A supremacia das sementes

Publicado em 07/05/2010 09:04 201 exibições
A decisão do governo dos Estados Unidos de investigar a existência de práticas anticompetitivas por parte das grandes indústrias de sementes e biotecnologia reacendeu a discussão sobre as consequências da eventual concentração do mercado brasileiro do setor.

De um lado, produtores temem que a hegemonia de empresas como Monsanto e Syngenta, principalmente entre os cultivares transgênicos, possa trazer prejuízos com eventual aumento nos preços dos royalties e de sementes, aproveitando o escasso número de concorrentes.

As empresas, por sua vez, alegam que a formação de companhias gigantes é um processo natural do capitalismo. Além disso, o crescimento das organizações permite financiar o desenvolvimento de novas tecnologias, segundo o presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Ywao Myamoto.

A Abrasem não divulga a participação de mercado das principais empresas do setor no país, mas um estudo da ONG Centro Ecológico, com base em dados do zoneamento agrícola da safra 2007/2008 do Ministério da Agricultura oferece um panorama do mercado brasileiro. A concentração é maior no milho, com 58% das cultivares recomendadas pelo documento produzidas por obtentoras (desenvolvedoras de variedades genéticas) de apenas cinco grupos multinacionais (Monsanto, Dow, Syngenta, Du Pont e Nidera).

Na soja, há maior pulverização de mercado. Três grandes empresas (Monsanto, Du Pont, Syngenta) respondem por 28% do cultivares credenciadas. Entre as variedades transgênicas, no entanto, a supremacia é da Monsanto que tem tecnologia genética presente nas variedades modificadas de todas as desenvolvedoras.

A participação expressiva das multinacionais reflete um movimento iniciado no final dos anos 1990, quando uma série de empresas nacionais de desenvolvimento de variedades e multiplicação de sementes foi adquirida por grupos internacionais a partir da aprovação da Lei de Cultivares, em 1997, que garantiu a pagamento de royalties.

O coordenador da comissão de grãos da Federação da Agricultura no Estado (Farsul), Jorge Rodrigues, afirma que há preocupação com um eventual acirramento da concentração na produção de insumos, mas ressalta que, no Brasil, ainda há atuação de uma série de empresas menores e da Embrapa.

– O que precisamos é garantir que a pesquisa da Embrapa seja fortalecida – afirma.

O presidente da Abrasem rechaça a preocupação com a participação de mercado das grandes companhias. Para ele, o crescimento é natural e garante a oferta de nova tecnologias.

– Fazer pesquisa é caro e demora. Para lançar uma cultivar de algodão, milho ou soja gasta-se de 10 a 12 anos. Quando chega ao mercado, o agricultor compra e tem vantagem econômica na produção. E se não quiser comprar, há variedades de outras empresas disponíveis – argumenta.

Opção pela produção própria

O agricultor Claudino Nadal, 52 anos, de Passo Fundo, reserva uma parte da soja colhida para replantar no próximo ano. A prática, comum entre os produtores gaúchos, é a garantia que Nadal diz ter de uma semente de boa qualidade e mais econômica. O quilo da semente de soja não tratada no mercado é de cerca de R$ 1,25. Se o produtor rural for comparar pelo preço que recebe pela mesma quantidade na hora de vender o produto – estando a saca cotada aos atuais R$ 32 – terá prejuízo, já que recebe da indústria cerca de R$ 0,53 pelo quilo do grão. Para Nadal, portanto, reservar parte de sua produção para replantio é fundamental para se ter lucros no campo.

– Esta semente é levada para análise. A partir disso, sei que posso confiar. Já usei semente comprada e não tive o resultado esperado. Ela tinha problemas. Prefiro não arriscar – explica o agricultor, que cultiva 140 hectares.

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Fonte:
Zero Hora

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