Commodities caem em bloco nesta 5ª; petróleo desaba e pressão chega a grãos, café, açúcar e algodão

Juros mais altos nos EUA, dólar fortalecido e correção do petróleo provocam movimento; ouro e farelo de soja destoam do vermelho generalizado
Publicado em 17/09/2026 13:13

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O mercado internacional de commodities registra uma quinta-feira (17) marcada por baixas generalizadas fe agressivas, com perdas espalhadas entre energia e produtos agrícolas. Petróleo, soja, milho, trigo, café, açúcar e algodão operavam simultaneamente no vermelho no final da manhã e início da tarde, em um pregão marcado por ajustes depois da decisão do Federal Reserve sobre os juros nos EUA e por uma forte correção do petróleo.

Por volta de 12h30 (horário de Brasília), a soja negociada na Bolsa de Chicago recuava perto de 0,3%, enquanto o milho perdia 0,8% e o trigo cedia 0,5%. Mais cedo, essas perdas foram ainda mais intensas. Em Nova York, o café arábica caía 2,4%, o açúcar recuava 2,9% e o algodão tinha baixa de 1,8%. Entre as principais commodities, porém, o movimento mais intenso vinha do petróleo. O Brent, referência para o quadro global de oferta e demanda e negociado na Bolsa de Londres, perdia 2,2%, cotado pouco acima dos US$ 103,00 por barril. Já em Nova York, o WTI perdia mais de 1,5% 

Na contramão estava o ouro, tradicionalmente procurado como ativo de proteção em momentos de maior incerteza, que avançava 0,3% no mesmo momento.

O vermelho quase generalizado entre as commodities não encontra o mesmo reflexo nas bolsas, reforçando que o movimento desta quinta-feira é menos uma fuga indiscriminada do risco e mais uma reprecificação dos ativos diante do novo cenário de juros, dólar e energia, segundo explicam analistas e consultores de mercado.

FED MUDA O AMBIENTE PARA OS MERCADOS

O Federal Reserve elevou nesta quarta-feira (16) sua taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando-a para o intervalo entre 3,75% e 4,00% ao ano. Foi a primeira alta dos juros norte-americanos em mais de três anos e veio acompanhada de uma sinalização considerada mais dura pelo mercado sobre os próximos passos da autoridade monetária.

A mensagem reforçou a percepção de que o combate à inflação continuará exigindo condições monetárias restritivas por mais tempo. E assim, a reação apareceu rapidamente no câmbio e nos títulos norte-americanos. O dólar chegou nesta quinta-feira à máxima em sete semanas, enquanto os rendimentos dos Treasuries de curto prazo avançaram.

"O sentimento melhorou em parte porque o petróleo bruto caiu pelo segundo dia consecutivo, aliviando a pressão sobre os rendimentos dos títulos. Ontem, o Fed adotou uma postura bastante agressiva, e vimos o tipo de reação que isso provocou nos mercados de câmbio e de ações, como era de se esperar", explica à agência internacional de notícias Bloomberg, Fawad Razaqzada, da Forex.com.

Para as commodities, um dólar mais valorizado costuma representar um elemento adicional de pressão, já que grande parte das matérias-primas negociadas internacionalmente é denominada na moeda norte-americana, tornando-as relativamente mais caras para compradores que utilizam outras moedas.

O comportamento dos mercados, porém, não configura uma fuga generalizada dos ativos de risco nesta quinta-feira. Depois das perdas registradas por índices norte-americanos na sessão anterior, os futuros de Wall Street indicavam recuperação e as bolsas europeias também avançavam. O movimento sugere uma reprecificação distinta entre classes de ativos, com pressão particularmente evidente sobre as commodities.

No cenário doméstico, há ainda a volatilidade do dólar ganha um combustível a mais com o cenário eleitoral. "Depois da Super Quarta, o mercado digere o corte de 25 bps na Selic para 13,75%, ao mesmo tempo em que o Fed subiu os juros nos EUA. Menor diferencial de juros e aumento do prêmio político deixam o real mais sensível ao fluxo e ao noticiário doméstico", explica a equipe de análises da Agrinvest Commodities.

Além disso, nesta manhhã o governo anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família - a três semanas das eleições - e adiciona mais um componente fiscal e eleitoral aos preço dos ativos, apesar de o governo afirmar que o custo será absorvido dentro do orçamento atual, ainda segundo detalha a consultoria. A pergunta é: como?

Entre as pesquisas eleitorais, o novo estudo Atlas/Bloomberg foi reportados nesta quinta-feira, mostrando Flávio Bolsonaro a frente de Lula no segundo turno. Perto de 13h20, a moeda americana subia 0,12% para ser cotada a R$ 5,16, depois de abrir o dia recuando. 

PETRÓLEO PERDE PRÊMIO DE RISCO

O petróleo acrescenta outra camada importante à pressão desta quinta-feira. Há ainda muitas tensões relacionadas aos conflitos no Oriente Médio, porém, os sinais leves de alívio em algumas frentes acabam por dar espaço ao movimento de ajuste e realização de lucros após os recentes e fortes ganhos. 

A Arábia Saudita passou a redirecionar parte de suas exportações de petróleo através de Omã para contornar problemas logísticos provocados pelo conflito na região. Ao mesmo tempo, autoridades norte-americanas indicaram que o oleoduto saudita East-West poderia retomar suas operações em poucos dias.

As informações retiram parte do prêmio geopolítico incorporado recentemente às cotações, embora o risco esteja longe de desaparecer e o Brent permaneça acima dos US$ 100 por barril.

Há ainda uma particularidade importante no mercado de energia. Enquanto o petróleo bruto recua, o diesel continua enfrentando um quadro de oferta apertada. Os preços do combustível alcançaram níveis recordes em mercados internacionais diante dos impactos dos conflitos no Oriente Médio e também de ataques contra instalações russas. E os efeitos dessa relação já podem ser sentidos no Brasil, em pleno plantio das novas safras de verão. 

SOJA, MILHO E TRIGO ACOMPANHAM PRESSÃO

Na Bolsa de Chicago, soja, milho e trigo recuam nesta tarde de quinta-feira. 

Além do ambiente macroeconômico mais pesado, cada mercado continua respondendo aos seus próprios fundamentos. Na soja, por exemplo, permanecem no radar a demanda chinesa, o avanço da colheita norte-americana e os números de exportação dos Estados Unidos.

Nesta quinta-feira, o USDA informou vendas semanais de 1,702 milhão de toneladas de soja da safra 2026/27, dentro das expectativas do mercado, que variavam de 900 mil a 2,4 milhões de toneladas. No milho, as vendas somaram 1,026 milhão de toneladas, também dentro das projeções dos traders, enquanto o trigo registrou 325,9 mil toneladas.

Assim, os dados de demanda não trouxeram surpresa suficiente para neutralizar o movimento mais amplo observado entre as commodities nesta manhã.

A queda do petróleo também merece atenção dos mercados agrícolas por sua ligação com os biocombustíveis. Movimentos fortes no mercado de energia podem alterar as relações de competitividade de etanol, biodiesel e matérias-primas utilizadas em sua produção, atingindo especialmente milho, óleo de soja e, por consequência, o complexo soja.

Também por isso, os futuros do óleo de soja recuavam mais de 1,5% entre os contratos mais negociados na CBOT, com o dezembro valendo 68,44 cents por libra-peso. 

E olhando ainda ao complexo soja, o valente farelo contrariava o efeito manada e trabalhava com ganhos de mais de 1% entre os principais vencimentos. O dezembro já chegava aos US$ 372,10 por tonelada curta, eestendendo os fortes ganhos já registrados ao longo desta semana, estimulados pela boa demanda nos EUA. 

CAFÉ, AÇÚCAR E ALGODÃO TAMBÉM RECUAM

A pressão se estende às soft commodities negociadas em Nova York. O café arábica perdia quase 2%, enquanto açúcar e algodão registravam quedas ainda mais intensas, de aproximadamente 2,5% e 2%, respectivamente.

A simultaneidade das perdas chama atenção, mas não significa que os fundamentos de todos esses mercados tenham mudado na mesma direção. Há um componente macroeconômico comum pressionando diferentes matérias-primas, ao mesmo tempo em que cada commodity continua carregando seu próprio balanço de oferta e demanda.

No curto prazo, os investidores seguem ajustando posições a um cenário que reúne juros norte-americanos mais altos, dólar fortalecido, elevada incerteza geopolítica e grande volatilidade nos mercados de energia.

No café, as perspectivas de uma oferta maior vinda do Brasil pesam sobre as cotações desde o fim da última semana, corroboradas pelas exportações recordes de agosto e pelas primeiras floradas da nova temporada, que já começam a aparecer e reforçam os sinais de uma oferta brasileira robusta.

O clima, todavia, é acompanhado muito de perto pelos cafeicultores. Há mais chuvas e ventos fortes esperados para os próximos dias, depois de algumas regiões importantes de produção em Minas Gerais terem sido acometidas por granizo nos últimos dias. 

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