Banco do Brasil aposta em pessoa física para melhorar rentabilidade, com agro ainda pressionado

Publicado em 14/05/2026 15:04

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Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO, 14 Mai (Reuters) - O Banco do Brasil aposta no crédito à pessoa física para melhorar a rentabilidade, principalmente nos segmentos de alta renda e no crédito consignado, enquanto ainda enxerga um cenário pressionado para a carteira do agronegócio.

"Nossa estratégia de crescimento em pessoa física é a melhor forma que temos para melhorar a rentabilidade do banco, fazer mais retorno. O cuidado que temos que ter aqui é focar naquelas operações de risco/retorno mais ajustado", afirmou o vice-presidente de gestão financeira do BB, Geovanne Tobias, em teleconferência com analistas nesta quinta-feira, após divulgação do balanço na véspera, com queda de mais de 50% no lucro e recuo do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) para 7,3%.

Ele destacou que o crédito consignado privado é um vetor de forte crescimento, enquanto em cartão de crédito apontou que o foco deve ficar na alta renda. "Nós reduzimos muito o apetite (no segmento de cartões) para as pessoas físicas de menor renda, em que o risco está muito mais agravado", afirmou, ponderando, contudo, que o Novo Desenrola traz expectativa de melhora na adimplência. 

No primeiro trimestre, a carteira de crédito expandida pessoa física cresceu 1,4% no trimestre e 7,7% em 12 meses, para R$361,8 bilhões, enquanto a inadimplência acima de 90 dias ficou em 6,82%, de 5,10% um ano antes e 6,56% em dezembro de 2025.

Tal aposta vem mesmo com a visão de cenário para as pessoas físicas, em função do endividamento das famílias, mais desafiador, com perspectiva de uma piora na inadimplência no segmento. 

De acordo com o vice-presidente de controles internos e gestão de risco do BB, Felipe Prince, esse cenário mais desafiador está principalmente no cheque especial, no cartão de crédito, no crédito não consignado. "Nós estamos atuando para que essas linhas sejam canalizadas aos nossos clientes de mais alto valor, onde ele tem mais resiliência para enfrentar esse ciclo e naturalmente maior capacidade de pagamento para avançar com essas linhas", afirmou a jornalistas também nesta quinta-feira.

"Por outro lado, nós estamos muito tracionados no crédito consignado,... temos quase 25% do crédito consignado público, estamos fortemente tracionados para poder continuar liderando essa linha e, paralelamente, muito forte na atuação do 'Crédito ao Trabalhador...uma linha que nos traz um retorno ajustado ao risco bastante favorável", acrescentou.

Ainda assim, de acordo com Prince, dado o cenário macro mais desafiador e o efeito de contaminação dos clientes produtores rurais, que também são clientes nas linhas de pessoa física, os modelos indicam uma piora no desempenho da carteira de pessoa física, principalmente puxada pelo segmento de cartões -- que, no primeiro trimestre, registrou um índice de inadimplência de 7,12%. Mas ele reforçou que o portfólio está adequadamente provisionado, buscando antecipar ao risco que o banco enxerga à frente.

"Nós nos antecipamos, fizemos o reforço perto de R$2 bilhões para essa carteira especificamente", acrescentou Tobias.

AGRO

Para a carteira de crédito rural, porém, a perspectiva é de que continue pressionada, com alguma melhora em índices de inadimplência esperada somente a partir do segundo semestre. 

De acordo com os executivos do banco,  a pontualização  em abril, quando os vencimentos começam a se materializar de uma forma mais forte, veio aquém do alvo que o banco tinha. Trata-se de um indicador do banco usado para medir a porcentagem de clientes e operações de crédito rural que estão com os pagamentos em dia.

Eles ressaltaram que isso não significa necessariamente que irá refletir na inadimplência, uma vez que o pagamento pode ocorrer nos dias seguintes. "Mas ela indica um comportamento do cliente", ressaltou Prince, acrescentando que essa percepção foi um dos principais motes para a revisão para cima na previsão do banco para custo do crédito no ano.

O vice-presidente de agronegócio e agricultura familiar, Gilson Bittencourt, destacou que no mês de abril cerca de um quarto da carteira de agro era concedida a partir da nova matriz de resiliência que o BB começou a operar a partir de julho do ano passado. Assim, durante os próximos meses, o BB ainda tem um peso importante dos créditos concedidos antes desse novo formato.

"Somente a partir de setembro vamos ter um percentual superior a 50% dos vencimentos no mês já com a nova metodologia... Ainda vamos ver durante os próximos meses algum nível de inadimplência, porque estamos olhando ainda para uma carteira passada. A nossa expectativa é que essa adimplência vá melhorando ao longo dos próximos meses", citou, não descartando efeitos ainda em 2027, mas com esses financiamentos cada vez com um peso menor sobre o total de vencimentos à frente.

"Isso nos dá uma esperança muito grande de que a adimplência volte aos patamares históricos", afirmou, ressaltando que a produção agropecuária do Brasil continua forte e que o problema está centralizado mais em algumas atividades e principalmente por programas de fluxo de pagamento, mas não por receita que a atividade tem gerado. 

De acordo com Prince, o risco de crédito total do banco deve cair um pouco no segundo trimestre, mas o risco de crédito do agro cresce.

De acordo com Bittencourt, o BB busca manter uma carteira de crédito rural na casa de R$405 bilhões, R$410 bilhões.

CAPITAL

Os executivos do banco destacaram que o BB mantém a perspectiva de capital ao redor de 11% durante 2026, incluindo efeitos regulatórios, apoiado pela MP 1.314 e pela geração orgânica de capital, compensando o crescimento dos ativos ponderados pelo risco (RWA).  "A melhor estimativa que temos é que rodaremos entre 11% e 11,5% até o final do ano", afirmou Prince. No primeiro trimestre, o índice de capital principal do banco ficou em 11,59%.

Em relação a discussões dentro do banco envolvendo monetização de ativos do conglomerado do BB, Tobias disse na teleconferência com analistas que o foco deste ano é crescer negócios e o crescer negócios não está limitado ao banking, mas também a todo esse "nosso sistema solar".

"Eu falei da seguridade, falei da nossa asset, falei do nosso consórcio, tem todo o nosso negócio de meios de pagamento. De fato, quando estávamos olhando lá atrás, eventualmente possíveis medidas para estabilizar o nosso nível de capital, temos, sem dúvida alguma, inúmeras possibilidades para destravar valor. Mas, no momento, não vislumbramos isso, muito pelo contrário, porque elas são peças fundamentais para nos ajudar a passar por esse ciclo mais agravado de crédito", afirmou o executivo.

"Nós não temos no curto prazo nenhuma expectativa de olhar essas empresas como um potencial de destravamento de valor, desacoplando-as desse sistema solar. Nós precisamos delas sim na órbita do nosso conglomerado. A nossa estratégia é uma estratégia de conglomerado porque ela retroalimenta a geração de negócios e ajuda na principalidade dos nossos clientes."

Na entrevista a jornalistas, Tobias também citou que o ROE do primeiro trimestre ficou aquém daquilo que BB pode entregar e é muito fruto desse agravamento do risco, principalmente na carteira rural, mas também um pouco, agora, da posição prudencial do banco na carteira de pessoas físicas. Citando o guidance para 2026, ele destacou que embute uma perspectiva de melhoria da rentabilidade, "provavelmente entregando ROE entre 9 a 11%".

Os executivos do BB reiteraram o payout de 30%, enquanto descartaram a possibilidade de dividendos extraordinários. "Está totalmente descartada essa possibilidade", afirmou Tobias.

Na bolsa paulista, as ações chegaram a cair quase 5% no pior momento, mas reverteram as perdas e avançavam 1,4% por volta de 14h10, enquanto o Ibovespa tinha alta de 1,3%.

(Por Paula Arend Laier; edição de Pedro Fonseca)

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Fonte:
Reuters

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