Preços dos fertilizantes continuam subindo nos mercados globais com conflito escalando no Oriente Médio

Publicado em 06/03/2026 11:57 e atualizado em 06/03/2026 14:47
Tensões geopolíticas elevam preços da ureia e acendem alerta sobre frete marítimo e oferta de adubos para as próximas safras

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As tensões geopolíticas no Oriente Médio começam a refletir no mercado global de fertilizantes e já provocam reações no Brasil. A alta nos preços da ureia e a retirada de ofertas de venda por parte de produtores da região indicam um cenário de cautela entre compradores e fornecedores.

O Oriente Médio concentra uma parcela relevante da exportação mundial de nitrogenados. Qualquer risco logístico na região, especialmente envolvendo o Estreito de Ormuz, pode provocar impactos no abastecimento e no custo dos insumos utilizados pelo agronegócio brasileiro.

De acordo com Renata Cardarelli, responsável por precificação de agricultura e fertilizantes da Argus, a primeira reação do mercado foi a suspensão de negócios. “Os preços de fertilizantes nitrogenados subiram no Brasil nesta segunda-feira, acompanhando a alta registrada em outros mercados globais, mas a maior parte dos participantes retirou ofertas de compra e venda nos portos brasileiros”, afirma. Segundo ela, o movimento mostra que compradores preferem aguardar maior clareza sobre os desdobramentos do conflito antes de fechar novos contratos.

Oriente Médio domina exportação global de ureia

A preocupação se intensifica porque a região é responsável por grande parte do comércio internacional de ureia.  Segundo informações da Argus, os países do Oriente Médio respondem por cerca de 35% do comércio marítimo global do fertilizante, o que torna qualquer instabilidade um fator relevante para o mercado.

Cardarelli explica que produtores da região suspenderam temporariamente as ofertas enquanto avaliam a situação logística. “Produtores de ureia do Oriente Médio retiraram ofertas de venda do mercado enquanto avaliam a disponibilidade nos estoques e a logística de exportação”, afirma. Segundo ela, a passagem pelo Estreito de Ormuz e o custo do frete marítimo são fatores decisivos nesse momento.

O Brasil mantém forte dependência dessa região para o abastecimento do insumo. Segundo dados do Comex Stat/Secex-MDIC, o Brasil importou cerca de 8,2 milhões de toneladas de ureia (NCM 310210) em 2025. Desse total, aproximadamente 1,5 milhão de toneladas tiveram origem no Irã e em Omã, o que corresponde a cerca de 18,4% das importações brasileiras do produto, com base em cálculos a partir da base de dados oficial.

Esse cenário já se refletiu nos preços. De acordo com a consultoria Argus, a ureia granulada subiu para a faixa entre 500 e 550 dólares por tonelada CFR Brasil, acima dos 475 a 485 dólares registrados no fim de fevereiro. O movimento acompanha a valorização observada em outros mercados globais.

Risco imediato é de preço, não de falta de produto

Apesar da escalada nas cotações, especialistas avaliam que o risco de desabastecimento no curto prazo ainda é limitado. O momento do calendário agrícola brasileiro reduz a pressão imediata sobre as compras.

Segundo Bruno Castro, responsável por precificação de grãos e fertilizantes da Argus, o país atravessa um período de menor demanda por nitrogenados. “Participantes de mercado ainda não indicaram risco de desabastecimento para o Brasil no curto prazo, porque o país está em entressafra de compras e a demanda para o milho de inverno já está praticamente atendida”, explica.

Ainda assim, o analista alerta que o impacto pode aparecer nas próximas temporadas agrícolas caso o conflito se prolongue. O risco principal, neste momento, está ligado ao aumento do custo do fertilizante e do transporte marítimo.

Outro fator de preocupação é a dependência brasileira de fornecedores localizados em países envolvidos direta ou indiretamente no conflito. “Em 2025, cerca de 2,7 milhões de toneladas de ureia importadas pelo Brasil vieram de países ligados à região, o equivalente a aproximadamente 35% do volume total adquirido no exterior”, reforça Bruno.

Frete marítimo e logística são pontos críticos

O transporte internacional é considerado um dos pontos mais sensíveis nesse cenário. Grande parte da ureia exportada pelo Oriente Médio passa obrigatoriamente pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.

Bruno Castro explica que qualquer interrupção nesse corredor logístico pode afetar o fluxo global do fertilizante. “Quase toda a ureia exportada pelo Oriente Médio passa pelo Estreito de Ormuz, o que deixa o comércio internacional altamente exposto a riscos geopolíticos”, afirma.

Caso o conflito se estenda ao longo dos próximos meses, a disponibilidade global do insumo pode diminuir. Com menos oferta internacional, compradores de diversos países devem disputar os mesmos fornecedores, pressionando ainda mais os preços.

“Uma alternativa parcial para o mercado brasileiro pode ser o sulfato de amônio produzido na China. O produto também fornece nitrogênio e pode ajudar a suprir parte da demanda caso a oferta de ureia diminua”, constata Castro.

Fosfatados também estão sob atenção do mercado

Embora o impacto inicial tenha ocorrido nos nitrogenados, o mercado de fosfatados também acompanha a situação com cautela. A principal preocupação envolve o fornecimento vindo da Arábia Saudita, importante exportadora para o Brasil.

“Os preços do MAP 11-52 permanecem estáveis na faixa entre 730 e 740 dólares por tonelada CFR Brasil. Mesmo assim, compradores preferem esperar novos sinais do mercado antes de realizar grandes aquisições”, disse.

O especialista explica também que a logística pode se tornar um fator crítico caso o conflito avance. “As operações no porto de Ras Al-Khair, na Arábia Saudita, seguem normais, mas as cargas precisam passar pelo Estreito de Ormuz para chegar aos mercados internacionais”, afirma.

Em 2025, a Arábia Saudita respondeu por cerca de 24% das importações brasileiras de MAP 11-52, somando aproximadamente 784 mil toneladas. Caso ocorram interrupções na rota marítima, o balanço global de fosfatados pode se tornar mais apertado.

Bruno Castro destaca que o mercado já enfrenta oferta restrita por outros fatores. A ausência de exportações chinesas até agosto e os custos elevados de produção aumentam a pressão sobre os preços internacionais.

Potássio segue estável, mas mercado monitora riscos

No caso do potássio, os impactos ainda são limitados. O mercado internacional de MOP (cloreto de potássio) permanece relativamente estável nas últimas semanas.

Segundo João Petrini, responsável por precificação de fertilizantes da Argus, as cotações não reagiram diretamente ao conflito até agora. “Os preços de MOP ainda não foram afetados, mas participantes do mercado já antecipam custos mais altos de fertilizantes e de frete marítimo”, afirma.

A produção e os embarques de Israel e Jordânia continuam ocorrendo normalmente. Juntos, os dois países representaram cerca de 9,6% das importações brasileiras de potássio em 2025.

No entanto, o mercado observa com atenção possíveis riscos logísticos na região do Mar Vermelho. Ataques anteriores a embarcações comerciais mostram que a instabilidade pode afetar o transporte marítimo.

Se as tensões se intensificarem, fornecedores podem reduzir ofertas temporariamente até entender melhor as condições de navegação. Esse movimento já começa a aparecer no mercado internacional de fertilizantes.

Custo e crédito preocupam produtores brasileiros

Além das questões logísticas, outro fator preocupa o setor agrícola brasileiro: a capacidade financeira dos produtores para adquirir insumos mais caros.

Segundo Bruno Castro, há sinais de que parte da demanda por fertilizantes já foi reduzida devido às dificuldades de acesso ao crédito agrícola. A situação pode se repetir nas próximas safras caso os preços continuem elevados.

“Recebemos indicações de que cerca de 15% da demanda estimada para o milho de inverno não foi coberta, tanto pela redução de área quanto pela dificuldade de acesso ao crédito”, afirma o analista.

Nesse contexto, muitos produtores podem optar por adiar as compras na expectativa de preços mais favoráveis. Essa estratégia, porém, aumenta o risco de adquirir fertilizantes mais próximos do plantio, quando o mercado costuma ficar mais pressionado.

Para o agronegócio brasileiro, o cenário exige atenção redobrada. Mesmo sem impacto imediato na oferta, o conflito no Oriente Médio mostra como fatores geopolíticos distantes podem influenciar diretamente os custos de produção nas lavouras do país.

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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