políticas após as eleições e a necessidade de uma política monetária que contenha a inflação acima da meta", diz o texto.

A aceleração econômica em 2015 deverá ser apenas moderada em um ritmo muito aquém do observado em grandes economias emergentes e até mesmo em países desenvolvidos. "É esperada recuperação moderada uma vez que os fatores (investimento e juro) tendem a descontrair, mas o crescimento deverá seguir abaixo do potencial em 2015", diz a Organização.

(Com Estadão Conteúdo)

Cenário

A 'lição' de Guido Mantega aos economistas: 'tripé econômico não é tudo'

Às vésperas de sua saída do governo, ministro vai à Fundação Getulio Vargas, seu antigo reduto acadêmico, e resume seu legado: desempenho do Brasil é razoável e país só não cresce mais porque falta crédito

Ana Clara Costa e Luís Lima
O ministro da Fazenda, Guido Mantega: de saída do governo, não dá o braço a torcer

O ministro da Fazenda, Guido Mantega: de saída do governo, não dá o braço a torcer (Sérgio Lima/Folhapress/VEJA)

Mantega: 'O desmame seria botar a indústria para concorrer mais com os estrangeiros. Isso seria trágico, pois a concorrência já é muito agressiva, com muitos subsídios lá fora'

O ministro da Fazenda Guido Mantega pode ser acusado de tudo, menos de ser uma ovelha desleal. Ao participar do 11º Fórum Econômico da Fundação Getulio Vargas (FGV) na manhã desta segunda-feira, que contou com a presença dos principais economistas do país, o ministro nem sequer ficou ruborizado ao discursar sobre sua gestão e transformar a deterioração estrutural da economia brasileira que se deu nos últimos anos em exemplo de legado vitorioso. O ministro, prestes a deixar a Esplanada, desferiu frases sobre a economia brasileira que criaram certa atmosfera de perplexidade entre os presentes, mesmo naqueles adeptos da escola desenvolvimentista — da qual o ministro sempre foi entusiasta. Ele poderia ter usado a ocasião, onde representantes do PIB e da academia se reuniam para discutir os rumos da economia, para fazer um exercício de autocrítica e reconhecer ao menos alguns dos deslizes praticados. Afinal, como antigo professor da FGV e futuro palestrante, o ministro há de querer garantir seu sustento quando deixar o governo. Porém, o que se ouviu por ali causou certo espanto. Mantega se mostrou fiel, até o último instante, à doutrina implementada desde a entrada de Dilma Rousseff na Presidência. E falou com tranquilidade sobre ter deixado para segundo plano as bases do tripé que garantia a estabilidade da economia. "Muitas pessoas acham que o tripé é tudo. Mas é apenas uma parte da questão. É necessário, mas não suficiente. Há maneiras diferentes de praticar o tripé", disse o ministro.

No dia em que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cortou a previsão de crescimento da economia brasileira de 1,8% para 0,3% e afirmou que o país crescerá menos que países emergentes e desenvolvidos (mesmo os que foram atingidos pela crise internacional), o ministro voltou a afirmar que a desaceleração da economia é culpa da turbulência internacional. Sem economizar em autoelogio, Mantega afirmou que a condução da política econômica foi coerente e, somente por isso, o país não sucumbiu ao longo dos últimos anos. Mantega também culpou a crise externa pela inflação acima da meta e disse que a economia só não cresce mais porque os bancos estão represando crédito. Nas entrelinhas, reconhece-se a interferência do governo na liberação do depósito compulsório dos bancos pelo Banco Central nos últimos meses. "Está faltando crédito para o consumo. Mas ele já começou a voltar nesse segundo semestre. O BC já começou a liberar mais crédito e, com isso, temos possibilidade de recuperação do consumo", afirmou o ministro. 

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Ainda sobre o BC, o ministro seguiu a cartilha de sua chefe e criticou o debate sobre dar independência ao órgão. "Não dá para ter BC independente só com o regime de meta inflacionária. O BC independente também precisa olhar para emprego e crescimento. Teria de acabar com o regime de metas. Independência você dá ao governo, ao Congresso. Um grupo de iluminados que não foi votado pela população pode decidir sem dialogar com representantes máximos do povo. Isso é complicado. Poderia ter situação em que haveria um choque entre o BC e o executivo. Prefiro a autonomia operacional", disse Mantega, que, inclusive, sabe muito bem dos choques que podem surgir quando BC e Fazenda divergem. Durante sua gestão no Ministério da Fazenda, ficaram notórias suas desavenças com o então presidente do BC, Henrique Meirelles.

Se Dilma ganhar — O ministro deu ainda mais detalhes sobre como seria a política econômica caso Dilma se reeleja. Continuam: subsídios do Tesouro ao BNDES; crédito farto do BNDES às empresas; política de conteúdo nacional para a indústria; política de compras governamentais para estimular a indústria; intervenção do BC no câmbio 'para conter volatilidade' e manutenção das desonerações à indústria. Mantega negou qualquer possibilidade de 'desmame'. "O desmame seria botar a indústria para concorrer mais com os estrangeiros. Isso seria trágico, pois a concorrência já é muito agressiva, com muitos subsídios lá fora", afirmou o ministro. 

Sobre a meta de inflação, Mantega não soube detalhar o que será feito, caso Dilma se reeleja, para controlar a inflação em ano de reajustes necessários. Mantega só soube afirmar que não haverá 'tarifaço' e também sinalizou que uma política de aumento de juros pode não ser bem aceita pela mandatária. Uma das frases do ministro sobre o tema merece ser reproduzida em toda a sua complexidade: "Para atingir o centro da meta, teria de elevar mais fortemente os juros, ou choque fiscal, fazendo um superávit fiscal muito grande. Não sei bem o que vai acontecer com a meta".

Ao sintetizar o viés de sua gestão, disse ainda: "O que nós fizemos é de uma determinada visão. Evito qualificar, rotular. Mas, no passado, ela seria keynesiana. Outra visão seria neoliberal, conservadora. É difícil rotular".

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O outro lado — Se, durante o evento, o ministro assinou embaixo de tudo o que foi feito em favor da indústria ao longo de sua gestão na pasta da Fazenda, o outro lado se mostrou bastante insatisfeito com o resultado — o que mostra uma completa desconexão entre o que o governo acha e o que o empresariado realmente necessita. A indústria, segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruck, quer ter competitividade e produtividade para competir globalmente — não ficar restrita ao mercado interno. "A indústria foi mal, dentre outros fatores, pelo uso do câmbio com instrumento coadjuvante no controle da inflação, pelo custo crescente da mão de obra no país e pela falta de apoio às exportações", afirmou, enquanto dividia o mesmo palco que Guido Mantega. 

Segundo Steinbruck, a indústria nacional está destruída. "O tamanho do mercado é satisfatório. Não é preciso nenhum modelo complexo para entender do que o crescimento do PIB depende. Temos de usar o mercado interno quando temos. E buscar a economicidade no mercado externo. Não precisamos de muito mais que isso. E isso não tem dado certo porque destruímos a indústria nacional", afirmou. A falta de sintonia se mostrou ainda mais evidente diante da reação de Mantega ao discurso de Steinbruck: o ministro sequer expressou indignação.

Robson e Guido

mantega

Mantega e Andrade: conversa em São Paulo

Guido Mantega está reunido neste momento em São Paulo com o presidente da CNI, Robson Andrade. Não se sabe se um dos motivos do encontro é para agradecer a pesquisa do Ibope encomendada pela CNI e divulgada na sexta-feira. Uma pesquisa que providencialmente dormiu nas gavetas da CNI por vários dias (leia mais aqui ).

A propósito, amanhã o Ibope divulga pesquisa, desta vez contratada pela Globo eO Estado de S. Paulo. O Datafolha também fará um novo levantamento. O instituto de pesquisa vai a campo a partir de quarta-feira para entrevistar 5 362 eleitores e divulgará os resultados no Jornal Nacional da quinta-feira. Datafolha e Globo gastaram 266 200 reais na pesquisa.

Por Lauro Jardim

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Fonte:
veja.com

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